The Lair of Seth-Hades
Arte: Meats Meier - http://beinart.org/artists/meats-meier/gallery/meats-meier-2.jpg
Presente do amigo Zorbba Baependi Igreja - artista plástico, poeta e um dos idealizadores da Revista Trimera de Letras e do Projeto Academia Onírica [poesia tarja preta].

LIRA ANTIGA BARDO TRISTE & LIRA NOVA BARDO TARDO

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sábado, 31 de maio de 2008



A INTOLERÂNCIA NOSSA DE CADA DIA
Ateus convictos, religiosos convictos e a necessária não-convicção filosófica

(1a parte - under construction)

Soa no mínimo estranho ver que de uma mensagem de paz, amor e respeito ao próximo, como a de Jesus, tenha advindo guerra, discórdia e dissensão, tenha sido ela utilizada, ao longo dos tempos, como um instrumento de opressão e de intolerância, quando é de seu cerne justamente o contrário. E isto é algo que está às claras, sendo algo também para o que, todavia e estranhamente – para menos dizer – poucos atentam. Não é menos estranho vermos, também, que, de uma mesma matriz, – o pensamento socrático – tenham surgido escolas tão díspares quanto a hedonista e a estóica, uma preconizando que a felicidade consistiria na entrega aos prazeres; outra, que devemos dominar as paixões, tomadas como sinônimo de doença, sendo isto mesmo o que se apreende da própria etimologia do termo. “Suporta-te e abstém-te”, era o lema estóico, ao passo que a busca irrestrita pelo prazer era o hedonista. Agora vejamos: de Jesus que apregoava 'o amor ao próximo como a si mesmo' e o 'não matarás' tergiversaram as idéias justo para matar (sob seu nome); e de Sócrates advieram pensamentos que focaram objetivos tão díspares para o labor filosófico quais são os do estoicismo e do hedonismo.
Antes, porém, de prosseguirmos com o raciocínio ora lançado, cabe aqui um pequeno parêntesis – mas severo óbice – quanto a nos termos valido da expressão “mensagem de Jesus”, sobretudo, hoje, quando se questiona a existência de uma tal figura, ou se lhe contrapõe um Cristo histórico diverso daquele que nos foi dado “conhecer” até então, ou se coloca, ainda, a questão fulcral de ele nada ter escrito de si, quando tudo o que dele sabemos – qual de Sócrates – nos veio pelas palavras de outros (discípulos, apóstolos, etc.), quer seja a seu respeito, quer acerca do que eventualmente tenha dito ele. E pior, a despeito disto tudo, pesa ainda o fato de que – seja ele figura histórica real ou personagem fictícia – toda a história (ou pelo menos a perspectiva ocidental dela) tenha sido contada tendo-o como marco, como divisor de águas, tudo o mais sendo pautado como eventos ora perpassados antes, ora depois dele.
A tal respeito, certa vez um amigo me disse “ninguém pode ofertar o que não possui. Ninguém pode dar o que não tem.” E prosseguia: “se é verdade que Jesus não existiu, enquanto pessoa” – dizia ele – “ainda assim, no final das contas, ele teria existido”. Concluindo então: “se ele foi somente uma personagem criada pelos apóstolos, os apóstolos mesmos terminariam por ser o Jesus que conhecemos”. Explico: ora, os exemplos de fé e de sabedoria presentes na figura do Cristo teriam de ter advindo necessariamente de quem os possuísse, de quem tivesse – ele mesmo – esta sabedoria, este conhecimento. Não haveria como forjar virtudes tais num personagem sem que o autor mesmo as possuísse. E, por fim, sob certa perspectiva, se tomarmos como verídica a hipótese acima lançada – a de que ele teria sido uma criação de seus seguidores – Jesus, ainda assim, teria existido, porque exatamente não se pode ofertar aquilo que não se possui. Ora, se Jesus foi uma invenção dos apóstolos ou se Sócrates, por exemplo, teria igualmente sido uma invenção de Platão, guardadas as devidas proporções, tanto Sócrates como Jesus teriam – de fato – existido. Invenção alguma brota de uma pessoa, ou mais delas, se nelas mesmas não houver algo disso, se nelas não houver algo do que fazem plasmar em suas “obras”. As verdades exaradas nas lições de ambos (Sócrates e Jesus) estão lá, e isto é inegável. O ocidente muito colheu destas duas grandes figuras a que ora fazemos menção, seja de positivo ou mesmo de negativo (ainda que o negativo tenha advindo, a mais das vezes, de interpretações errôneas do que a eles atribuímos). E o que seria mais importante, afinal, a mensagem ou o mensageiro?! A mensagem de ambos está aí, persistindo ao longo dos tempos, como algo digno de alguma consideração, de estudo e até de apreço.
Há espaço ainda para um adendo a mais, antes que os mais conservadores venham a questionar o trato de Jesus numa abordagem que se pretenda filosófica e não-religiosa (não no sentido institucional do termo), tampouco de Filosofia da Religião (a qual já ganhou ares outros, ora cético academicista, ora religioso-institucional propriamente, etc.). Bem, se é verdade que filosofia pode traduzir-se em desbanalizar o banal, acho que o tema é perfeitamente tratável aqui. Ou acaso se pode dizer haja algum tema alheio ou avesso ao debruçar filosófico? Existe objeto sobre o qual a Filosofia não deva ou não possa se debruçar? Seria Jesus seria esse tema? Em que a Filosofia poderia ser diminuída (ou aquele que a “faz”) por focar objeto de uma ordem qualquer ou não de outra? Não deveria o pensamento de Jesus (não aquele que se perpetuou no seio de religião institucional X, Y ou Z) ser abordado em Filosofia (e não falo aqui de Filosofia da Religião, repito), como também as idéias de Buda, de Gandhi, etc., etc., etc.? Será que Jesus vai ficar relegado nos meios acadêmicos ao divisor de águas temporal (ANTES DE CRISTO ou DEPOIS DE CRISTO), toda a história Ocidental sendo contada tendo Jesus como parâmetro, quando tampouco sua figura é estudada em história, em filosofia, em psicologia, etc., ou, quando muito, apenas mencionada, bem de longe e sub-repticiamente, donde se propaga – a mais das vezes – o pensamento de instituições de poder secular (ainda que não se rotulem como tais) que o pensamento propriamente de Jesus, a despeito aqui de considerações religiosas? Vejamos, quando o Sócrates de Platão diz, “é melhor sofrer uma injustiça que praticá-la”, em que isso se diferencia do “pagai o mal com o bem” ou do “bem aventurados os que sofrem...”, atribuídos a Jesus, sendo este dito um religioso e aquele um filósofo? Será que não existe conciliação possível entre o “conhece-te a ti mesmo” e o “o Reino de Deus está dentro de vós”, ou ainda o “conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”? Acaso Sócrates não professava a imortalidade da alma e Jesus também? Por último, e mais importante, pode a existência ou a inexistência de alguém cuja vida e também a morte constituem balizas históricas para todos os demais fatos anteriores e posteriores a si, ser considerado tema desprezível ou não digno de trato filosófico? Pode-se dizer seja a religião um mal em si a ponto de ser alijado como temática abordável ou suprimida a um âmbito restrito qualquer nesta abordagem? E o que viria a ser religião, instituição ou vivência prática, como a virtude, por exemplo?
Bem, considero Filosofia como sendo uma só. Quando falamos, por exemplo, da filosofia de Kant ou da filosofia de Hegel, falamos, sim, nos sistemas filosóficos de Kant e de Hegel, não havendo, grosso modo, a filosofia de ‘fulano’ ou a de ‘beltrano’. Em tais termos, a Filosofia Estética seria a Filosofia (Geral) debruçada sobre a idéia de belo (objeto próprio da estética); a Filosofia da Educação seria a mesma Filosofia focada nos objetos próprios da educação; a Filosofia Jurídica, por seu turno, seria novamente a Geral debruçada sobre os objetos próprios do Direito (idéia de lei, idéia de Direito, idéia de Justiça...), e assim por diante. E não haveria tema algum que fosse avesso à Filosofia, tampouco Jesus, não se podendo dizer – como equivocadamente é comum repetir – que tratar de Jesus seria (estritamente) tratar de religião, como fosse ele (ou seus ensinos) tema restrito do campo religioso, ou que a Filosofia não pudesse se acercar de que tema fosse, inclusive dele.
Ora, o filósofo de verdade, aquele que busca respostas com isenção, deve ter uma única convicção: a de que convicções são perigosas! “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, já diria o nosso saudoso Raul Seixas. Bem, é perigosa a convicção teísta?! Não menos o é a ateísta! É intolerante o ateu convicto como o é também o teísta convicto. E não é mal o pensar diferente. O mal reside em querer fazer de seu pensar, algo que se descobriu válido para si, diretriz aplicável, impositiva e indistintamente, a todos. A maior piada – e o mais óbvio, penso ainda – é que os convictos (seja lá no que for: na crença de que Deus existe ou naquela de que Deus não existe, por exemplo) se arvoram sempre melhores que os partidários de idéias antagônicas. Basta ver que, se a Verdade um dia se descortinar, comprovando a existência de um Ente Criador, uma Inteligência Superior (Logos) que coordena o Cosmos, algo que confirme o atendimento a nossas ânsias por uma Divindade, os “ateus convictos” vão logo ‘espernear’ no sentido de sua crença igualmente cega, como tantas mais que criticam. Se, por outro lado, descobrir-se, comprovadamente, a inexistência de uma Divindade, se esquadrinhando o cosmos, em suas múltiplas dimensões, nada encontrarmos neste sentido, o mesmo proceder será o dos crédulos convictos, a rebelar-se contra a evidência inconteste. Como se vê, a convicção denota exatamente artigo de fé, seja lá em que direção aponte. E os pólos contendores que ora tomamos como exemplo, ambos convictos, nada mais fazem que erguer armas (proceder belicoso e nada racional, diga-se), sem se dar conta de que convicção não é algo que se coadune com o proceder filosófico. Filosofia, penso, é atividade inerente ao ser pensante, é potência do ser pensante (ainda que alguns dela não façam uso corriqueiro), ou que exija considerável esforço para despertar em si esta potência própria do ente humano. Muitos há que só “pensam” no agir maquinal, nas ações de âmbito estritamente profissional, no know-how, num saber-fazer, num saber instrumental, naquele que possa traduzir-se num ganho material palpável, olvidando o quanto verdadeiro pensar exige esforço direcionado para tanto, olvidando o quanto o verdadeiro pensar dói, trazendo em seu bojo, porém, os louros que lhe são co-respectivos e equivalentes.
Falar de convicção e Filosofia faz lembra a piada: “não convém ladear inteligência a militar”, ou seja, ou se seria inteligente, ou se seria militar, as duas opções acabando por se fazerem mutuamente excludentes. Mas voltando à seriedade que o assunto exige, é de dizer-se que, de igual modo, não se pode tomar por filósofo aquele que se quer convicto do que quer que seja. Noutras palavras, ou se seria filósofo ou se seria convicto. O filósofo é um “buscador”, um transeunte em melhor palavra, aquele que destruiu o conforto de sua “casa”, de seu “lar”, para viver sempre a construir, desconstruir e – sobretudo – reconstruir seu habitat, e tantas vezes quantas se façam necessárias. É aquele que opta por viver sempre em ambientes provisórios, sem firmar raízes ou afeto demasiado a teorias ou concepções de que ordens sejam. O filósofo é o que se libertou da caverna e não há de querer forjar uma outra para si. O ódio comum no seio das agremiações, dos partidos e dos “ismos” é a exata marca da convicção e o oposto do proceder filosófico. E exemplo melhor não nos falta: o ódio com que normalmente se reportam os ateus aos crédulos (via de regra, arvorando-se mais libertos, mais racionais...) denota, exatamente, encontrarem-se em prisão pouco diversa da que condenam e pretendem denunciar, eis que o ódio dista consideravelmente da libertação, porque se faz liame inexoravelmente mais sólido que o próprio amor – fruto de paixão, próprio de doença. O ateu convicto e belicoso nada mais parece ser que um ex-crédulo frustrado ao ter descoberto as mentiras, erros, equívocos sem-conta da fé que um dia abraçou com igual convicção. É menos escravo que os que lá fincaram raízes?! Não creio.
Quis dizer aqui – e espero ter sido suficientemente claro – que Filosofia não é compatível com convicções, exceto talvez aquela de que convicções são extremamente perigosas. O verdadeiro filósofo pretende-se livre de entraves sectaristas, intentando divisar algo além dos rótulos, dos “ismos”, e de toda essa ladainha. E essa 'raivinha' infantil contra as religiões, o julgar tema de ordem religiosa como algo avesso ao proceder filosófico, ou mesmo o dizer-se 'ateu convicto' (como se isto se traduzisse na mais sábia e racional das afirmações) parece ser coisa de frustrado... nunca de filósofo. Pintar as religiões como o mal, quando tudo que divisamos neste mundo é misto de bem e mal, quando tudo nesta vida nos parece trazer ônus e bônus imbricados e quase que indissociáveis, é raciocínio que transparece ser dos mais chulos, além do que mero lugar-comum. A estes que assim pensam lembraria que, da vida recebemos sempre o pacote completo, ela mesma, o saber e tudo o mais vêm permeados de um misto de prêmio e castigo, de prazer e dor, de libertação e de escravidão, de céu e de inferno (por enquanto, ao menos). Aristóteles nos legaria dizer similar, ao professar que 'as raízes da árvore do conhecimento são amargas, mas seus frutos são doces.'
Nesse ínterim, e a despeito mesmo da crítica ora tecida e já demasiado pesada, me permito aqui ser ainda – eu também – incisivamente intolerante (e me escudaria, ao fazê-lo, no dizer de um John Locke, segundo o qual só seria admissível uma única forma de intolerância, aquela mesma dirigida aos próprios intolerantes). De repetirmos, então, o ateu convicto nada mais parece ser que um ex-crédulo-religioso-enrustido e frustrado pela decepção tida com a fé que um dia creditava com fervor. E através de sua raiva (pouco construtiva, diga-se de passagem) ignora seja seu ateísmo mesmo um igual objeto de fé (e em nada diverso daquele que condena). Neste sentido, só as mentes que intentem (e quiçá consigam) ser livres (o quanto se possa) e o mais possível isentas é que podem fugir desse círculo vicioso de amor e ódio pelas agremiações, pelos rótulos – sejam teístas, deístas, ateístas, ou outros quaisquer –, pelas indumentárias vocabulares de toda a sorte, pelo apego ao partido, ao grupo, ao time, ao clube, ao credo religioso formal, e a agremiações de que ordens forem, desse ranço sentimentalóide por sentir-se parte de um grupo, seja ele qual for, quando talvez nossa percepção seja única e – possível – estejamos sós a pretender dialogar com linguagens que seriam díspares, porque, talvez, única a de cada um. Todavia, em contrapartida, toda a construção humana desde o despertar do primeiro ente racional, na noite dos tempos, até então pesa fortemente em sentido contrário, uma vez que conseguimos comunicar algo, ainda que a comunicação mesma fique restrita ao teor da linguagem de que se faz uso.
Agora vejamos: de Jesus, que apregoava 'o amor ao próximo como a si mesmo' e o 'não matarás', tergiversaram as idéias justo para matar sob seu nome; e, de Sócrates, advieram pensamentos tão díspares como o são o estoicismo e o hedonismo. Há ainda os que, julgando bem interpretar Sócrates, digam-no um amante da morte, um apregoador do desapego (e desrespeito) à vida, em boa parte por ter aceito, resignadamente, sua condenação à pena morte. E dizem: “é que queremos ouvir o inaudito”, terminando, por vezes, ouvindo o que nem sequer foi dito. E, quando contraditados, sustentam não podermos fazê-lo, porque, basicamente, não poderíamos perscrutá-lo, uma vez que – como Jesus – ele nada teria escrito de si. Desconsideram, de já, que este seu mesmo argumento e premissa valha, igualmente, para a própria tese que levantam e querem suster, desarticulando-a de igual modo. Bem, que não possamos perscrutar de fato Sócrates, é uma coisa, mas – penso – mesmo o Sócrates de Platão não parece ter morrido por falta de amor à vida ou à si... exato, a contrario sensu, por amor à vida, a si mesmo e àquilo que lhe dava prazer fazer: o filosofar. Lugar-comum?! Talvez, mas qual o receio nosso quanto a lugares comuns se traduzirem algo digno e de senso?
Sócrates fora, ele também, um membro da 'Ekklesia' que o julgou. Eis as alternativas lhe foram dadas por seus sentenciadores: ou abandonaria a cidade, ostracismo; ou morreria pela ingestão de cicuta. Vejamos, quando Aristóteles, já bem posteriormente, viria a dizer que o homem é um ser político, nem de longe falava da noção que temos hoje de política. Falava do homem enquanto ser da ‘pólis’, da cidade-estado grega. É que se pressupunha, não haveria viabilidade de vida, fora da pólis – e, de fato, à época era, como ainda hoje o é. Revela-se sobremaneira rude e dificultosa a vida longe de outros seres humanos. Bem, existem ermitões, é fato, mas não desde o nascimento. É fácil perceber, por exemplo, que um bezerrinho recém-nascido leva apenas alguns minutos para pôr-se de pé, um pouco mais para caminhar ainda meio cambaleante. O certo é que, em bem menos de quinze, talvez dez minutos, ele já está mamando nas tetas da vaquinha, sustendo-se por si mesmo, soerguido pela força de seus próprios músculos. É bastante difícil, incogitável até, desenhar mentalmente um bebê humano a gozar de uma tal autonomia. O rebento humano leva anos para se alimentar sozinho, anos para começar a engatinhar e, mais tempo ainda, para andar por si só, que se dirá de ter autonomia para sua própria sobrevivência e sustento. Sendo suas capacidades tão restritas, seu único mecanismo defesa, o único meio de que dispõe para enfrentar as adversidades – seja a dor da solidão, da fome ou qualquer outra – é o choro, um grito de alerta, um pedido de socorro. Sócrates não era um bebê, é óbvio. Mas, atentemos bem, a ele foram dadas apenas duas alternativas: a morte ou a morte! Para ele, viver fora da pólis era, de qualquer forma, estar destinado à morte – e em um duplo sentido: a um, porque inviabilizaria (senão, pelo menos, dificultaria sobremaneira) a vida (mas não creio, nem é o que os diálogos platônicos denotam, ser esta a preocupação socrática); de outro, porque o impossibilitaria de travar contato com os seus, obstaculizando-o, pois, de filosofar, ou pelo menos de fazê-lo da maneira que mais lhe aprazia: o diálogo, a conversa. Falou-se aqui em prazer, mas que seria o prazer?! Para Sócrates, era filosofar, falar com quem lhe aprovesse, sem nada cobrar por isto. Nisto ele se considerava mais livre e feliz que os sofistas, pois não era obrigado, ao peso do ouro amoedado, a ter que fazer o que não queria, quando não queria, ao passo que os sofistas, ao venderem seus conhecimentos, eram obrigados a ministrar seus ensinos, uma vez já recebido o preço. E, ironicamente, Sócrates ainda alertaria a seus condenadores que se se via condenado à morte por eles, não menos eles, condenados de verdade, também o eram, eis que imputavam-lhe uma pena a que todos estavam fadados.
Engraçado que quase chego a tender, neste tocante específico, ao pensar niilista, quando constato que do pensamento de um só homem, de Sócrates, tenham divergido escolas tão diversas como a estoicista e a hedonista, para não falar da epicurista, a quase que se entremear às duas. O correto, para uma, era a privação das paixões, que rebaixariam o homem de um certo modo; a felicidade estaria na dor, no "suportar-se e abster-se"; já, para outra, a virtude estaria na entrega aos prazeres de toda a sorte. É diante disto que se pode constatar quão apressados são os julgamentos de Jesus pelos homens de hoje, que mais julgam o que fizeram com o seu pensamento seus seguidores, do que o seu pensamento em si, apondo o dizer fácil do dizer de que não se possa conhecê-lo.
A esta altura, alguém poderia questionar, protestando: ‘sim, mas e porque nos reportarmos aqui sempre às figuras de Sócrates e Jesus no trato da questão da intolerância?’ E talvez aí já nem mais importe tanto – face as razões já dadas – o pincelar, aqui e acolá, de abordagens de cunho religioso (ou algo aproximado disso), no caso de Jesus, mas querendo pôr em xeque especificamente o uso de um pensar alheio e dito antiquado sobre a questão, propondo, é provável, o abandono deste “modo antigo de pensar” e a adoção de um pensar autêntico, um pensar propriamente nosso. A primeira vertente da questão revela-se simplória. De um lado, as personagens adotadas como exemplos nesta nossa incursão professavam como cerne mesmo de suas concepções a tolerância, o que mais que justificaria a sua adoção aqui. Por outro lado, a proposta de abraçarmos uma concepção própria, e não a de tais (ainda que como mera base à análise) demandaria raciocínio algo mais elaborado como resposta.
Sei que talvez só pareça tangenciar o tema da discussão em tela e agora em evidência, mas o exemplo a seguir demonstrará, neste tocante, ser bem mais elucidativo do que realmente aparenta. Senão vejamos: certa feita, conversando com um amigo, a transitar pelos corredores da universidade, ouvimos de alguém que passava ao largo e dizia mais ou menos isto para aqueles que com ele seguiam (sic!): “devemos gostar é de música piauiense... estou cansado de pessoas que ‘curtem’ outros estilos... que não prezam o que é nosso... porcaria de rock... porcaria de música clássica!”
Floreios à parte, eu me pergunto: devemos apreciar o que é bom, por ser melhor, ou o que é nosso, simplesmente por ser nosso? Devemos cultivar gosto pelo que se apresenta como esteticamente superior (e creio tenhamos meios para averiguar em termos algo objetivos o que é melhor no campo da arte, como em outros campos mais), ou devemos apreciar e nos dedicar (tão-somente) àquilo que é nosso – muito embora eventualmente possa se tratar de arte pueril, de arte menor, muitas vezes sequer arte, persistindo num ufanismo sem sentido ante a arte universal (ou mesmo ao saber universal), àquilo que é clássico (no sentido de pioneiro e a um só tempo de norte maior para um dado campo – seja o da arte, o da filosofia, o da ciência, o da religião, etc.)? Atentemos bem, ainda estamos a falar de intolerância, em vertente, porém, algo diversa daquela linha que tomamos ab initio, é bem verdade, mas, ainda assim, é sobre ela que ora conversamos.
Voltando à situação dada, temos que, se um artista local se destaca em seu campo de atuação, se sua obra e sua arte são dignas de admiração, se nos satisfazem o senso estético, se traduzem a idéia de belo de modo a que seja digna de admiração e apreciação, isto é uma coisa. Que deva eu dedicar-me a apreciar – e tão-somente – a arte local, porque local, creio seja declarada manifestação de bairrismo tolo e mesmo de ignorância (no sentido mais rasteiro que o termo possa assumir) – sendo intolerância isto também. O mesmo poderíamos dizer da proposta de só nos valermos de um pensar próprio, pretensamente autêntico, algo que fosse só nosso (como pudesse haver algo de novo que não devotasse porção sua ao passado); vou mais longe, de uma “filosofia puramente nacional” (como fosse possível haver algo do tipo; como filosofia não fosse algo de per si, universal, seja pela busca ou mais ainda por aquilo que constitui), ou melhor – nos termos já expressos – de um sistema filosófico tupiniquim. Bem, de igual modo podemos concluir, se este pensamento nos trás algo de novo, se se adequa melhor que outros a nosso aparato cultural, se nos acrescenta algo e vem desanuviar questões que os instrumentos já postos não têm conseguido, se constitui perspectiva que, somada às demais, pode fornecer um melhor quadro das coisas, perfeito! Agora, que devamos nos dedicar – e tão-só – a ele, porque nacional (como se nação não fosse termo já batido, pisado e repisado em texto outro, aqui mesmo, como um a mais dos instrumentos de dominação utilizados pelo “poder”), como se abdicando de todos os sistemas filosóficos mais ganhássemos algo que o valha, é tolice e beira a infantilidade – constituindo manifestação clara de intolerância isto também!
Todo e qualquer sistema filosófico, enquanto tentativa de melhor enquadrar (e/ou traduzir) o real, com suas “transparências” e classificações, intentando conferir ou divisar ordem ao real, é passível de erro, deixa brechas, pontos que não foram convenientemente abordados, perspectivas que deixou à margem, inexploradas.
O que convém, hodiernamente, não é mais permitirmo-nos recrudescer em um bairrismo sem razão – seja no campo da filosofia, no da arte, da ciência ou em outro qualquer. Exige-se, sim, uma coadunação de estilos, uma combinação de sistemas, uma articulação de saberes em busca das soluções adequadas para os problemas que urgem, buscando uma perspectiva plural em prol de respostas a que se perquire desde tempos imemoriais, porque filosóficas por natureza, sem nunca desprezar seja o ser humano mesmo talvez a maior das incógnitas que temos diante de nós. Um paradigma holístico, portanto, é o que urge, não o fechar-se numa só e restrita visão de mundo, menos ainda querer impô-la aos outros como se algo que valha o preço do desprezo de todas mais, ainda que digna de senso ela mesma.
Bem, dadas essas (nada metodológicas) premissas de nossa análise, voltemos novamente à figura de Jesus e à questão da intolerância religiosa no seio da cristandade (intra-muros) ou vinda de concepções diversas (exteriores). Há alguns pontos fulcrais a considerar, cada um deles abrindo margem a discussões sobremaneira diversas e bem mais profundas, algumas das quais deixaremos apenas ‘no ar’, porque certamente refulgiriam do tema proposto.
Pois bem, ei-los então:
1.º - Jesus nunca se intitulou Deus e não há, na Bíblia, uma só menção SUA a tal respeito; a contrario sensu, quando chamado de “bom mestre”, ele retrucou: “- Bom?! Por que me chamais de bom? Só um há que seja bom e este é o Pai que está nos céus.” Isto já bastaria para afastar uma tal idéia. Ainda assim, sabemos que, fruto de disputas mais políticas que religiosas, nos diversos e sucessivos concílios perpassados quase 400 anos após a sua morte é que determinou a adoção de uma tal concepção, destinando a todas as posições vencidas a pecha de heresia, ainda que a vitoriosa e anterior viesse, quase sempre, a ser considerada herética, por vezes, exatamente no concílio subseqüente, daí o nestorianismo, o monofisismo, o arianismo, etc., etc., etc.
2.º - Jesus não veio fundar uma religião institucionalizada formal (que se dirá de muitas, quais as que há por aí então). Ele era contra as práticas exteriores e os ritos vazios de um verdadeiro envolvimento íntimo. Era justo contra isto que ele se soerguia, criticando os fariseus e hipócritas por tal razão, por seguirem exteriormente impecáveis no agir e no falar, mas o íntimo guardando toda a sorte de veleidades. Ademais, que saibamos Jesus era constantemente expulso de templos e sinagogas, como então vir para criar uma outra a mais, se pregava ao ar livre e era seguido pelos mais humildes, pelos perseguidos e discriminados, por doentes (leprosos, cegos...), meretrizes e mendigos, bem diverso da ostentação e da riqueza dos vendedores de indulgências que vemos hoje em dia. Se se quer conferir razão, é de se lembrar que, ao ter dito: 'o Reino de Deus está dentro de vós', frase tão alardeada por Tolstói e Gandhi em suas lutas libertárias e anarquistas (e leia-se anarquista aqui, no sentido de fundar uma ordem na ausência de coação exterior ao homem – uma ordem interior), Jesus estaria igualmente dizendo que Deus e seu Reino não estariam em templos de pedra ou em instituições criadas por homens, mas dentro de cada um de nós, como em toda a criação, enfim. Algo que se nos afigura similar ao 'conhece-te a ti mesmo' de Delfos, adotado por Sócrates como prática de vida, como virtude de ímpar importância.
3.º - Ao dizer 'sede oleiros de vosso próprio barro' estaria igualmente considerando desnecessária a figura de sacerdotes, padres, bispos, pastores, clérigos de toda a sorte, ou quem quer que seja (de exterior) a guiar o homem, tomando como imprescindíveis apenas sua razão, seu bom-senso, sua própria consciência, ou sua fé, se preferirem, como elementos a secundar a edificação do próprio homem. O homem de hoje seria – ele mesmo – o artífice e o edificador do homem de amanhã. O além-homem?! Quem sabe...
4.º - Falando então da intolerância “extra-muros”, não é incomum tomar-se o desapreço pela igreja pelo desapreço à figura do próprio Cristo. A grande maioria dos ranços religiosos e dos ódios disseminados se dirigiriam, em verdade, à Igreja (por seus erros sem-conta) e não a Jesus. E a despeito de qualquer manifestação de cunho religioso (aqui no sentido pejorativo), é visível o abismo que há entre o que as religiões pregam e seus cultores. O mesmo tendo ocorrido também com a figura do Cristo. Nietzsche já diria "o cristianismo morreu na cruz", porque, talvez fosse o entendimento dele, Cristo teria sido o único genuinamente cristão, inobstante ainda o termo tenha sido criado quase que 200 anos após sua morte. Ou seja, ele mesmo não poderia ser cristão, se entendemos por cristão aquele que segue uma religião formal cristã – que à época sequer existia.
5. º - Jesus disse: 'pagai o mal com o bem'. Sócrates, pelas letras de Platão, afirmou: 'é melhor sofrer uma injustiça do que praticá-la'. Nos Vedas, lemos: 'sê para o teu inimigo, o que é o sândalo do campo que perfuma o machado do lenhador que o corta; sê para aquele que te aflige, o que é a terra que devolve farta colheita ao lavrador que lhe rasga o seio.' Ao que parece, seriam mensagens similares e de mesmo fim – mostrar talvez que, também no campo moral, há uma reação para toda ação, e que a reação de um “mal agir” seria tão danosa a ponto de preferir-se sofrer as conseqüências do agir reprovável de outrem que tomar igual atitude.
6.º - Quando Jesus diz: 'se te baterem na face direita, oferece a esquerda também' temos que atentar para o fato de que, uma pessoa destra, batendo na face direita de outrem, só poderia fazê-lo com a parte externa da mão – e esse era o modo usual de se bater em escravos, o que seria considerado uma indignidade. Ora, oferecer a outra face seria fazer com que batessem com a palma da mão, como se faria com um igual (e não com um escravo). Daí fica fácil entender porque o 'ahimsa' de Gandhi, sua mensagem de não-violência, teve grande base no pensamento de Jesus, sendo sua proposta resistir ao mal sem praticar o mal. Para Gandhi, o mal proliferaria do mal, devendo-se fazer o bem, como única forma de extirpar o mal. Optou condenar o mal com veemência, resistindo-lhe com todas as forças, mas amando e fazendo o bem ao próprio malfeitor, eis a única maneira que divisava para pôr fim ao mal. E talvez pudesse ele ser considerado mais cristão do que eventualmente sejamos por nos arvorarmos seguidores de uma religião cristã, por sermos cristãos de rótulo, tendo ele seguido mais fielmente os ensinos do Cristo que muitos de nós, seus próprios ditos seguidores no Ocidente.
7.º - A intolerância “intra-muros” chega a ser ainda pior. As igrejas cristãs todas (leia-se também: seus seguidores), a todo o instante, vivem a digladiar pelo título de verdadeiros cristãos, alcunhando as demais de seitas, detratando-se umas às outras. A tal respeito, há uma passagem da bíblia em que dois apóstolos recriminavam a um homem que pregava e expulsava demônios em nome de Jesus, muito embora, os apóstolos não o reconhecessem como um dos seus, uma vez que nunca o tinham visto, tampouco dentre aqueles que acompanharam, alguma vez, os ensinamentos do mestre. Traziam-no pelo braço, recriminando-o por pregar e realizar feitos em nome de Jesus. A esse tempo, Jesus exortou: “deixem-no, porque aquele que não é contra nós é por nós!”
8.º - As igrejas, porém, falam em uníssono na ressurreição da carne. Apregoam que, para que adentremos a um tal Reino de Deus, precisaríamos ter ressurrectos nossos corpos, quando a própria bíblica os contradiz com veemência. Vejamos, em Lucas 17:21, se lê “o Reino dos Céus está dentro de vós.” Em 1 Coríntios 15:50, tem-se: “carne e sangue não podem herdar o Reino dos Céus.” E, por fim, para arrematar, em João 6:63, temos: “o espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita”. Ora, se Jesus mesmo, quando inquirido por Pilatos disse ainda: “o meu reino não é deste mundo”, a fazer crer seja seu reino um reino do espiritual; se seu reino é um reino do espírito (imortal), eis que a carne, qual veste, pode ser prescindível (para nada aproveita); se o espírito é o que importa, pois é o que trás vida ao corpo e leva-a, quando abandona-o; qual, então, a razão de apregoarem as religiões cristãs insistentemente a pretensa necessidade de ressurreição da carne? A ressurreição da carne, diga-se, também fora “votada” por um restrito grupo de bispos nos “sábios” concílios a que já fizemos menção. Bem, não haveria aqui uma abissal diferença entre o pensamento de Jesus e o das igrejas? Neste mesmo sentido, o homem, para Paulo, advinha de húmus, de pó. “Isto veio do pó e ao pó retornará”, o que veio do pó foi o corpo e para lá há de retornar. Contudo, “o espírito sopra onde quer, não se sabe donde veio nem para onde vai.” Ora, se uma é a glória dos corpos terrestres (físicos) – afirma Paulo – e outra a dos celestes (espirituais), qual deles há de ressurgir em glória ao final?! Corpo físico é que não parece ser.
9.º - Há uma passagem ainda bastante elucidativa quanto à clara diferença entre o pensamento de Jesus e o pensamento das igrejas (o dito pensamento cristão). Senão vejamos, em Mateus 21:31, lemos: “disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram ADIANTE de vós no reino de Deus.” No trecho em comento, Jesus dialogava com os fariseus e os poderosos da época. Atentemos bem para o fato de que ele não os condenou a um inferno de horrores eternos, mas alertou que aqueles mesmos que seus interlocutores condenavam (publicanos e meretrizes) teriam precedência a eles no reino de Deus, ou seja, adentrariam antes deles, iriam adiante deles, teriam primazia, seriam primeiros, mas não disse que eles (os fariseus e os poderosos) estariam condenados a um inferno (muito menos eterno), conquanto pecadores fossem. Acaso Jesus quis dizer que eles não entrariam no Reino dos Céus OU que tardariam entrar?! Que haveria uns que antecederiam outros nessa entrada?! Noutras palavras, que – conquanto cometessem erros – o inferno (a proposição de uma idéia de inferno, castigo, punição, seja lá o que for) seria temporária, provável – se se pretende justa – proporcional à falta cometida?! A idéia de um inferno eterno é um instrumento de dominação, ela também, nada além. Um instrumento “muito bem” utilizado pelas igrejas, diga-se de passagem.
10.º - Um último ponto que poderíamos levantar quanto à questão em análise seria o do abismo que há entre a lei civil (mosaica) e a chamada lei divina no Velho Testamento. Ladeia-se o não-matarás ao apedrejamento da adúltera ou ao corte da mão do ladrão, o que é absurdamente contraditório. Quando inquirido sobre o porquê de Moisés ter permitido o divórcio, Jesus disse “porque vossos corações eram duros”, não porque isto fosse “A LEI” – o desejável moralmente. Bem, interpelado ainda sobre se daria cumprimento ou revogaria a lei de Moisés, disse ele: “eu vim cumprir A LEI”, ou seja, pouco creditava ele à lei civil, à lei mosaica, a uma lei que não tinha pretensões de universalidade, que valia tão-somente para um povo e uma época, no período de suas andanças pelo deserto. A lei a que Jesus se referia quando retrucou foi a divina – leia-se: restrita ao decálogo. Eis que, de outra feita, quando questionado, sobre o que seria a lei, assim resumiu o cerne de todo o decálogo: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, eis toda a lei e todos os profetas.” Aqui se aproxima sobremaneira da regra de ouro evidenciada por Aristóteles, segundo a qual só devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que conosco fizessem.
11.º - Mas – já fugindo ao tema – e o termos vindo do barro em contraste com a teoria evolucionista?! – indagaria alguém. Ao que eu responderia com uma outra pergunta: como um ser de desenvolvimento evolutivo superior explicaria para aquele outro, recém-coroado com a razão, que a vida (o orgânico) teria surgido o inorgânico, senão com uma metáfora? Penso, não seria muito diferente do modo como um pai explica ao filho como se dá a concepção, senão dizendo, via de regra, que uma sementinha da mãe se uniu a outra do pai. Acaso ele teria mentido? – De forma alguma. – Antes explicou em conformidade com a capacidade de apreensão da criança. Assim sendo, penso não seja um esforço imaginativo muito elevado cogitar possa o barro bíblico ser uma metáfora para o caldo primitivo que possibilitou o surgimento dos coacervados e seu galgar a condição de seres racionais. E os sete dias da “criação”?! Viagens à parte, consta na bíblia o dizer: "um dia para Deus são como um mil anos e mil anos para Deus são como um simples dia”. O que é o tempo para quem não perece, para quem é eterno? – Nada! – Tanto faz um dia ou mil deles, o tempo não lhe toca, não lhe faz sentido algum. A tal respeito, outro dia li sobre uma pesquisa publicada na revista Geology, realizada por pesquisadores da ‘Arizona State University’, em Tempe, Estados Unidos, fornecendo mais informações sobre o possível berço da vida na Terra. A pesquisadora Lynda Williams e seus colaboradores teriam encontrado certos tipos de ‘argila mineral’ capazes de converter moléculas simples, baseadas em carbono, em moléculas mais complexas. Tais estudos teriam verificado que os oceanos não seriam meios ideais para o surgimento da vida, mas pequenas poças, quantidades mais reduzidas de água, sim, e em meio que pudesse coadunar os fatores que – segundo a teria da evolução – teriam possibilitado o surgimento de aminoácidos e, posteriormente, de vida. Que tal?! Racionalização que seja, é uma proposição até que interessante. Adão significa coletividade e Eva, vida. Metáfora é o exato mote da bíblia e não a literalidade. Adão e Eva seriam talvez dois povos, penso, e não duas pessoas. Mas racionalizar a religião, já diria Nietszche, é um prenúncio do seu fatídico fim. Caim Abel casaram-se, mas como, se presumidamente seriam os únicos filhos?! Quem saberá o sentido, quem terá a chave da incógnita?! Acho que já deveríamos ter passado da fase de questionar o que nos é insondável com a racionalidade nossa de cada dia... no futuro, talvez, um arqueólogo encontrando uma revista de moda, em que consta os dizeres – “uma estrela caiu” – bem que poderia pensar que se tratasse de um astro cósmico a despencar do espaço sidéreo e não da quebra do salto alto da Madonna – risos. Por estas e outras, da bíblia, só convém ater-se às instruções de sabedoria moral, ainda assim, a mais das vezes, as do novo testamento: e olhe lá. Bem, confesso que seria até bom ver a polícia cortar as mãos de uns políticos safados! risos... brincadeira, claro...
Francisco de Sousa Vieira Filho

6 comentários:

Thêmis disse...

Wow!!!
Esse foi beeeeem maior que os outros.
É uma questão complicada de se tratar,que foi tratada muito bem aki,se fosse eu,que sou muito cética e até intolerante,não daria muito certo...rs.

bjos

Aurora disse...

nossa, e eu pensando que só eu fazia posts grandes, superou ein?desculpa não ter lido muito ou pouca coisa.
:*

Déborah disse...

Bem!!! Qnd eu fui fazer a resenha dxe textão, rsrs... Eu num sabia nem por onde ia começar.
+ ele realmente eh interexante.
Eu acredito em
Jesus + sempre paira aquela pergunta d onde ele andava e o q fazia antes dos 33 anos... Será q Jesus tv msm 1 filho? Na mha opinião, num axo nada d+, ate pq ele era um homem. Mas a Ireja ñ aceita de jeito nenhum. O filme O codigo da vinci fala dxa questao, alias o filme eh mt bom...adorei..
Se bem q ixo eh relevante, pq como vc msm me dxe, o q prevalace são suas msgs e o resto eh resto.

=]

Teka disse...

Meu amigo Francisco!

Dentre todos os filósofos Jesus se mostrou o maior, e não somente após o cristianismo, como antes mesmo da tomada de seu nome, para se trazer a dominação através da guerra.

Muitos já morriam em nome de seus ensinamentos!

Sobre Jesus haver existido, a história já comprova que o homem natural sim, existiu, o que lhes falta a prova, é o homem milagroso.

Mas onde estaria o milagre, se não em nós mesmos?!

Um beijo, muito bom o seu texto!

Paz e Luz!

ErikaH Azzevedo disse...

E agora como começar, pelo fim, ou pelo começo....o texto é grande sim, mas vc conseguiu compilar tudo pro fim, nas ultimas considerações que propuseste.

Não vou aqui tecer comentários sobre Aristoteles , Sócrates, Kant, ideologias e filosofias difundidas e estudadas....até pq não sou uma estudiosa nisso, me especializei em outros campos de atuação...

Jesus não foi só um religioso, foi tb um sociólogo, poeta, filósofo, um ser pensante...e não é o pensar o objeto fulcral da filosofia? Jesus foi um político , um questionador, um observador critico...

A filosofia não impõe verdades mas se incumbe em proposições que nos faça distingui-la...assim fazia Jesus, ele nunca quis que fossemos semeadores de uma fé –cega, ele semeava nas pessoas uma fé questionadora, inquisidora e portanto consciente...

Somos mesmo maniqueístas, é como se as coisas se excluam por si só.. ou somos bons ou maus, ou viveremos no céu ou no inferno.....ou se é filósofo ou se é religioso. Jesus quebrou esse paradigma, não só ele mas tb Buda, Maomé,e tantos outros...isso sim é intolerancia, não permitir ver que as coisas não são preto no branco mas que têm nuances diversas .... uma paleta de cores....

Jesus foi um intelectual e isso não o desmerece na sua condição divina...Jesus foi um ser espiritual e isso não o desmerece na sua concebida intelectualidade.

Intolerancia é querer separar...e mais, fazer dessa separação uma única verdade, excludente das demais...

Aqui no teu texto vc diz que muitos dizem...jesus era apenas um religioso... e em outros casos muitos tb dizem, Jesus era apenas um filosofo....e eu te pergunto...onde é que esse APENAS cabe melhor?

Concordo contigo qdo dizes que o ateu e o cristão, ambos convictos, são tb ambos intolerantes...pq intolerância é se imobilizar perante as suas convicções....mais vale a pena se questionar, se desconstruir , se reorganizar.... mas isso exige um tantão assim de coragem.

Vale até ser um apologista, mas nunca um intolerante... é preciso defender seus ideais sim, mas tb se abrir a novos, não se permitir se entregar às constâncias das verdades inquestionáveis...qual a verdade inquestionável qdo tudo é relativo?

Seu texto a mim somou e muito, sobretudo por alguns postulados religiosos que muitos insistem ler, e comungar de forma literal...a questão do barro, do virar a face, e outras que tu sabiamente colocaste..principalmente nas ultimas considerações.

Só mais uma coisinha que eu sempre questionei, o cristianismo fala tanto em castidade, na manutenção da virgindade até após o casamento, pq será então que Maria concebeu Jesus sem nem ser casada? Eu como vc tb me questiono em muitos postulados cristão...sempre tão baseados no evangelios dos apostolos....que apostolos? Até eles foram escolhidos de acordo com a necessidade politica da época...e os evangelios apócrifos, o de Judas, o de Madalena e tantos outros...sou capaz de acreditar mais nesses por eles serem justamente apócrifos...

Eu concordo com Nietzsche, o cristianismo morreu mesmo na cruz, com cristo, cristo não é o cristianismo...o cristianismo é o que fizeram de cristo...houve toda uma razão política na sua criação, muito mais que religiosa.
Cristo , se vivo, iria preferir uma fé assim, mais questionativa, critica, analítica, e transformadora de opinião... e com toda certeza seria avesso a qualquer tipo de intolerância, e isso é o que a sua historia de vida nos conta....


Um beijo a ti menino,

Erikah

ErikaH Azzevedo disse...

E agora como começar, pelo fim, ou pelo começo....o texto é grande sim, mas vc conseguiu compilar tudo pro fim, nas ultimas considerações que propuseste.

Não vou aqui tecer comentários sobre Aristoteles , Sócrates, Kant, ideologias e filosofias difundidas e estudadas....até pq não sou uma estudiosa nisso, me especializei em outros campos de atuação...

Jesus não foi só um religioso, foi tb um sociólogo, poeta, filósofo, um ser pensante...e não é o pensar o objeto fulcral da filosofia? Jesus foi um político , um questionador, um observador critico...

A filosofia não impõe verdades mas se incumbe em proposições que nos faça distingui-la...assim fazia Jesus, ele nunca quis que fossemos semeadores de uma fé –cega, ele semeava nas pessoas uma fé questionadora, inquisidora e portanto consciente...

Somos mesmo maniqueístas, é como se as coisas se excluam por si só.. ou somos bons ou maus, ou viveremos no céu ou no inferno.....ou se é filósofo ou se é religioso. Jesus quebrou esse paradigma, não só ele mas tb Buda, Maomé,e tantos outros...isso sim é intolerancia, não permitir ver que as coisas não são preto no branco mas que têm nuances diversas .... uma paleta de cores....

Jesus foi um intelectual e isso não o desmerece na sua condição divina...Jesus foi um ser espiritual e isso não o desmerece na sua concebida intelectualidade.

Intolerancia é querer separar...e mais, fazer dessa separação uma única verdade, excludente das demais...

Aqui no teu texto vc diz que muitos dizem...jesus era apenas um religioso... e em outros casos muitos tb dizem, Jesus era apenas um filosofo....e eu te pergunto...onde é que esse APENAS cabe melhor?

Concordo contigo qdo dizes que o ateu e o cristão, ambos convictos, são tb ambos intolerantes...pq intolerância é se imobilizar perante as suas convicções....mais vale a pena se questionar, se desconstruir , se reorganizar.... mas isso exige um tantão assim de coragem.

Vale até ser um apologista, mas nunca um intolerante... é preciso defender seus ideais sim, mas tb se abrir a novos, não se permitir se entregar às constâncias das verdades inquestionáveis...qual a verdade inquestionável qdo tudo é relativo?

Seu texto a mim somou e muito, sobretudo por alguns postulados religiosos que muitos insistem ler, e comungar de forma literal...a questão do barro, do virar a face, e outras que tu sabiamente colocaste..principalmente nas ultimas considerações.

Só mais uma coisinha que eu sempre questionei, o cristianismo fala tanto em castidade, na manutenção da virgindade até após o casamento, pq será então que Maria concebeu Jesus sem nem ser casada? Eu como vc tb me questiono em muitos postulados cristão...sempre tão baseados no evangelios dos apostolos....que apostolos? Até eles foram escolhidos de acordo com a necessidade politica da época...e os evangelios apócrifos, o de Judas, o de Madalena e tantos outros...sou capaz de acreditar mais nesses por eles serem justamente apócrifos...

Eu concordo com Nietzsche, o cristianismo morreu mesmo na cruz, com cristo, cristo não é o cristianismo...o cristianismo é o que fizeram de cristo...houve toda uma razão política na sua criação, muito mais que religiosa.
Cristo , se vivo, iria preferir uma fé assim, mais questionativa, critica, analítica, e transformadora de opinião... e com toda certeza seria avesso a qualquer tipo de intolerância, e isso é o que a sua historia de vida nos conta....


Um beijo a ti menino,

Erikah