The Lair of Seth-Hades: Maio 2008
Arte: Meats Meier - http://beinart.org/artists/meats-meier/gallery/meats-meier-2.jpg
Presente do amigo Zorbba Baependi Igreja - artista plástico, poeta e um dos idealizadores da Revista Trimera de Letras e do Projeto Academia Onírica [poesia tarja preta].

LIRA ANTIGA BARDO TRISTE & LIRA NOVA BARDO TARDO

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sábado, 31 de maio de 2008



A INTOLERÂNCIA NOSSA DE CADA DIA
Ateus convictos, religiosos convictos e a necessária não-convicção filosófica

(1a parte - under construction)

Soa no mínimo estranho ver que de uma mensagem de paz, amor e respeito ao próximo, como a de Jesus, tenha advindo guerra, discórdia e dissensão, tenha sido ela utilizada, ao longo dos tempos, como um instrumento de opressão e de intolerância, quando é de seu cerne justamente o contrário. E isto é algo que está às claras, sendo algo também para o que, todavia e estranhamente – para menos dizer – poucos atentam. Não é menos estranho vermos, também, que, de uma mesma matriz, – o pensamento socrático – tenham surgido escolas tão díspares quanto a hedonista e a estóica, uma preconizando que a felicidade consistiria na entrega aos prazeres; outra, que devemos dominar as paixões, tomadas como sinônimo de doença, sendo isto mesmo o que se apreende da própria etimologia do termo. “Suporta-te e abstém-te”, era o lema estóico, ao passo que a busca irrestrita pelo prazer era o hedonista. Agora vejamos: de Jesus que apregoava 'o amor ao próximo como a si mesmo' e o 'não matarás' tergiversaram as idéias justo para matar (sob seu nome); e de Sócrates advieram pensamentos que focaram objetivos tão díspares para o labor filosófico quais são os do estoicismo e do hedonismo.
Antes, porém, de prosseguirmos com o raciocínio ora lançado, cabe aqui um pequeno parêntesis – mas severo óbice – quanto a nos termos valido da expressão “mensagem de Jesus”, sobretudo, hoje, quando se questiona a existência de uma tal figura, ou se lhe contrapõe um Cristo histórico diverso daquele que nos foi dado “conhecer” até então, ou se coloca, ainda, a questão fulcral de ele nada ter escrito de si, quando tudo o que dele sabemos – qual de Sócrates – nos veio pelas palavras de outros (discípulos, apóstolos, etc.), quer seja a seu respeito, quer acerca do que eventualmente tenha dito ele. E pior, a despeito disto tudo, pesa ainda o fato de que – seja ele figura histórica real ou personagem fictícia – toda a história (ou pelo menos a perspectiva ocidental dela) tenha sido contada tendo-o como marco, como divisor de águas, tudo o mais sendo pautado como eventos ora perpassados antes, ora depois dele.
A tal respeito, certa vez um amigo me disse “ninguém pode ofertar o que não possui. Ninguém pode dar o que não tem.” E prosseguia: “se é verdade que Jesus não existiu, enquanto pessoa” – dizia ele – “ainda assim, no final das contas, ele teria existido”. Concluindo então: “se ele foi somente uma personagem criada pelos apóstolos, os apóstolos mesmos terminariam por ser o Jesus que conhecemos”. Explico: ora, os exemplos de fé e de sabedoria presentes na figura do Cristo teriam de ter advindo necessariamente de quem os possuísse, de quem tivesse – ele mesmo – esta sabedoria, este conhecimento. Não haveria como forjar virtudes tais num personagem sem que o autor mesmo as possuísse. E, por fim, sob certa perspectiva, se tomarmos como verídica a hipótese acima lançada – a de que ele teria sido uma criação de seus seguidores – Jesus, ainda assim, teria existido, porque exatamente não se pode ofertar aquilo que não se possui. Ora, se Jesus foi uma invenção dos apóstolos ou se Sócrates, por exemplo, teria igualmente sido uma invenção de Platão, guardadas as devidas proporções, tanto Sócrates como Jesus teriam – de fato – existido. Invenção alguma brota de uma pessoa, ou mais delas, se nelas mesmas não houver algo disso, se nelas não houver algo do que fazem plasmar em suas “obras”. As verdades exaradas nas lições de ambos (Sócrates e Jesus) estão lá, e isto é inegável. O ocidente muito colheu destas duas grandes figuras a que ora fazemos menção, seja de positivo ou mesmo de negativo (ainda que o negativo tenha advindo, a mais das vezes, de interpretações errôneas do que a eles atribuímos). E o que seria mais importante, afinal, a mensagem ou o mensageiro?! A mensagem de ambos está aí, persistindo ao longo dos tempos, como algo digno de alguma consideração, de estudo e até de apreço.
Há espaço ainda para um adendo a mais, antes que os mais conservadores venham a questionar o trato de Jesus numa abordagem que se pretenda filosófica e não-religiosa (não no sentido institucional do termo), tampouco de Filosofia da Religião (a qual já ganhou ares outros, ora cético academicista, ora religioso-institucional propriamente, etc.). Bem, se é verdade que filosofia pode traduzir-se em desbanalizar o banal, acho que o tema é perfeitamente tratável aqui. Ou acaso se pode dizer haja algum tema alheio ou avesso ao debruçar filosófico? Existe objeto sobre o qual a Filosofia não deva ou não possa se debruçar? Seria Jesus seria esse tema? Em que a Filosofia poderia ser diminuída (ou aquele que a “faz”) por focar objeto de uma ordem qualquer ou não de outra? Não deveria o pensamento de Jesus (não aquele que se perpetuou no seio de religião institucional X, Y ou Z) ser abordado em Filosofia (e não falo aqui de Filosofia da Religião, repito), como também as idéias de Buda, de Gandhi, etc., etc., etc.? Será que Jesus vai ficar relegado nos meios acadêmicos ao divisor de águas temporal (ANTES DE CRISTO ou DEPOIS DE CRISTO), toda a história Ocidental sendo contada tendo Jesus como parâmetro, quando tampouco sua figura é estudada em história, em filosofia, em psicologia, etc., ou, quando muito, apenas mencionada, bem de longe e sub-repticiamente, donde se propaga – a mais das vezes – o pensamento de instituições de poder secular (ainda que não se rotulem como tais) que o pensamento propriamente de Jesus, a despeito aqui de considerações religiosas? Vejamos, quando o Sócrates de Platão diz, “é melhor sofrer uma injustiça que praticá-la”, em que isso se diferencia do “pagai o mal com o bem” ou do “bem aventurados os que sofrem...”, atribuídos a Jesus, sendo este dito um religioso e aquele um filósofo? Será que não existe conciliação possível entre o “conhece-te a ti mesmo” e o “o Reino de Deus está dentro de vós”, ou ainda o “conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”? Acaso Sócrates não professava a imortalidade da alma e Jesus também? Por último, e mais importante, pode a existência ou a inexistência de alguém cuja vida e também a morte constituem balizas históricas para todos os demais fatos anteriores e posteriores a si, ser considerado tema desprezível ou não digno de trato filosófico? Pode-se dizer seja a religião um mal em si a ponto de ser alijado como temática abordável ou suprimida a um âmbito restrito qualquer nesta abordagem? E o que viria a ser religião, instituição ou vivência prática, como a virtude, por exemplo?
Bem, considero Filosofia como sendo uma só. Quando falamos, por exemplo, da filosofia de Kant ou da filosofia de Hegel, falamos, sim, nos sistemas filosóficos de Kant e de Hegel, não havendo, grosso modo, a filosofia de ‘fulano’ ou a de ‘beltrano’. Em tais termos, a Filosofia Estética seria a Filosofia (Geral) debruçada sobre a idéia de belo (objeto próprio da estética); a Filosofia da Educação seria a mesma Filosofia focada nos objetos próprios da educação; a Filosofia Jurídica, por seu turno, seria novamente a Geral debruçada sobre os objetos próprios do Direito (idéia de lei, idéia de Direito, idéia de Justiça...), e assim por diante. E não haveria tema algum que fosse avesso à Filosofia, tampouco Jesus, não se podendo dizer – como equivocadamente é comum repetir – que tratar de Jesus seria (estritamente) tratar de religião, como fosse ele (ou seus ensinos) tema restrito do campo religioso, ou que a Filosofia não pudesse se acercar de que tema fosse, inclusive dele.
Ora, o filósofo de verdade, aquele que busca respostas com isenção, deve ter uma única convicção: a de que convicções são perigosas! “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, já diria o nosso saudoso Raul Seixas. Bem, é perigosa a convicção teísta?! Não menos o é a ateísta! É intolerante o ateu convicto como o é também o teísta convicto. E não é mal o pensar diferente. O mal reside em querer fazer de seu pensar, algo que se descobriu válido para si, diretriz aplicável, impositiva e indistintamente, a todos. A maior piada – e o mais óbvio, penso ainda – é que os convictos (seja lá no que for: na crença de que Deus existe ou naquela de que Deus não existe, por exemplo) se arvoram sempre melhores que os partidários de idéias antagônicas. Basta ver que, se a Verdade um dia se descortinar, comprovando a existência de um Ente Criador, uma Inteligência Superior (Logos) que coordena o Cosmos, algo que confirme o atendimento a nossas ânsias por uma Divindade, os “ateus convictos” vão logo ‘espernear’ no sentido de sua crença igualmente cega, como tantas mais que criticam. Se, por outro lado, descobrir-se, comprovadamente, a inexistência de uma Divindade, se esquadrinhando o cosmos, em suas múltiplas dimensões, nada encontrarmos neste sentido, o mesmo proceder será o dos crédulos convictos, a rebelar-se contra a evidência inconteste. Como se vê, a convicção denota exatamente artigo de fé, seja lá em que direção aponte. E os pólos contendores que ora tomamos como exemplo, ambos convictos, nada mais fazem que erguer armas (proceder belicoso e nada racional, diga-se), sem se dar conta de que convicção não é algo que se coadune com o proceder filosófico. Filosofia, penso, é atividade inerente ao ser pensante, é potência do ser pensante (ainda que alguns dela não façam uso corriqueiro), ou que exija considerável esforço para despertar em si esta potência própria do ente humano. Muitos há que só “pensam” no agir maquinal, nas ações de âmbito estritamente profissional, no know-how, num saber-fazer, num saber instrumental, naquele que possa traduzir-se num ganho material palpável, olvidando o quanto verdadeiro pensar exige esforço direcionado para tanto, olvidando o quanto o verdadeiro pensar dói, trazendo em seu bojo, porém, os louros que lhe são co-respectivos e equivalentes.
Falar de convicção e Filosofia faz lembra a piada: “não convém ladear inteligência a militar”, ou seja, ou se seria inteligente, ou se seria militar, as duas opções acabando por se fazerem mutuamente excludentes. Mas voltando à seriedade que o assunto exige, é de dizer-se que, de igual modo, não se pode tomar por filósofo aquele que se quer convicto do que quer que seja. Noutras palavras, ou se seria filósofo ou se seria convicto. O filósofo é um “buscador”, um transeunte em melhor palavra, aquele que destruiu o conforto de sua “casa”, de seu “lar”, para viver sempre a construir, desconstruir e – sobretudo – reconstruir seu habitat, e tantas vezes quantas se façam necessárias. É aquele que opta por viver sempre em ambientes provisórios, sem firmar raízes ou afeto demasiado a teorias ou concepções de que ordens sejam. O filósofo é o que se libertou da caverna e não há de querer forjar uma outra para si. O ódio comum no seio das agremiações, dos partidos e dos “ismos” é a exata marca da convicção e o oposto do proceder filosófico. E exemplo melhor não nos falta: o ódio com que normalmente se reportam os ateus aos crédulos (via de regra, arvorando-se mais libertos, mais racionais...) denota, exatamente, encontrarem-se em prisão pouco diversa da que condenam e pretendem denunciar, eis que o ódio dista consideravelmente da libertação, porque se faz liame inexoravelmente mais sólido que o próprio amor – fruto de paixão, próprio de doença. O ateu convicto e belicoso nada mais parece ser que um ex-crédulo frustrado ao ter descoberto as mentiras, erros, equívocos sem-conta da fé que um dia abraçou com igual convicção. É menos escravo que os que lá fincaram raízes?! Não creio.
Quis dizer aqui – e espero ter sido suficientemente claro – que Filosofia não é compatível com convicções, exceto talvez aquela de que convicções são extremamente perigosas. O verdadeiro filósofo pretende-se livre de entraves sectaristas, intentando divisar algo além dos rótulos, dos “ismos”, e de toda essa ladainha. E essa 'raivinha' infantil contra as religiões, o julgar tema de ordem religiosa como algo avesso ao proceder filosófico, ou mesmo o dizer-se 'ateu convicto' (como se isto se traduzisse na mais sábia e racional das afirmações) parece ser coisa de frustrado... nunca de filósofo. Pintar as religiões como o mal, quando tudo que divisamos neste mundo é misto de bem e mal, quando tudo nesta vida nos parece trazer ônus e bônus imbricados e quase que indissociáveis, é raciocínio que transparece ser dos mais chulos, além do que mero lugar-comum. A estes que assim pensam lembraria que, da vida recebemos sempre o pacote completo, ela mesma, o saber e tudo o mais vêm permeados de um misto de prêmio e castigo, de prazer e dor, de libertação e de escravidão, de céu e de inferno (por enquanto, ao menos). Aristóteles nos legaria dizer similar, ao professar que 'as raízes da árvore do conhecimento são amargas, mas seus frutos são doces.'
Nesse ínterim, e a despeito mesmo da crítica ora tecida e já demasiado pesada, me permito aqui ser ainda – eu também – incisivamente intolerante (e me escudaria, ao fazê-lo, no dizer de um John Locke, segundo o qual só seria admissível uma única forma de intolerância, aquela mesma dirigida aos próprios intolerantes). De repetirmos, então, o ateu convicto nada mais parece ser que um ex-crédulo-religioso-enrustido e frustrado pela decepção tida com a fé que um dia creditava com fervor. E através de sua raiva (pouco construtiva, diga-se de passagem) ignora seja seu ateísmo mesmo um igual objeto de fé (e em nada diverso daquele que condena). Neste sentido, só as mentes que intentem (e quiçá consigam) ser livres (o quanto se possa) e o mais possível isentas é que podem fugir desse círculo vicioso de amor e ódio pelas agremiações, pelos rótulos – sejam teístas, deístas, ateístas, ou outros quaisquer –, pelas indumentárias vocabulares de toda a sorte, pelo apego ao partido, ao grupo, ao time, ao clube, ao credo religioso formal, e a agremiações de que ordens forem, desse ranço sentimentalóide por sentir-se parte de um grupo, seja ele qual for, quando talvez nossa percepção seja única e – possível – estejamos sós a pretender dialogar com linguagens que seriam díspares, porque, talvez, única a de cada um. Todavia, em contrapartida, toda a construção humana desde o despertar do primeiro ente racional, na noite dos tempos, até então pesa fortemente em sentido contrário, uma vez que conseguimos comunicar algo, ainda que a comunicação mesma fique restrita ao teor da linguagem de que se faz uso.
Agora vejamos: de Jesus, que apregoava 'o amor ao próximo como a si mesmo' e o 'não matarás', tergiversaram as idéias justo para matar sob seu nome; e, de Sócrates, advieram pensamentos tão díspares como o são o estoicismo e o hedonismo. Há ainda os que, julgando bem interpretar Sócrates, digam-no um amante da morte, um apregoador do desapego (e desrespeito) à vida, em boa parte por ter aceito, resignadamente, sua condenação à pena morte. E dizem: “é que queremos ouvir o inaudito”, terminando, por vezes, ouvindo o que nem sequer foi dito. E, quando contraditados, sustentam não podermos fazê-lo, porque, basicamente, não poderíamos perscrutá-lo, uma vez que – como Jesus – ele nada teria escrito de si. Desconsideram, de já, que este seu mesmo argumento e premissa valha, igualmente, para a própria tese que levantam e querem suster, desarticulando-a de igual modo. Bem, que não possamos perscrutar de fato Sócrates, é uma coisa, mas – penso – mesmo o Sócrates de Platão não parece ter morrido por falta de amor à vida ou à si... exato, a contrario sensu, por amor à vida, a si mesmo e àquilo que lhe dava prazer fazer: o filosofar. Lugar-comum?! Talvez, mas qual o receio nosso quanto a lugares comuns se traduzirem algo digno e de senso?
Sócrates fora, ele também, um membro da 'Ekklesia' que o julgou. Eis as alternativas lhe foram dadas por seus sentenciadores: ou abandonaria a cidade, ostracismo; ou morreria pela ingestão de cicuta. Vejamos, quando Aristóteles, já bem posteriormente, viria a dizer que o homem é um ser político, nem de longe falava da noção que temos hoje de política. Falava do homem enquanto ser da ‘pólis’, da cidade-estado grega. É que se pressupunha, não haveria viabilidade de vida, fora da pólis – e, de fato, à época era, como ainda hoje o é. Revela-se sobremaneira rude e dificultosa a vida longe de outros seres humanos. Bem, existem ermitões, é fato, mas não desde o nascimento. É fácil perceber, por exemplo, que um bezerrinho recém-nascido leva apenas alguns minutos para pôr-se de pé, um pouco mais para caminhar ainda meio cambaleante. O certo é que, em bem menos de quinze, talvez dez minutos, ele já está mamando nas tetas da vaquinha, sustendo-se por si mesmo, soerguido pela força de seus próprios músculos. É bastante difícil, incogitável até, desenhar mentalmente um bebê humano a gozar de uma tal autonomia. O rebento humano leva anos para se alimentar sozinho, anos para começar a engatinhar e, mais tempo ainda, para andar por si só, que se dirá de ter autonomia para sua própria sobrevivência e sustento. Sendo suas capacidades tão restritas, seu único mecanismo defesa, o único meio de que dispõe para enfrentar as adversidades – seja a dor da solidão, da fome ou qualquer outra – é o choro, um grito de alerta, um pedido de socorro. Sócrates não era um bebê, é óbvio. Mas, atentemos bem, a ele foram dadas apenas duas alternativas: a morte ou a morte! Para ele, viver fora da pólis era, de qualquer forma, estar destinado à morte – e em um duplo sentido: a um, porque inviabilizaria (senão, pelo menos, dificultaria sobremaneira) a vida (mas não creio, nem é o que os diálogos platônicos denotam, ser esta a preocupação socrática); de outro, porque o impossibilitaria de travar contato com os seus, obstaculizando-o, pois, de filosofar, ou pelo menos de fazê-lo da maneira que mais lhe aprazia: o diálogo, a conversa. Falou-se aqui em prazer, mas que seria o prazer?! Para Sócrates, era filosofar, falar com quem lhe aprovesse, sem nada cobrar por isto. Nisto ele se considerava mais livre e feliz que os sofistas, pois não era obrigado, ao peso do ouro amoedado, a ter que fazer o que não queria, quando não queria, ao passo que os sofistas, ao venderem seus conhecimentos, eram obrigados a ministrar seus ensinos, uma vez já recebido o preço. E, ironicamente, Sócrates ainda alertaria a seus condenadores que se se via condenado à morte por eles, não menos eles, condenados de verdade, também o eram, eis que imputavam-lhe uma pena a que todos estavam fadados.
Engraçado que quase chego a tender, neste tocante específico, ao pensar niilista, quando constato que do pensamento de um só homem, de Sócrates, tenham divergido escolas tão diversas como a estoicista e a hedonista, para não falar da epicurista, a quase que se entremear às duas. O correto, para uma, era a privação das paixões, que rebaixariam o homem de um certo modo; a felicidade estaria na dor, no "suportar-se e abster-se"; já, para outra, a virtude estaria na entrega aos prazeres de toda a sorte. É diante disto que se pode constatar quão apressados são os julgamentos de Jesus pelos homens de hoje, que mais julgam o que fizeram com o seu pensamento seus seguidores, do que o seu pensamento em si, apondo o dizer fácil do dizer de que não se possa conhecê-lo.
A esta altura, alguém poderia questionar, protestando: ‘sim, mas e porque nos reportarmos aqui sempre às figuras de Sócrates e Jesus no trato da questão da intolerância?’ E talvez aí já nem mais importe tanto – face as razões já dadas – o pincelar, aqui e acolá, de abordagens de cunho religioso (ou algo aproximado disso), no caso de Jesus, mas querendo pôr em xeque especificamente o uso de um pensar alheio e dito antiquado sobre a questão, propondo, é provável, o abandono deste “modo antigo de pensar” e a adoção de um pensar autêntico, um pensar propriamente nosso. A primeira vertente da questão revela-se simplória. De um lado, as personagens adotadas como exemplos nesta nossa incursão professavam como cerne mesmo de suas concepções a tolerância, o que mais que justificaria a sua adoção aqui. Por outro lado, a proposta de abraçarmos uma concepção própria, e não a de tais (ainda que como mera base à análise) demandaria raciocínio algo mais elaborado como resposta.
Sei que talvez só pareça tangenciar o tema da discussão em tela e agora em evidência, mas o exemplo a seguir demonstrará, neste tocante, ser bem mais elucidativo do que realmente aparenta. Senão vejamos: certa feita, conversando com um amigo, a transitar pelos corredores da universidade, ouvimos de alguém que passava ao largo e dizia mais ou menos isto para aqueles que com ele seguiam (sic!): “devemos gostar é de música piauiense... estou cansado de pessoas que ‘curtem’ outros estilos... que não prezam o que é nosso... porcaria de rock... porcaria de música clássica!”
Floreios à parte, eu me pergunto: devemos apreciar o que é bom, por ser melhor, ou o que é nosso, simplesmente por ser nosso? Devemos cultivar gosto pelo que se apresenta como esteticamente superior (e creio tenhamos meios para averiguar em termos algo objetivos o que é melhor no campo da arte, como em outros campos mais), ou devemos apreciar e nos dedicar (tão-somente) àquilo que é nosso – muito embora eventualmente possa se tratar de arte pueril, de arte menor, muitas vezes sequer arte, persistindo num ufanismo sem sentido ante a arte universal (ou mesmo ao saber universal), àquilo que é clássico (no sentido de pioneiro e a um só tempo de norte maior para um dado campo – seja o da arte, o da filosofia, o da ciência, o da religião, etc.)? Atentemos bem, ainda estamos a falar de intolerância, em vertente, porém, algo diversa daquela linha que tomamos ab initio, é bem verdade, mas, ainda assim, é sobre ela que ora conversamos.
Voltando à situação dada, temos que, se um artista local se destaca em seu campo de atuação, se sua obra e sua arte são dignas de admiração, se nos satisfazem o senso estético, se traduzem a idéia de belo de modo a que seja digna de admiração e apreciação, isto é uma coisa. Que deva eu dedicar-me a apreciar – e tão-somente – a arte local, porque local, creio seja declarada manifestação de bairrismo tolo e mesmo de ignorância (no sentido mais rasteiro que o termo possa assumir) – sendo intolerância isto também. O mesmo poderíamos dizer da proposta de só nos valermos de um pensar próprio, pretensamente autêntico, algo que fosse só nosso (como pudesse haver algo de novo que não devotasse porção sua ao passado); vou mais longe, de uma “filosofia puramente nacional” (como fosse possível haver algo do tipo; como filosofia não fosse algo de per si, universal, seja pela busca ou mais ainda por aquilo que constitui), ou melhor – nos termos já expressos – de um sistema filosófico tupiniquim. Bem, de igual modo podemos concluir, se este pensamento nos trás algo de novo, se se adequa melhor que outros a nosso aparato cultural, se nos acrescenta algo e vem desanuviar questões que os instrumentos já postos não têm conseguido, se constitui perspectiva que, somada às demais, pode fornecer um melhor quadro das coisas, perfeito! Agora, que devamos nos dedicar – e tão-só – a ele, porque nacional (como se nação não fosse termo já batido, pisado e repisado em texto outro, aqui mesmo, como um a mais dos instrumentos de dominação utilizados pelo “poder”), como se abdicando de todos os sistemas filosóficos mais ganhássemos algo que o valha, é tolice e beira a infantilidade – constituindo manifestação clara de intolerância isto também!
Todo e qualquer sistema filosófico, enquanto tentativa de melhor enquadrar (e/ou traduzir) o real, com suas “transparências” e classificações, intentando conferir ou divisar ordem ao real, é passível de erro, deixa brechas, pontos que não foram convenientemente abordados, perspectivas que deixou à margem, inexploradas.
O que convém, hodiernamente, não é mais permitirmo-nos recrudescer em um bairrismo sem razão – seja no campo da filosofia, no da arte, da ciência ou em outro qualquer. Exige-se, sim, uma coadunação de estilos, uma combinação de sistemas, uma articulação de saberes em busca das soluções adequadas para os problemas que urgem, buscando uma perspectiva plural em prol de respostas a que se perquire desde tempos imemoriais, porque filosóficas por natureza, sem nunca desprezar seja o ser humano mesmo talvez a maior das incógnitas que temos diante de nós. Um paradigma holístico, portanto, é o que urge, não o fechar-se numa só e restrita visão de mundo, menos ainda querer impô-la aos outros como se algo que valha o preço do desprezo de todas mais, ainda que digna de senso ela mesma.
Bem, dadas essas (nada metodológicas) premissas de nossa análise, voltemos novamente à figura de Jesus e à questão da intolerância religiosa no seio da cristandade (intra-muros) ou vinda de concepções diversas (exteriores). Há alguns pontos fulcrais a considerar, cada um deles abrindo margem a discussões sobremaneira diversas e bem mais profundas, algumas das quais deixaremos apenas ‘no ar’, porque certamente refulgiriam do tema proposto.
Pois bem, ei-los então:
1.º - Jesus nunca se intitulou Deus e não há, na Bíblia, uma só menção SUA a tal respeito; a contrario sensu, quando chamado de “bom mestre”, ele retrucou: “- Bom?! Por que me chamais de bom? Só um há que seja bom e este é o Pai que está nos céus.” Isto já bastaria para afastar uma tal idéia. Ainda assim, sabemos que, fruto de disputas mais políticas que religiosas, nos diversos e sucessivos concílios perpassados quase 400 anos após a sua morte é que determinou a adoção de uma tal concepção, destinando a todas as posições vencidas a pecha de heresia, ainda que a vitoriosa e anterior viesse, quase sempre, a ser considerada herética, por vezes, exatamente no concílio subseqüente, daí o nestorianismo, o monofisismo, o arianismo, etc., etc., etc.
2.º - Jesus não veio fundar uma religião institucionalizada formal (que se dirá de muitas, quais as que há por aí então). Ele era contra as práticas exteriores e os ritos vazios de um verdadeiro envolvimento íntimo. Era justo contra isto que ele se soerguia, criticando os fariseus e hipócritas por tal razão, por seguirem exteriormente impecáveis no agir e no falar, mas o íntimo guardando toda a sorte de veleidades. Ademais, que saibamos Jesus era constantemente expulso de templos e sinagogas, como então vir para criar uma outra a mais, se pregava ao ar livre e era seguido pelos mais humildes, pelos perseguidos e discriminados, por doentes (leprosos, cegos...), meretrizes e mendigos, bem diverso da ostentação e da riqueza dos vendedores de indulgências que vemos hoje em dia. Se se quer conferir razão, é de se lembrar que, ao ter dito: 'o Reino de Deus está dentro de vós', frase tão alardeada por Tolstói e Gandhi em suas lutas libertárias e anarquistas (e leia-se anarquista aqui, no sentido de fundar uma ordem na ausência de coação exterior ao homem – uma ordem interior), Jesus estaria igualmente dizendo que Deus e seu Reino não estariam em templos de pedra ou em instituições criadas por homens, mas dentro de cada um de nós, como em toda a criação, enfim. Algo que se nos afigura similar ao 'conhece-te a ti mesmo' de Delfos, adotado por Sócrates como prática de vida, como virtude de ímpar importância.
3.º - Ao dizer 'sede oleiros de vosso próprio barro' estaria igualmente considerando desnecessária a figura de sacerdotes, padres, bispos, pastores, clérigos de toda a sorte, ou quem quer que seja (de exterior) a guiar o homem, tomando como imprescindíveis apenas sua razão, seu bom-senso, sua própria consciência, ou sua fé, se preferirem, como elementos a secundar a edificação do próprio homem. O homem de hoje seria – ele mesmo – o artífice e o edificador do homem de amanhã. O além-homem?! Quem sabe...
4.º - Falando então da intolerância “extra-muros”, não é incomum tomar-se o desapreço pela igreja pelo desapreço à figura do próprio Cristo. A grande maioria dos ranços religiosos e dos ódios disseminados se dirigiriam, em verdade, à Igreja (por seus erros sem-conta) e não a Jesus. E a despeito de qualquer manifestação de cunho religioso (aqui no sentido pejorativo), é visível o abismo que há entre o que as religiões pregam e seus cultores. O mesmo tendo ocorrido também com a figura do Cristo. Nietzsche já diria "o cristianismo morreu na cruz", porque, talvez fosse o entendimento dele, Cristo teria sido o único genuinamente cristão, inobstante ainda o termo tenha sido criado quase que 200 anos após sua morte. Ou seja, ele mesmo não poderia ser cristão, se entendemos por cristão aquele que segue uma religião formal cristã – que à época sequer existia.
5. º - Jesus disse: 'pagai o mal com o bem'. Sócrates, pelas letras de Platão, afirmou: 'é melhor sofrer uma injustiça do que praticá-la'. Nos Vedas, lemos: 'sê para o teu inimigo, o que é o sândalo do campo que perfuma o machado do lenhador que o corta; sê para aquele que te aflige, o que é a terra que devolve farta colheita ao lavrador que lhe rasga o seio.' Ao que parece, seriam mensagens similares e de mesmo fim – mostrar talvez que, também no campo moral, há uma reação para toda ação, e que a reação de um “mal agir” seria tão danosa a ponto de preferir-se sofrer as conseqüências do agir reprovável de outrem que tomar igual atitude.
6.º - Quando Jesus diz: 'se te baterem na face direita, oferece a esquerda também' temos que atentar para o fato de que, uma pessoa destra, batendo na face direita de outrem, só poderia fazê-lo com a parte externa da mão – e esse era o modo usual de se bater em escravos, o que seria considerado uma indignidade. Ora, oferecer a outra face seria fazer com que batessem com a palma da mão, como se faria com um igual (e não com um escravo). Daí fica fácil entender porque o 'ahimsa' de Gandhi, sua mensagem de não-violência, teve grande base no pensamento de Jesus, sendo sua proposta resistir ao mal sem praticar o mal. Para Gandhi, o mal proliferaria do mal, devendo-se fazer o bem, como única forma de extirpar o mal. Optou condenar o mal com veemência, resistindo-lhe com todas as forças, mas amando e fazendo o bem ao próprio malfeitor, eis a única maneira que divisava para pôr fim ao mal. E talvez pudesse ele ser considerado mais cristão do que eventualmente sejamos por nos arvorarmos seguidores de uma religião cristã, por sermos cristãos de rótulo, tendo ele seguido mais fielmente os ensinos do Cristo que muitos de nós, seus próprios ditos seguidores no Ocidente.
7.º - A intolerância “intra-muros” chega a ser ainda pior. As igrejas cristãs todas (leia-se também: seus seguidores), a todo o instante, vivem a digladiar pelo título de verdadeiros cristãos, alcunhando as demais de seitas, detratando-se umas às outras. A tal respeito, há uma passagem da bíblia em que dois apóstolos recriminavam a um homem que pregava e expulsava demônios em nome de Jesus, muito embora, os apóstolos não o reconhecessem como um dos seus, uma vez que nunca o tinham visto, tampouco dentre aqueles que acompanharam, alguma vez, os ensinamentos do mestre. Traziam-no pelo braço, recriminando-o por pregar e realizar feitos em nome de Jesus. A esse tempo, Jesus exortou: “deixem-no, porque aquele que não é contra nós é por nós!”
8.º - As igrejas, porém, falam em uníssono na ressurreição da carne. Apregoam que, para que adentremos a um tal Reino de Deus, precisaríamos ter ressurrectos nossos corpos, quando a própria bíblica os contradiz com veemência. Vejamos, em Lucas 17:21, se lê “o Reino dos Céus está dentro de vós.” Em 1 Coríntios 15:50, tem-se: “carne e sangue não podem herdar o Reino dos Céus.” E, por fim, para arrematar, em João 6:63, temos: “o espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita”. Ora, se Jesus mesmo, quando inquirido por Pilatos disse ainda: “o meu reino não é deste mundo”, a fazer crer seja seu reino um reino do espiritual; se seu reino é um reino do espírito (imortal), eis que a carne, qual veste, pode ser prescindível (para nada aproveita); se o espírito é o que importa, pois é o que trás vida ao corpo e leva-a, quando abandona-o; qual, então, a razão de apregoarem as religiões cristãs insistentemente a pretensa necessidade de ressurreição da carne? A ressurreição da carne, diga-se, também fora “votada” por um restrito grupo de bispos nos “sábios” concílios a que já fizemos menção. Bem, não haveria aqui uma abissal diferença entre o pensamento de Jesus e o das igrejas? Neste mesmo sentido, o homem, para Paulo, advinha de húmus, de pó. “Isto veio do pó e ao pó retornará”, o que veio do pó foi o corpo e para lá há de retornar. Contudo, “o espírito sopra onde quer, não se sabe donde veio nem para onde vai.” Ora, se uma é a glória dos corpos terrestres (físicos) – afirma Paulo – e outra a dos celestes (espirituais), qual deles há de ressurgir em glória ao final?! Corpo físico é que não parece ser.
9.º - Há uma passagem ainda bastante elucidativa quanto à clara diferença entre o pensamento de Jesus e o pensamento das igrejas (o dito pensamento cristão). Senão vejamos, em Mateus 21:31, lemos: “disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram ADIANTE de vós no reino de Deus.” No trecho em comento, Jesus dialogava com os fariseus e os poderosos da época. Atentemos bem para o fato de que ele não os condenou a um inferno de horrores eternos, mas alertou que aqueles mesmos que seus interlocutores condenavam (publicanos e meretrizes) teriam precedência a eles no reino de Deus, ou seja, adentrariam antes deles, iriam adiante deles, teriam primazia, seriam primeiros, mas não disse que eles (os fariseus e os poderosos) estariam condenados a um inferno (muito menos eterno), conquanto pecadores fossem. Acaso Jesus quis dizer que eles não entrariam no Reino dos Céus OU que tardariam entrar?! Que haveria uns que antecederiam outros nessa entrada?! Noutras palavras, que – conquanto cometessem erros – o inferno (a proposição de uma idéia de inferno, castigo, punição, seja lá o que for) seria temporária, provável – se se pretende justa – proporcional à falta cometida?! A idéia de um inferno eterno é um instrumento de dominação, ela também, nada além. Um instrumento “muito bem” utilizado pelas igrejas, diga-se de passagem.
10.º - Um último ponto que poderíamos levantar quanto à questão em análise seria o do abismo que há entre a lei civil (mosaica) e a chamada lei divina no Velho Testamento. Ladeia-se o não-matarás ao apedrejamento da adúltera ou ao corte da mão do ladrão, o que é absurdamente contraditório. Quando inquirido sobre o porquê de Moisés ter permitido o divórcio, Jesus disse “porque vossos corações eram duros”, não porque isto fosse “A LEI” – o desejável moralmente. Bem, interpelado ainda sobre se daria cumprimento ou revogaria a lei de Moisés, disse ele: “eu vim cumprir A LEI”, ou seja, pouco creditava ele à lei civil, à lei mosaica, a uma lei que não tinha pretensões de universalidade, que valia tão-somente para um povo e uma época, no período de suas andanças pelo deserto. A lei a que Jesus se referia quando retrucou foi a divina – leia-se: restrita ao decálogo. Eis que, de outra feita, quando questionado, sobre o que seria a lei, assim resumiu o cerne de todo o decálogo: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, eis toda a lei e todos os profetas.” Aqui se aproxima sobremaneira da regra de ouro evidenciada por Aristóteles, segundo a qual só devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que conosco fizessem.
11.º - Mas – já fugindo ao tema – e o termos vindo do barro em contraste com a teoria evolucionista?! – indagaria alguém. Ao que eu responderia com uma outra pergunta: como um ser de desenvolvimento evolutivo superior explicaria para aquele outro, recém-coroado com a razão, que a vida (o orgânico) teria surgido o inorgânico, senão com uma metáfora? Penso, não seria muito diferente do modo como um pai explica ao filho como se dá a concepção, senão dizendo, via de regra, que uma sementinha da mãe se uniu a outra do pai. Acaso ele teria mentido? – De forma alguma. – Antes explicou em conformidade com a capacidade de apreensão da criança. Assim sendo, penso não seja um esforço imaginativo muito elevado cogitar possa o barro bíblico ser uma metáfora para o caldo primitivo que possibilitou o surgimento dos coacervados e seu galgar a condição de seres racionais. E os sete dias da “criação”?! Viagens à parte, consta na bíblia o dizer: "um dia para Deus são como um mil anos e mil anos para Deus são como um simples dia”. O que é o tempo para quem não perece, para quem é eterno? – Nada! – Tanto faz um dia ou mil deles, o tempo não lhe toca, não lhe faz sentido algum. A tal respeito, outro dia li sobre uma pesquisa publicada na revista Geology, realizada por pesquisadores da ‘Arizona State University’, em Tempe, Estados Unidos, fornecendo mais informações sobre o possível berço da vida na Terra. A pesquisadora Lynda Williams e seus colaboradores teriam encontrado certos tipos de ‘argila mineral’ capazes de converter moléculas simples, baseadas em carbono, em moléculas mais complexas. Tais estudos teriam verificado que os oceanos não seriam meios ideais para o surgimento da vida, mas pequenas poças, quantidades mais reduzidas de água, sim, e em meio que pudesse coadunar os fatores que – segundo a teria da evolução – teriam possibilitado o surgimento de aminoácidos e, posteriormente, de vida. Que tal?! Racionalização que seja, é uma proposição até que interessante. Adão significa coletividade e Eva, vida. Metáfora é o exato mote da bíblia e não a literalidade. Adão e Eva seriam talvez dois povos, penso, e não duas pessoas. Mas racionalizar a religião, já diria Nietszche, é um prenúncio do seu fatídico fim. Caim Abel casaram-se, mas como, se presumidamente seriam os únicos filhos?! Quem saberá o sentido, quem terá a chave da incógnita?! Acho que já deveríamos ter passado da fase de questionar o que nos é insondável com a racionalidade nossa de cada dia... no futuro, talvez, um arqueólogo encontrando uma revista de moda, em que consta os dizeres – “uma estrela caiu” – bem que poderia pensar que se tratasse de um astro cósmico a despencar do espaço sidéreo e não da quebra do salto alto da Madonna – risos. Por estas e outras, da bíblia, só convém ater-se às instruções de sabedoria moral, ainda assim, a mais das vezes, as do novo testamento: e olhe lá. Bem, confesso que seria até bom ver a polícia cortar as mãos de uns políticos safados! risos... brincadeira, claro...
Francisco de Sousa Vieira Filho

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Interlúdio: texto em construção - A INTOLERÂNCIA NOSSA DE CADA DIA

"Onde quer que um asiático me indagasse sobre uma definição da Europa, eu era forçado a responder: é a parte do mundo que é tomada pela incrível ilusão de que o homem foi criado do nada, e de que este seu nascimento é sua primeira entrada na vida."
Arthur Schopenhauer

"Observando que existo neste mundo, creio que, em uma forma ou outra sempre existirei."
Benjamim Franklin

"Estou certo de que estive aqui como sou agora, milhares de vezes antes, e espero retornar milhares de vezes."
Gottfried Wilhelm Goethe

"É um segredo do mundo que todas as coisas subsistem e não morrem, mas apenas se retiram um pouco da nossa visão e retornam outra vez... Nada está morto; os homens sentem-se mortos, e toleram ridículos funerais e pesarósos velórios, e lá permanecem olhando para fora da janela, sãos e salvos, em algum novo e estranho disfarce..."
Ralph Waldo Emerson

"Assim como vivemos milhares de sonhos em nossa vida atual, do mesmo modo nossa vida atual é apenas uma das milhares dessas vidas nas quais entramos depois de uma outra vida mais real... e então regressamos após a morte. Nossa vida é nada mais que um dos sonhos dessa vida mais real, e assim ela é interminável, até a verdadeira, última e real vida - a vida de Deus."
León Tolstói


"A genialidade é produto da experiência. Alguns parecem pensar que se trata de uma dádiva ou talento, mas ela é fruto de uma longa experiência acumulada em muitas vidas."
Henry Ford

"Eu não posso pensar em uma inimizade permanente entre os homens, e acreditando como acredito na teoria do renascimento, vivo na esperança de que se não nesse nascimento, mas em algum outro nascimento, serei capaz de abraçar toda a humanidade num abraço fraternal."
Mahatma Gandhi

sábado, 10 de maio de 2008

MEDO E DOMINAÇÃO


MEDO E DOMINAÇÃO
A política do medo e sua utilização para fins de domínio e controle
Não podemos viver com medo, embora – é fato – dele precisemos para sobreviver. Explico melhor: não podemos viver em constante estado de temor, mas, ocasionalmente, ele nos é (como sempre nos foi) muitíssimo útil em situações de perigo ou ameaça. O medo teria garantido a sobrevivência das espécies e a evolução da vida até o galgar de condições que tornaram possível o surgimento de um ser racional. É ele um dos móveis e o estopim mesmo, por assim dizer, de todo o sistema nervoso simpático, fazendo injetar altas dosagens de adrenalina no organismo (a possibilitar reações rápidas ante o menor sinal de perigo), dilatando as pupilas (a fim de ampliar os sentidos e as percepções, possibilitando, igualmente, uma reação mais precisa face ao objeto do temor), deslocando o sangue da periferia para o centro do corpo, dos órgãos e membros mais periféricos para os mais vitais e centrais (de um lado, isso evita hemorragias em caso de danos naqueles órgãos e membros de maior exposição; de outro, prioriza a manutenção da viabilidade vital do ser, preservando seus órgãos principais e mais importantes). Enfim, o medo teria contribuído, de um certo modo, para que atingíssemos a condição de, hodiernamente, podermos pensar e refletir sobre ele. Todavia, este mesmo medo que garantiu a sobrevivência pode vir a matar... e a matar lentamente.
Divisemos a questão sob um outro prisma. O mote de toda a educação ocidental, por exemplo, parece ter sido exatamente o medo. Medo de notas baixas, medo de reprovação, medo da reprimenda dos pais, dos professores e da sociedade, medo do remorso e da culpa daí decorrentes, medo... Parece que fomos criados, preparados, doutrinados mesmo, para vivermos sob a égide do medo. Tal sentimento, de há muito, deixou de ser o simples móvel de uma reação necessária ante uma situação clara e evidente de perigo ou ameaça, passando, hoje, a ser quase que um modo de viver – e isto, sobretudo, no Ocidente. Temores de toda a sorte se espalharam e se perpetuaram independente da existência de um objeto causador de perigo ou não. O Ocidente parece ter engendrado objetos de temor abstratos, sinais de perigo perenes, inamovíveis e, sobretudo, irreais, a pautar um igualmente constante estado de temeridade e de alerta. E isto não parece ter se dado ao acaso, mas atendendo a uma certa ordem de interesses.
De fato, vivemos em constante estado de alerta. Vivemos sob o signo de um perigo invisível, onde quer que estejamos - o que se evidencia sobretudo nas grandes cidades. O sistema parece ter feito de uso constante aquilo que surgiu para ter vazão em ocasiões de eventualidade. Pintou-se o objeto de temor em tudo. Para onde quer que foquemos o olhar, passa a quedar-se ali a face do terror – que nem mais precisa existir no mundo exterior, porque fez pouso perene no íntimo e nos corações. Via de conseqüência, paulatinamente nos distanciamos uns dos outros. É que o outro, como todas as coisas mais, transmutou-se – ele também – na própria face da temeridade. Eis o que marca a sensível e básica diferença que reside entre medo e fobia, entre o que é simples mecanismo de defesa e o que é a manifestação desregulada do mesmo; entre sua ativação em resposta a um objeto de temor específico, protegendo o organismo de eventual ameaça; e o acionamento indiscriminado e irracional deste mesmo mecanismo, a externar-se, com constância e freqüência tal – sem que haja qualquer agente fomentador desta sua atuação – que o conseqüente desgaste daí decorrente pode vir a ser fatal, seja sob a perspectiva individual ou mesmo coletiva, como veremos adiante, levando-nos a um limiar entre aquilo que podemos ser, aquilo que o ser humano pode vir a externar enquanto manifestação de sua potência e a exteriorização do que talvez haja de mais profano, a redução do homem à condição de meio para a consecução de fins determinados por outros.
Se se quer dar crédito, tememos a violência, por exemplo. E, via de regra, ela constitui uma chama fortemente alimentada pela farta lenha da massiva exposição na mídia de situações que se reportam, direta ou indiretamente, ao uso indiscriminado da força, da coação, da supressão das liberdades (de pensar, de ir e vir, etc.), enfim, da violência em todas as suas vertentes, seja por parte quem delinqüe e descumpre as normas, seja por aqueles que são encarregados, exatamente, de lhes dar cumprimento. Os índices, sejam eles oficiais ou não, demonstram um lento, porém paulatino, decréscimo da violência 'real'. Todavia, pouco importa que a violência de fato decaia, se o que vende (ou pelo menos seja este o argumento utilizado), se o que confere audiência, se o que dá lucro é a violência. Os índices de exploração da violência pela mídia cresceram a ponto de ocupar bem mais de 60% de tudo o que é veiculado em todas as frentes (TV, internet, rádio, jornal, etc.). A violência teria virado apenas um produto a mais de um voraz e irracional impulso de mercado. E teria sido, então, que passamos a nutrir e ostentar um temor quase que reverencial por uma abstração, por uma virtualidade, por algo que – guardadas as devidas proporções – nem sequer existe na precisa medida em que se dá a conhecer. Não haveria sequer falar-se a rigor em liberdade de imprensa, mas em liberdade de empresa – e, por vezes, nem isso.
Tal situação, porém, se reproduz e está presente nas mais diversas esferas. Há o temor pela perda do emprego (desemprego); receia-se da própria incolumidade física (nas grandes cidades tornou-se incogitável sair de casa portando jóias, adereços quaisquer ou valores de maior monta – a propósito, passamos a viver – todos – enjaulados em nossa própria prisão particular); teme-se as contas, receia-se das dívidas (de não se poder pagá-las, da cobrança, etc.); há reservas até em relação ao olhar alheio, ao julgamento que os outros façam ou pretensamente estejam a fazer; há pudores quanto a tudo e a todos. O mundo tal qual se organiza hodiernamente privilegia o medo, e quem dele “melhor” se utiliza mais consegue tirar proveito próprio, mais consegue dominar. É mesmo um lugar-comum dizer que o medo e o terror consubstanciam os principais instrumentos de dominação de que se vale hoje o sistema para manter-se, para perpetuar-se. Cria-se um objeto de medo e o Estado logo se prontifica a soerguer-se como o bastião da única solução viável à proteção dos cidadãos, muito embora seja ele mesmo a – sub-repticiamente – criar e manter meios de controle do medo coletivo, sobretudo valendo-se da imprensa oficial. Funciona mais ou menos como numa indústria de informática que fabrica programas anti-vírus. A princípio, ela teria surgido para eliminar os vírus, atendendo, assim, às necessidades de seus clientes. Pari passu, os empreendedores de tal negócio teriam compreendido que eliminar os vírus (seu objetivo maior) significaria eliminar sua própria raison d´être. Isso vale para o Estado como também vale para o Direito que o secunda. Se, por exemplo, o Direito conseguir um meio eficaz de, sem tolher as liberdades, fazer com que as normas sejam plenamente cumpridas, não mais haveria necessidade de uma instância protetiva, coativa ou mesmo executora de eventuais sanções, uma vez que as normas estariam interiorizadas de tal modo, que não haveria falar-se em seu descumprimento, tornando inútil uma instância reguladora de seu descumprimento - que não mais há (...) enfim, equilibrar as relações sociais, alcançar a “justiça”, garantir o cumprimento da vontade geral ou a satisfação de uma determinada instância de bem comum (culturalmente falando, que seja), significaria o fim do próprio Direito. Noutros termos, para nos valermos da metáfora em uso, a da empresa de programas anti-vírus, eliminar os vírus consubstanciaria exatamente eliminar a si mesma. Se de um lado a empresa se propõe a deles proteger os computadores, de outro, é deles mesmos (dos próprios vírus) dependente; não sobreviveria, nem existiria sem que houvessem vírus de computador – sem eles perderia sua razão de ser e existir.
Pois bem, cabe alertar dizermos isto sem nenhum cunho de querer propor aqui uma teoria da conspiração a mais – dentre as muitas que já há. E, por vezes, é necessário que se diga, algumas são até assim rotuladas com o deliberado e indisfarçado intuito de, com isso, diminuí-las; de combatê-las com este simples proceder; de desprezá-las (não por seu eventual conteúdo ilógico, irracional, não atinente ao senso, mas pelo simples fato de se lhes apor um rótulo que confira a pecha de se tratar de sandice, de assunto de somenos importância), sem que se diga necessária qualquer averiguação de senso quanto a seu cerne. Ora, resta óbvio ser este o "raciocínio do sistema": postar-se como uma solução milagrosa para um problema que, grosso modo, sequer existe, que é virtual. O homem é um ser gregário, um ser social, já diria Aristóteles, ao vislumbrar a clara incapacidade de um indivíduo, desde a mais tenra idade, suster-se por si só (ter alguma viabilidade vital qualquer sem o auxílio dos pais), ou manter-se sem o apoio mútuo dos que participam da mesma comunidade, quando da adultície. Pois bem, que o homem seja um ser social, é uma coisa, isto, porém, não é o mesmo, nem equivale a dizer seja o homem um ser estatal. Quero crer talvez um dia não mais precisemos do Estado e dos aparatos que lhe são por adendo (sobretudo os que visam, tão-só, à sua perpetuação em detrimento do indivíduo, do cidadão).
O medo, vimos, refere-se a um objeto real; a fobia, por sua vez, foca uma virtualidade. O escritor José Saramago, no documentário “Janela da Alma”, assevera vivermos hoje – mais do que nunca – na Caverna de Platão, a dizer que preterimos o mundo real em prol do virtual. E exemplifica isto ao propor que o cinema seria uma perfeita imitação da Alegoria da Caverna, uma vez que tendemos, por exemplo, a nos emocionar com o mendigo das telas (das sombras projetadas pelo filme, do virtual), ao passo que, ao sairmos do cinema, ao vislumbrarmos as luzes do “mundo real”, é costume sermos indiferentes ao mendigo REAL que nos roga por esmolas à porta de saída do próprio cinema. Também neste sentido, basta ver que aquilo que é veiculado pela imprensa, via de regra, tem bem maior poder de dirigir o pensar e o agir do homem que a própria realidade (se nos é lícito falar de algo como isto: realidade). O exemplo comum seria o das pesquisas de opinião de voto, muitas das quais – é a triste “realidade” brasileira (provável, mundial) – não condizem em nada, estatisticamente falando, com a intenção de voto daquele universo amostral que digam representar. Não se quer dizer que não hajam pesquisas sérias, pautadas em critérios verificáveis, etc., mas – sem dúvida – a neutralidade da maioria das quais é quebrada, seja por culpa ou por dolo, seja em decorrência do atendimento a interesses outros, seja por focar um universo amostral, uma região, um locu que pouca representatividade teria para se erguer ilações referentes ao todo. Por vezes, pesquisas que praticamente determinam a convergência dos votos de toda uma eleição sequer foram feitas mesmo, ou – quando o são – não atendem a parâmetros de lisura minimamente verificável. Entretanto, a despeito disto, elas são capazes de modificar os rumos de uma eleição em grau consideravelmente maior que aquilo que poderíamos chamar ‘intenção de voto real’ ou o ‘pendor natural do eleitor’. – Liberdade?! – Independente mesmo do campo que estejamos a tratar, da abordagem feita ou ainda da temática focada (seja em matéria de política, esportes, fatos do cotidiano, da vida e do mundo), aquilo que é transmitido pela TV, decorrência do próprio poder de alcance desta mídia, é capaz de pautar a vida das pessoas, seu pensar e seu agir. Milan Kundera já explicitava que o virtual passara a, paulatinamente, ter bem maior peso na formação de opiniões que o próprio real, a dizer que o real – se se pode falar nele, frise-se – seria pouquíssimo visitado, ao passo que o virtual seria o lugar-comum, a isto chamando de imagologia.
Bem, se o homem é um ser racional, poucos são os que andam, por aí, exercitando condizentemente sua humanidade hoje em dia. A grande maioria parece preferir viver sua “vida de gado”, bastando-lhes bom pasto e água farta para saciar a sede – a mera satisfação da vida animal, o velho panis et circencis que nos legou Roma – como se já não bastasse o Direito (risos). Desatentam para ânsias outras além das do corpo: as necessidades da mente pensante, o exercício da razão, o divisar as coisas do mundo com olhar crítico (ler nas entrelinhas), alimentar a alma com arte (“nem só de pão vive o homem...”, já diriam as escrituras), alçar vôos com a filosofia ou tatear (para usar o termo de um Edgar Morin) nossos poucos “arquipélagos de certeza” (em meio a oceanos de incerteza) com a ciência.
Ora, e o que viria a ser então o maior de nossos temores, aquilo que – decorrente de nossa própria condição no mundo – tememos com maior vigor? – Eu respondo: exatamente a incerteza. E o medo fomenta outras tantas mais...
E ele persiste e ainda nos persegue qual sombra sinistra a embotar-nos a visão, a nos fazer aceitar docilmente os grilhões daqueles que mandam, dos que dominam, a - sutilmente - se sobrepor à nossa própria sombra, gritando-nos ao pé do ouvido uma necessidade premente de libertação – não mais apontando o caminho para a fuga de um perigo ancestral que nos garanta a mera sobrevivência, mas evidenciando a necessidade de um “bom combate”, no único campo de batalha possível: a mente e o coração, para então nos livrarmos de um mal outro, consideravelmente maior e potencialmente irremediável, (eis que a chave da cura estaria conosco mesmos, com cada um) – a escravidão em nossa própria caverna interior, nossa escura e solitária prisão sem muros.
Francisco de Sousa Vieira Filho

segunda-feira, 5 de maio de 2008

DA EMBRIOLOGIA AO SOL


DA EMBRIOLOGIA AO SOL
Frutos de um inconcluso diálogo noturno
(com algumas supressões e adições, a tornar tudo mais compreensível)



FF - Lembro que, quando estudava embriologia, no segundo grau – o que depois se reavivou ainda mais por ocasião do contato com alguns colegas de faculdade que pensavam de modo similar e até de forma bem mais elaborada – sempre achei extremamente parecidos alguns dos estágios por que passa o embrião humano a algumas outras espécies animais, como que reproduzindo, em nove meses, os estágios evolutivos pelos quais teríamos passado, em milhões de anos, até atingirmos a condição humana. Ora vemos neste processo estruturas similares a brânquias, ora algo como uma calda (cóccix), por vezes outras estruturas similares a nadadeiras... seria isto uma prova da evolução?! (...) Penso que o barro ainda seria uma brilhante metáfora para explicar as coisas... racionalização da fé?! – talvez – mas, como então um ser mais evoluído explicaria para um recém-coroado com a razão, todo o complexo processo evolutivo pelo qual passou até atingir a condição de ser racional, senão sendo metafórico como o seria um pai ao explicar ao inocente rebento que ele veio de uma semente sua (do próprio pai) e de sua mãe, falando, assim, a verdade, adequada, porém, ao nível intelectivo do interlocutor?! E as escrituras dizem: "Deus criou o mundo em sete dias" (...) e complementam: "um dia para Deus é como mil anos e mil anos para Deus são como um único dia"... ora, o que representaria o tempo para quem é eterno, para quem não tem como parâmetro a morte, para quem não envelhece, nem perece, seja este lapso de um único dia ou de milhares de anos?! – Eu respondo: – NADA! Para este pretenso alguém o tempo nem sequer existiria. Para ele, tanto faria um dia ou um sem-número deles... há a existência – que não cessa –, nada mais... E, afinal, o que seriam os oceanos primitivos (ou os sistemas menores – pequenos lagos e poças) em que se teria originado a vida, senão – metaforicamente falando – barro?!
FFF - O problema é a necessidade de antecedência para que se solucione a questão de que um Ser Criativo materialize a criatura, se não leva em conta que o próprio tempo pode ter se originado em um dado momento – o tempo sendo, ele também, uma criação... ou seja, se o tempo teve um início, isto solucionaria a necessidade de antecedência...
FF - É como se diz: "se todo efeito tem uma causa" – e pode-se presumir seja racional estender: "todo efeito inteligente tem uma causa igualmente ou mais inteligente", é dizer: "todo efeito inteligente tem uma causa inteligente que lhe preceda, uma causa inteligente anterior"... revelaria, assim, um contra-senso, já que – numa reductio ad infinitum, num regressum ad infinitum – acabaríamos precisando de uma causa inteligente primeira, sem que houvesse uma causa inteligente precedente, sem que houvesse causa inteligente anterior à mesma... ora, mas se todo efeito inteligente advém de uma causa inteligente anterior, toda inteligência teria de ser, necessariamente, produto de uma que lhe fosse anterior... o problema residiria no termo "anterior"... esta causa inteligente primeira viria de “antes” mesmo do tempo, porque ela – sendo causa primeira – sê-lo-ia também a causa do próprio tempo... ou seja, estaria fora do universo causal, não possuiria causa, mas seria causa... em melhor palavra, seria causa sem ser efeito, o que é extremamente difícil de explicar para seres que enxergam as coisas de forma causal e que – ao que parece – habitam um universo e uma dimensão causal...
FFF – É... mas, nada vem “antes” do tempo... porque “antes” já é tempo... (risos) “antes” já denota uma apreensão temporal, já nos dá a idéia de um tempo anterior ao tempo em que o próprio tempo teria sido criado... o termo criou “antes” do tempo nada mais faz que alocar esta nossa causa primeira (seja ela Deus, Inteligência Suprema que Coordena o Cosmos, Lei Universal Primeira, Energia Superior, ou qualquer outro rótulo que queiramos lhe dar, sem que a indumentária vocabular tenha nunca a pretensão de explicar o que seja, suas características e nuances, senão sendo uma escolha de quem pouco conhece sobre aquilo de que fala...) como causa que, por ser primeira, precede ao próprio tempo...
FF - Deve ser por isso que, na linguagem iniciática, os Gnósticos (e São João, apóstolo, o do Apocalipse, era...) chamavam-no de 'Eu Sou'... como Aquele que É, (que não foi, nem será...). Note-se que o verbo está – perenemente – no presente. Motor primeiro aristotélico?! "E o verbo se fez carne”... e não à toa hoje nos damos conta de alguma nuance da verdade por trás destas palavras... acaso todo o nosso universo não se revela lingüístico, informacional?! Ou uma cadeia cromossômica não é, nada mais, nada menos, que informação (genética)?! Há até quem diga - viagens à parte - que o nosso planeta (Gaia?!) gravaria informações, o desenrolar da história, o tempo... (egrégoras?!)
FFF - concordo, pois, que o verbo se fez carne, deixando essencialmente de ser verbo... tenho pensado que vida é a percepção de alteração no ritmo entrópico – um refrear da maré entrópica – que é traduzível como informação... vida é informação e tal qual energia, as formas de vida seriam intercambiáveis... talvez, um dia, consigamos transferir as informações (orgânicas e não-orgânicas) para uma outra estrutura, tal qual no filme “o Homem Bicentenário”... será?
FF - Li uma reportagem na revista "Carta Capital", falando exatamente disso: da possibilidade de criação de inteligência artificial. Pesquisadores como um Daniel Dennett (por vezes tão tresloucado quanto um Richard Dawkins, a querer fincar bandeira de fé ateísta, abdicando da isenção e do afastamento mínimo a que deve ter um homem de ciência, não misturando suas esferas de atuação...), ou um Francis Crick que apostou comer sua tese se a proposição que levantava estivesse errada (e estava – risos...), abrançando como artigo de fé sua própria teoria e não a possibilidade de encontrar uma visão mais precisa e depurada sobre o tema... bem, ele cria que o DNA fixasse a arquitetura do cérebro, ao passo que um Gerald Edelman o contraditaria com maestria, já tendo ganho o Nobel de Medicina exatamente frente às idéias de Crick. Vejamos: mais uma vez recaímos no velho jogo de palavras – o orgânico e o não-orgânico numa cadeia infinita (ou quase), se nos fosse possível regressar, teriam vindo de uma só substância, de uma só "coisa" (monismo?!)... então, descobrindo-se a chave, pode ser que consigamos – um dia – reduzindo tudo a uma unidade básica (talvez nem a menor ou a inicial nessa escala que originou todas as coisas), a ponto de que possamos transferir informações entre estruturas que tomamos como diferentes, embora sejam iguais (provindas de uma mesma unidade, de um ponto de convergência comum)... Heráclito já nos dizia: "Tudo é Um"... a querer nos referendar que todas as coisas estão – de fato – interligadas. E lembrar que a vida é fruto do sol, tudo o que temos hoje sendo mera diferenciação de algo primário que, a curto prazo (apenas alguns poucos bilhões de ano), teria vindo de uma unidade redutora de tudo... penso que a unidade redutora de tudo mais próxima de nós seria exatamente o sol (não à toa cultuado como divindade no seio dos mais diversos povos – e nalguns por este exato motivo – como nos lembra o documentário alemão “Zeitgeist” – “espírito do tempo”). Ora, a própria terra, o globo terrestre, foi, um dia, uma pequena fagulha que se desprendeu do sol. Pequena bola de barro... simples massa incandescente que, paulatinamente, foi se resfriando. Por diferenciação (Hélio, Hidrogênio, Carbono, Oxigênio, etc.) foi aos poucos produzindo em seu seio água, aminoácidos, vida (coacervados), seres anaeróbicos, plantas primitivas fotossintetizadoras, seres aeróbicos, etc. Enfim, há algo mais que o mero entedimento metafórico que fazemos da sabedoria oriental ou do que propagaram os filósofos pré-socráticos, ao dizerem: “somos filhos do sol” ou “tudo é um”! Isso dá um novo sentido ao "amai ao próximo como a ti mesmo", porque, de fato, - talvez - acabe sendo... (risos)... É meio louco pensar que homens a 600 anos antes de Cristo, ou bem mais que isto, poderiam estar incrivelmente certos... Newton diria "enxerguei longe porque me apoiei em ombros de gigantes", a referir-se não apenas aos físicos clássicos, mas também (como viria a denunciar depois) aos filósofos pré-socráticos...
FFF - este espanto de que como “os Heráclitos" conseguiram pensar há tanto tempo tão corretamente me reporta a uma reflexão... Reflita, caro amigo, sobre a seguinte questão: de quanta informação (neste caso com um sentido de dados) precisaríamos para que possamos tomar uma decisão corretamente? Ora, a cada momento se pode obter mais e mais dados sobre um dado processo, e assim podemos pensar que a cada momento poderíamos melhorar nossa capacidade de, acertardamente, opinar – com razoável grau de certeza. Mas, se não nos rendermos a esta conclusão (talvez apressada) podemos verificar que se o tempo é "infinito" à sua frente, teremos possibilidade também "infinita" de coletar novos dados, nos legando a nunca encontrarmos uma quantidade suficiente a secundar a solução precisa, sempre tendendo à perfeição, mas nunca capazes de atingi-la. Uma nova questão surge: o que é uma amostra dentro do infinito? Qual percentual uma amostra qualquer, por pequena ou colossal que seja, representa dentro do infinito? – Portanto, será que realmente precisamos tanto assim de dados para acertadamente pensar? Assim, é possível que tantos antes de nossa era cristã já tivessem pensamento tão evoluídos, mesmo não contando com os instrumentos fantásticos com os quais contamos agora?
FF - Já diria alguém mais sábio que "a simplicidade beira a perfeição"... e pensar em quantos bilhões de anos devem ter sido necessários para que passássemos de uma simples bactéria anaeróbica para um ser aeróbico... o trabalho de alguns seres resume-se apenas em respirar... este trabalho foi necessário para que, hoje, pudéssemos ter nossos corações batendo sem que precisássemos nos deter para tanto (simpático e parassimpático)... tudo isto se automatizou em nós, em nosso estágio... e para quê?! Para que pudéssemos pensar!!! Hoje, nos é requerido algo mais ousado que automatizarmo-nos em comportamentos físicos, mas automatizarmo-nos (interiorizarmos) o agir correto (o agir moral)... fico pensando se um Cristo, diante de uma encruzilhada moral, cogitava o infinito leque de opções que temos. Penso que não. Para ele era como respirar, automático (ele parecia não precisar cogitar as opções negativas – menos acertadas; ele parecia não precisar pensar o mal, apenas o correto), como parece ter feito ao dizer: "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"... se tivesse dito qualquer outra coisa, ou seria linchado pelos Judeus (que não queriam pagar impostos a Roma) ou seria preso pelos soldados (por incitar o não pagamento de impostos) Havia uma única resposta correta para a questão! E foi a que ele ofertou! Lembra-me Kant, quando, certa feita, soldados adentraram à sua sala de aula, procurando por um criminoso que por ali havia passado em fuga. Ocorre que o criminoso se instalara exatamente debaixo da mesa ed Kant. Os soldados inquiriram a todos os alunos, sem, no entanto, obter resposta satisfatória. Já de saída, um deles retorna e lembra de perguntar ao professor. Kant o entregou, sem titubear, dizendo a verdade... talvez a verdade aí não fosse exatamente a resposta correta... e, por fim, Kant teria repreendido ainda a todos os seus alunos, porque, quando foram inquiridos pelos soldados, mentiram, ao passo que ele, ao ser perguntado sobre a localização do criminoso, falou a verdade... como um amigo meu externou certa vez, ele bem que poderia ter dito: “eu não posso lhe dizer”, ou algo assim... e lembrar que seu imperativo categórico nos exorta: “o céu estrelado diante de mim [a nos reportar às leis universais], e a lei moral em mim [a falar de leis morais similares em nosso íntimo].” Sócrates, professando o “conhece-te a ti mesmo” do pórtico de Delfos, argumentava que, se a Divindade nos pôs mais próximos uns dos outros é que quer conheçamos uns aos outros antes de conhecermos às distantes estrelas (como propuseram os pré-socráticos, cada um com sua cosmologia peculiar), e, se nos pôs mais próximos de nós mesmos que de qualquer outra coisa, é que a nós mesmos devemos nos conhecer, antes de tudo o mais. Penso que, se é verdade originamo-nos todos de uma só coisa primária, as respostas para os mistérios do cosmos repousarão tanto no íntimo do homem como no de todas as coisas mais... “o microcosmo reproduzindo o macrocosmo”... vejamos: uma simples célula epitelial possui material genético para desenvolver todo um ser humano, todavia, ela só reproduz outras células epiteliais, mas resguarda em seu seio, o DNA da construção de todo um indivíduo... “a parte contém o todo, como o todo a contém”... Mais uma vez recaímos nos incríveis acertos desses gigantes, a que hoje nossa ciência, nossas ilações e nosso saber só referendam... só podem referendar...
Francisco de Sousa Vieira Filho
e
Flávio Furtado de Farias

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O CUPIM


O CUPIM


Tu, que só labutas com lei contingente
és tão-só espírito indigente
busca o saber absoluto
e não te cinjas mais de luto.

É difícil, extremamente difícil... mas não impossível. Todos os dias, vez ou outra, percebo-me como um animal enjaulado. Um leão enjaulado. Preso, cativo de seu lar, seu zoológico. Acostumado a ter rações à boca todos os dias, sem preocupação qualquer em matar para obter seu alimento. Isso até um dia ser solto, liberto dos grilhões que o limitavam e, indubitavelmente, o protegiam.
Todos os dias é esta a lição que nos é posta: a de precisar matar para sobreviver, a "lei da selva". Somos juristas?! Advogados?! "Estudantes de direito, por enquanto". Somos animais!!! — eles dizem. E, como aquele leão que, outrora preso, agora está livre, somos forçados a caçar, a lutar e, por que não, a matar para obter nosso sustento. E lá estamos nós, soltos na selva de pedra. Livres, mas escravos, por termos a terrível tarefa de matar pra sobreviver. Talvez uma analogia tola, talvez a lembrança de eras longínquas, talvez...
Mas há algo que nos corrói por dentro. Algo que nos faz pressentir qualquer coisa de podre na superfície do establishment. Há algo que não nos permite ver tal luta como certa, como justa. Bem dentro de nós, de todos ressalte-se; mesmo daqueles que fingem não ver, ou que vedam seus olhos para isso. É aquele estranho cupim que nos corrói o que há de podre, que limpa, mas que também nos faz sofrer, sobretudo se estamos muito ligados à sujeira que nos circunda, sobretudo se — ainda que inconscientemente — dela nos julgamos parte. Somos qual aquele leão. Soltos agora, mas guardando dentro de nós o mesmo olhar de fera, o mesmo instinto de sobrevivência, prontos para matar e para morrer.
E as vozes dos "mestres" ecoam — um profissional do direito precisa mentir. Precisa sempre passar a imagem de que sabe, ainda quando esteja inseguro por dentro. Um advogado deve fazer tudo, TUDO MESMO, para defender seu cliente, mesmo quando tenha a convicção íntima de que está errado. Ele nunca pode admitir estar errado, antes deve impor como certo aquilo que pensa, até que, por meio dessa persistência, possa mesmo o juiz mais sábio e culto crer estar ele certo.
É... mas há "mestres" e mestres. Ainda assim, "aqueles" persistem em nos dizer sermos qual leão sanguinário, qual um bárbaro medievo, estando nós ali passando por um rápido e simples treinamento pra guerra. E depois disso teremos o "direito" de usar lindas armaduras: togas, becas e ternos enfeitados com belas gravatas; empunharemos nossas pastas como maças ou espadas, prontas para esmagar e cortar o próximo. Cavalgaremos nossos corcéis de seus 30 mil reais ou mais, com ferraduras cromadas e tudo. — Ah, que saudade do zoológico! Que saudade de não ter aquele cupim a me corroer! O cupim só destrói o que é podre, só come o que não presta, só limpa o que é lixo. — Ai dos vermes que querem viver a roçar na lama que reside dentro de si e no meio circundante!
Você agora deve estar se perguntando — poxa, mas eu só quero ganhar meu dinheiro, constituir família, ter meu carro, ser feliz fazendo o que faço. Não há mal algum nisso — pensa convicto. Será possível ser feliz enquanto um irmão, um semelhante, um ser humano qual a ti e tantos mais, ao seu lado está infeliz? Será esta a felicidade que procura? É... talvez não haja mal algum nisso, talvez sua percepção do que seja mal esteja falha... talvez a minha. Talvez... Mas eu não posso mudar o mundo — você deve estar refletindo. Mas será que — como nos diria Edmund Burke —, por saber só poder fazer bem pouco, você não estaria deixando de fazer o que pode?! Algo íntimo deve estar filtrando agora aquilo que percebe como certo daquilo que vê como errado. Ao fim terá melhor noção. Perquira a si mesmo, pergunte à sua razão. Ela te dará melhor conclusão que esta.
Mas devemos dar graças. Devemos agradecer a todos os mestres — mesmo "àqueles". Agradeço a todos os mestres que por mim passaram, deixando as mais valiosas lições, seja por conhecerem-nas bem ou por ensinarem pela negativa, pela negação, sem ao menos perceber que lições ensinavam.
Ora, se a "lei da selva" a esta luta nos impele, há uma outra Lei... uma?! Outras... muitas outras!!! Leis que nos gritam ao pé ouvido; Leis que nos fazem ver o que há de podre, o que há de errado; Leis que nos dão o parâmetro e que nos guiam. Será preciso matar pra sobreviver? E você diz — não estou matando ninguém! "Será que não?" Ah, que saudades dos mestres! Não "daqueles"! Que saudades dos que só falavam do que sabiam, daqueles que vinham a esta terra somente dar testemunho da Verdade. Daqueles que vieram pra nos mostrar que, sim, é possível.
Ah, como queria ouvir agora a voz suave do mestre a dizer — Meus filhos, "no mundo encontrareis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. E ele não disse isso senão para nos mostrar que é possível; para nos mostrar Leis outras que não a "lei da selva". Leis eternas e imutáveis. Leis de Amor, de Verdade, de Justiça e outras tantas que ainda olvidamos. Ele bem sabia que era difícil. E sabia, e provou ser possível. É consolador saber que — como disseram os mestres da Verdade — um dia todos chegaremos lá — uns mais cedo, outros mais tarde. Um dia...
É... é difícil (seguir esta trilha estreita e cheia de perigos), extremamente difícil... mas não impossível.
Francisco de Sousa Vieira Filho