The Lair of Seth-Hades
Arte: Meats Meier - http://beinart.org/artists/meats-meier/gallery/meats-meier-2.jpg

Presente do amigo Zorbba Baependi Igreja - artista plástico, poeta e um dos idealizadores da Revista Trimera de Letras e do Projeto Academia Onírica [poesia tarja preta].

LIRA ANTIGA BARDO TRISTE & LIRA NOVA BARDO TARDO

Galera, estou pondo uma conta PagSeguro à disposição, para quem [assumindo o risco por sua própria alma] tenha interesse em adquirir um de meus livros [Lira Antiga Bardo Triste ou Lira Nova Bardo Tardo]. O custo de cada exemplar é de R$ 10,00 + R$ 5,00 de frete. Valeu! :D

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Pag Seguro - compra dos livros

Carrinho de Compras

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Interlúdio: texto em construção - A INTOLERÂNCIA NOSSA DE CADA DIA

"Onde quer que um asiático me indagasse sobre uma definição da Europa, eu era forçado a responder: é a parte do mundo que é tomada pela incrível ilusão de que o homem foi criado do nada, e de que este seu nascimento é sua primeira entrada na vida."
Arthur Schopenhauer

"Observando que existo neste mundo, creio que, em uma forma ou outra sempre existirei."
Benjamim Franklin

"Estou certo de que estive aqui como sou agora, milhares de vezes antes, e espero retornar milhares de vezes."
Gottfried Wilhelm Goethe

"É um segredo do mundo que todas as coisas subsistem e não morrem, mas apenas se retiram um pouco da nossa visão e retornam outra vez... Nada está morto; os homens sentem-se mortos, e toleram ridículos funerais e pesarósos velórios, e lá permanecem olhando para fora da janela, sãos e salvos, em algum novo e estranho disfarce..."
Ralph Waldo Emerson

"Assim como vivemos milhares de sonhos em nossa vida atual, do mesmo modo nossa vida atual é apenas uma das milhares dessas vidas nas quais entramos depois de uma outra vida mais real... e então regressamos após a morte. Nossa vida é nada mais que um dos sonhos dessa vida mais real, e assim ela é interminável, até a verdadeira, última e real vida - a vida de Deus."
León Tolstói


"A genialidade é produto da experiência. Alguns parecem pensar que se trata de uma dádiva ou talento, mas ela é fruto de uma longa experiência acumulada em muitas vidas."
Henry Ford

"Eu não posso pensar em uma inimizade permanente entre os homens, e acreditando como acredito na teoria do renascimento, vivo na esperança de que se não nesse nascimento, mas em algum outro nascimento, serei capaz de abraçar toda a humanidade num abraço fraternal."
Mahatma Gandhi

sábado, 10 de maio de 2008

MEDO E DOMINAÇÃO


MEDO E DOMINAÇÃO
A política do medo e sua utilização para fins de domínio e controle
Não podemos viver com medo, embora – é fato – dele precisemos para sobreviver. Explico melhor: não podemos viver em constante estado de temor, mas, ocasionalmente, ele nos é (como sempre nos foi) muitíssimo útil em situações de perigo ou ameaça. O medo teria garantido a sobrevivência das espécies e a evolução da vida até o galgar de condições que tornaram possível o surgimento de um ser racional. É ele um dos móveis e o estopim mesmo, por assim dizer, de todo o sistema nervoso simpático, fazendo injetar altas dosagens de adrenalina no organismo (a possibilitar reações rápidas ante o menor sinal de perigo), dilatando as pupilas (a fim de ampliar os sentidos e as percepções, possibilitando, igualmente, uma reação mais precisa face ao objeto do temor), deslocando o sangue da periferia para o centro do corpo, dos órgãos e membros mais periféricos para os mais vitais e centrais (de um lado, isso evita hemorragias em caso de danos naqueles órgãos e membros de maior exposição; de outro, prioriza a manutenção da viabilidade vital do ser, preservando seus órgãos principais e mais importantes). Enfim, o medo teria contribuído, de um certo modo, para que atingíssemos a condição de, hodiernamente, podermos pensar e refletir sobre ele. Todavia, este mesmo medo que garantiu a sobrevivência pode vir a matar... e a matar lentamente.
Divisemos a questão sob um outro prisma. O mote de toda a educação ocidental, por exemplo, parece ter sido exatamente o medo. Medo de notas baixas, medo de reprovação, medo da reprimenda dos pais, dos professores e da sociedade, medo do remorso e da culpa daí decorrentes, medo... Parece que fomos criados, preparados, doutrinados mesmo, para vivermos sob a égide do medo. Tal sentimento, de há muito, deixou de ser o simples móvel de uma reação necessária ante uma situação clara e evidente de perigo ou ameaça, passando, hoje, a ser quase que um modo de viver – e isto, sobretudo, no Ocidente. Temores de toda a sorte se espalharam e se perpetuaram independente da existência de um objeto causador de perigo ou não. O Ocidente parece ter engendrado objetos de temor abstratos, sinais de perigo perenes, inamovíveis e, sobretudo, irreais, a pautar um igualmente constante estado de temeridade e de alerta. E isto não parece ter se dado ao acaso, mas atendendo a uma certa ordem de interesses.
De fato, vivemos em constante estado de alerta. Vivemos sob o signo de um perigo invisível, onde quer que estejamos - o que se evidencia sobretudo nas grandes cidades. O sistema parece ter feito de uso constante aquilo que surgiu para ter vazão em ocasiões de eventualidade. Pintou-se o objeto de temor em tudo. Para onde quer que foquemos o olhar, passa a quedar-se ali a face do terror – que nem mais precisa existir no mundo exterior, porque fez pouso perene no íntimo e nos corações. Via de conseqüência, paulatinamente nos distanciamos uns dos outros. É que o outro, como todas as coisas mais, transmutou-se – ele também – na própria face da temeridade. Eis o que marca a sensível e básica diferença que reside entre medo e fobia, entre o que é simples mecanismo de defesa e o que é a manifestação desregulada do mesmo; entre sua ativação em resposta a um objeto de temor específico, protegendo o organismo de eventual ameaça; e o acionamento indiscriminado e irracional deste mesmo mecanismo, a externar-se, com constância e freqüência tal – sem que haja qualquer agente fomentador desta sua atuação – que o conseqüente desgaste daí decorrente pode vir a ser fatal, seja sob a perspectiva individual ou mesmo coletiva, como veremos adiante, levando-nos a um limiar entre aquilo que podemos ser, aquilo que o ser humano pode vir a externar enquanto manifestação de sua potência e a exteriorização do que talvez haja de mais profano, a redução do homem à condição de meio para a consecução de fins determinados por outros.
Se se quer dar crédito, tememos a violência, por exemplo. E, via de regra, ela constitui uma chama fortemente alimentada pela farta lenha da massiva exposição na mídia de situações que se reportam, direta ou indiretamente, ao uso indiscriminado da força, da coação, da supressão das liberdades (de pensar, de ir e vir, etc.), enfim, da violência em todas as suas vertentes, seja por parte quem delinqüe e descumpre as normas, seja por aqueles que são encarregados, exatamente, de lhes dar cumprimento. Os índices, sejam eles oficiais ou não, demonstram um lento, porém paulatino, decréscimo da violência 'real'. Todavia, pouco importa que a violência de fato decaia, se o que vende (ou pelo menos seja este o argumento utilizado), se o que confere audiência, se o que dá lucro é a violência. Os índices de exploração da violência pela mídia cresceram a ponto de ocupar bem mais de 60% de tudo o que é veiculado em todas as frentes (TV, internet, rádio, jornal, etc.). A violência teria virado apenas um produto a mais de um voraz e irracional impulso de mercado. E teria sido, então, que passamos a nutrir e ostentar um temor quase que reverencial por uma abstração, por uma virtualidade, por algo que – guardadas as devidas proporções – nem sequer existe na precisa medida em que se dá a conhecer. Não haveria sequer falar-se a rigor em liberdade de imprensa, mas em liberdade de empresa – e, por vezes, nem isso.
Tal situação, porém, se reproduz e está presente nas mais diversas esferas. Há o temor pela perda do emprego (desemprego); receia-se da própria incolumidade física (nas grandes cidades tornou-se incogitável sair de casa portando jóias, adereços quaisquer ou valores de maior monta – a propósito, passamos a viver – todos – enjaulados em nossa própria prisão particular); teme-se as contas, receia-se das dívidas (de não se poder pagá-las, da cobrança, etc.); há reservas até em relação ao olhar alheio, ao julgamento que os outros façam ou pretensamente estejam a fazer; há pudores quanto a tudo e a todos. O mundo tal qual se organiza hodiernamente privilegia o medo, e quem dele “melhor” se utiliza mais consegue tirar proveito próprio, mais consegue dominar. É mesmo um lugar-comum dizer que o medo e o terror consubstanciam os principais instrumentos de dominação de que se vale hoje o sistema para manter-se, para perpetuar-se. Cria-se um objeto de medo e o Estado logo se prontifica a soerguer-se como o bastião da única solução viável à proteção dos cidadãos, muito embora seja ele mesmo a – sub-repticiamente – criar e manter meios de controle do medo coletivo, sobretudo valendo-se da imprensa oficial. Funciona mais ou menos como numa indústria de informática que fabrica programas anti-vírus. A princípio, ela teria surgido para eliminar os vírus, atendendo, assim, às necessidades de seus clientes. Pari passu, os empreendedores de tal negócio teriam compreendido que eliminar os vírus (seu objetivo maior) significaria eliminar sua própria raison d´être. Isso vale para o Estado como também vale para o Direito que o secunda. Se, por exemplo, o Direito conseguir um meio eficaz de, sem tolher as liberdades, fazer com que as normas sejam plenamente cumpridas, não mais haveria necessidade de uma instância protetiva, coativa ou mesmo executora de eventuais sanções, uma vez que as normas estariam interiorizadas de tal modo, que não haveria falar-se em seu descumprimento, tornando inútil uma instância reguladora de seu descumprimento - que não mais há (...) enfim, equilibrar as relações sociais, alcançar a “justiça”, garantir o cumprimento da vontade geral ou a satisfação de uma determinada instância de bem comum (culturalmente falando, que seja), significaria o fim do próprio Direito. Noutros termos, para nos valermos da metáfora em uso, a da empresa de programas anti-vírus, eliminar os vírus consubstanciaria exatamente eliminar a si mesma. Se de um lado a empresa se propõe a deles proteger os computadores, de outro, é deles mesmos (dos próprios vírus) dependente; não sobreviveria, nem existiria sem que houvessem vírus de computador – sem eles perderia sua razão de ser e existir.
Pois bem, cabe alertar dizermos isto sem nenhum cunho de querer propor aqui uma teoria da conspiração a mais – dentre as muitas que já há. E, por vezes, é necessário que se diga, algumas são até assim rotuladas com o deliberado e indisfarçado intuito de, com isso, diminuí-las; de combatê-las com este simples proceder; de desprezá-las (não por seu eventual conteúdo ilógico, irracional, não atinente ao senso, mas pelo simples fato de se lhes apor um rótulo que confira a pecha de se tratar de sandice, de assunto de somenos importância), sem que se diga necessária qualquer averiguação de senso quanto a seu cerne. Ora, resta óbvio ser este o "raciocínio do sistema": postar-se como uma solução milagrosa para um problema que, grosso modo, sequer existe, que é virtual. O homem é um ser gregário, um ser social, já diria Aristóteles, ao vislumbrar a clara incapacidade de um indivíduo, desde a mais tenra idade, suster-se por si só (ter alguma viabilidade vital qualquer sem o auxílio dos pais), ou manter-se sem o apoio mútuo dos que participam da mesma comunidade, quando da adultície. Pois bem, que o homem seja um ser social, é uma coisa, isto, porém, não é o mesmo, nem equivale a dizer seja o homem um ser estatal. Quero crer talvez um dia não mais precisemos do Estado e dos aparatos que lhe são por adendo (sobretudo os que visam, tão-só, à sua perpetuação em detrimento do indivíduo, do cidadão).
O medo, vimos, refere-se a um objeto real; a fobia, por sua vez, foca uma virtualidade. O escritor José Saramago, no documentário “Janela da Alma”, assevera vivermos hoje – mais do que nunca – na Caverna de Platão, a dizer que preterimos o mundo real em prol do virtual. E exemplifica isto ao propor que o cinema seria uma perfeita imitação da Alegoria da Caverna, uma vez que tendemos, por exemplo, a nos emocionar com o mendigo das telas (das sombras projetadas pelo filme, do virtual), ao passo que, ao sairmos do cinema, ao vislumbrarmos as luzes do “mundo real”, é costume sermos indiferentes ao mendigo REAL que nos roga por esmolas à porta de saída do próprio cinema. Também neste sentido, basta ver que aquilo que é veiculado pela imprensa, via de regra, tem bem maior poder de dirigir o pensar e o agir do homem que a própria realidade (se nos é lícito falar de algo como isto: realidade). O exemplo comum seria o das pesquisas de opinião de voto, muitas das quais – é a triste “realidade” brasileira (provável, mundial) – não condizem em nada, estatisticamente falando, com a intenção de voto daquele universo amostral que digam representar. Não se quer dizer que não hajam pesquisas sérias, pautadas em critérios verificáveis, etc., mas – sem dúvida – a neutralidade da maioria das quais é quebrada, seja por culpa ou por dolo, seja em decorrência do atendimento a interesses outros, seja por focar um universo amostral, uma região, um locu que pouca representatividade teria para se erguer ilações referentes ao todo. Por vezes, pesquisas que praticamente determinam a convergência dos votos de toda uma eleição sequer foram feitas mesmo, ou – quando o são – não atendem a parâmetros de lisura minimamente verificável. Entretanto, a despeito disto, elas são capazes de modificar os rumos de uma eleição em grau consideravelmente maior que aquilo que poderíamos chamar ‘intenção de voto real’ ou o ‘pendor natural do eleitor’. – Liberdade?! – Independente mesmo do campo que estejamos a tratar, da abordagem feita ou ainda da temática focada (seja em matéria de política, esportes, fatos do cotidiano, da vida e do mundo), aquilo que é transmitido pela TV, decorrência do próprio poder de alcance desta mídia, é capaz de pautar a vida das pessoas, seu pensar e seu agir. Milan Kundera já explicitava que o virtual passara a, paulatinamente, ter bem maior peso na formação de opiniões que o próprio real, a dizer que o real – se se pode falar nele, frise-se – seria pouquíssimo visitado, ao passo que o virtual seria o lugar-comum, a isto chamando de imagologia.
Bem, se o homem é um ser racional, poucos são os que andam, por aí, exercitando condizentemente sua humanidade hoje em dia. A grande maioria parece preferir viver sua “vida de gado”, bastando-lhes bom pasto e água farta para saciar a sede – a mera satisfação da vida animal, o velho panis et circencis que nos legou Roma – como se já não bastasse o Direito (risos). Desatentam para ânsias outras além das do corpo: as necessidades da mente pensante, o exercício da razão, o divisar as coisas do mundo com olhar crítico (ler nas entrelinhas), alimentar a alma com arte (“nem só de pão vive o homem...”, já diriam as escrituras), alçar vôos com a filosofia ou tatear (para usar o termo de um Edgar Morin) nossos poucos “arquipélagos de certeza” (em meio a oceanos de incerteza) com a ciência.
Ora, e o que viria a ser então o maior de nossos temores, aquilo que – decorrente de nossa própria condição no mundo – tememos com maior vigor? – Eu respondo: exatamente a incerteza. E o medo fomenta outras tantas mais...
E ele persiste e ainda nos persegue qual sombra sinistra a embotar-nos a visão, a nos fazer aceitar docilmente os grilhões daqueles que mandam, dos que dominam, a - sutilmente - se sobrepor à nossa própria sombra, gritando-nos ao pé do ouvido uma necessidade premente de libertação – não mais apontando o caminho para a fuga de um perigo ancestral que nos garanta a mera sobrevivência, mas evidenciando a necessidade de um “bom combate”, no único campo de batalha possível: a mente e o coração, para então nos livrarmos de um mal outro, consideravelmente maior e potencialmente irremediável, (eis que a chave da cura estaria conosco mesmos, com cada um) – a escravidão em nossa própria caverna interior, nossa escura e solitária prisão sem muros.
Francisco de Sousa Vieira Filho

segunda-feira, 5 de maio de 2008

DA EMBRIOLOGIA AO SOL


DA EMBRIOLOGIA AO SOL
Frutos de um inconcluso diálogo noturno
(com algumas supressões e adições, a tornar tudo mais compreensível)



FF - Lembro que, quando estudava embriologia, no segundo grau – o que depois se reavivou ainda mais por ocasião do contato com alguns colegas de faculdade que pensavam de modo similar e até de forma bem mais elaborada – sempre achei extremamente parecidos alguns dos estágios por que passa o embrião humano a algumas outras espécies animais, como que reproduzindo, em nove meses, os estágios evolutivos pelos quais teríamos passado, em milhões de anos, até atingirmos a condição humana. Ora vemos neste processo estruturas similares a brânquias, ora algo como uma calda (cóccix), por vezes outras estruturas similares a nadadeiras... seria isto uma prova da evolução?! (...) Penso que o barro ainda seria uma brilhante metáfora para explicar as coisas... racionalização da fé?! – talvez – mas, como então um ser mais evoluído explicaria para um recém-coroado com a razão, todo o complexo processo evolutivo pelo qual passou até atingir a condição de ser racional, senão sendo metafórico como o seria um pai ao explicar ao inocente rebento que ele veio de uma semente sua (do próprio pai) e de sua mãe, falando, assim, a verdade, adequada, porém, ao nível intelectivo do interlocutor?! E as escrituras dizem: "Deus criou o mundo em sete dias" (...) e complementam: "um dia para Deus é como mil anos e mil anos para Deus são como um único dia"... ora, o que representaria o tempo para quem é eterno, para quem não tem como parâmetro a morte, para quem não envelhece, nem perece, seja este lapso de um único dia ou de milhares de anos?! – Eu respondo: – NADA! Para este pretenso alguém o tempo nem sequer existiria. Para ele, tanto faria um dia ou um sem-número deles... há a existência – que não cessa –, nada mais... E, afinal, o que seriam os oceanos primitivos (ou os sistemas menores – pequenos lagos e poças) em que se teria originado a vida, senão – metaforicamente falando – barro?!
FFF - O problema é a necessidade de antecedência para que se solucione a questão de que um Ser Criativo materialize a criatura, se não leva em conta que o próprio tempo pode ter se originado em um dado momento – o tempo sendo, ele também, uma criação... ou seja, se o tempo teve um início, isto solucionaria a necessidade de antecedência...
FF - É como se diz: "se todo efeito tem uma causa" – e pode-se presumir seja racional estender: "todo efeito inteligente tem uma causa igualmente ou mais inteligente", é dizer: "todo efeito inteligente tem uma causa inteligente que lhe preceda, uma causa inteligente anterior"... revelaria, assim, um contra-senso, já que – numa reductio ad infinitum, num regressum ad infinitum – acabaríamos precisando de uma causa inteligente primeira, sem que houvesse uma causa inteligente precedente, sem que houvesse causa inteligente anterior à mesma... ora, mas se todo efeito inteligente advém de uma causa inteligente anterior, toda inteligência teria de ser, necessariamente, produto de uma que lhe fosse anterior... o problema residiria no termo "anterior"... esta causa inteligente primeira viria de “antes” mesmo do tempo, porque ela – sendo causa primeira – sê-lo-ia também a causa do próprio tempo... ou seja, estaria fora do universo causal, não possuiria causa, mas seria causa... em melhor palavra, seria causa sem ser efeito, o que é extremamente difícil de explicar para seres que enxergam as coisas de forma causal e que – ao que parece – habitam um universo e uma dimensão causal...
FFF – É... mas, nada vem “antes” do tempo... porque “antes” já é tempo... (risos) “antes” já denota uma apreensão temporal, já nos dá a idéia de um tempo anterior ao tempo em que o próprio tempo teria sido criado... o termo criou “antes” do tempo nada mais faz que alocar esta nossa causa primeira (seja ela Deus, Inteligência Suprema que Coordena o Cosmos, Lei Universal Primeira, Energia Superior, ou qualquer outro rótulo que queiramos lhe dar, sem que a indumentária vocabular tenha nunca a pretensão de explicar o que seja, suas características e nuances, senão sendo uma escolha de quem pouco conhece sobre aquilo de que fala...) como causa que, por ser primeira, precede ao próprio tempo...
FF - Deve ser por isso que, na linguagem iniciática, os Gnósticos (e São João, apóstolo, o do Apocalipse, era...) chamavam-no de 'Eu Sou'... como Aquele que É, (que não foi, nem será...). Note-se que o verbo está – perenemente – no presente. Motor primeiro aristotélico?! "E o verbo se fez carne”... e não à toa hoje nos damos conta de alguma nuance da verdade por trás destas palavras... acaso todo o nosso universo não se revela lingüístico, informacional?! Ou uma cadeia cromossômica não é, nada mais, nada menos, que informação (genética)?! Há até quem diga - viagens à parte - que o nosso planeta (Gaia?!) gravaria informações, o desenrolar da história, o tempo... (egrégoras?!)
FFF - concordo, pois, que o verbo se fez carne, deixando essencialmente de ser verbo... tenho pensado que vida é a percepção de alteração no ritmo entrópico – um refrear da maré entrópica – que é traduzível como informação... vida é informação e tal qual energia, as formas de vida seriam intercambiáveis... talvez, um dia, consigamos transferir as informações (orgânicas e não-orgânicas) para uma outra estrutura, tal qual no filme “o Homem Bicentenário”... será?
FF - Li uma reportagem na revista "Carta Capital", falando exatamente disso: da possibilidade de criação de inteligência artificial. Pesquisadores como um Daniel Dennett (por vezes tão tresloucado quanto um Richard Dawkins, a querer fincar bandeira de fé ateísta, abdicando da isenção e do afastamento mínimo a que deve ter um homem de ciência, não misturando suas esferas de atuação...), ou um Francis Crick que apostou comer sua tese se a proposição que levantava estivesse errada (e estava – risos...), abrançando como artigo de fé sua própria teoria e não a possibilidade de encontrar uma visão mais precisa e depurada sobre o tema... bem, ele cria que o DNA fixasse a arquitetura do cérebro, ao passo que um Gerald Edelman o contraditaria com maestria, já tendo ganho o Nobel de Medicina exatamente frente às idéias de Crick. Vejamos: mais uma vez recaímos no velho jogo de palavras – o orgânico e o não-orgânico numa cadeia infinita (ou quase), se nos fosse possível regressar, teriam vindo de uma só substância, de uma só "coisa" (monismo?!)... então, descobrindo-se a chave, pode ser que consigamos – um dia – reduzindo tudo a uma unidade básica (talvez nem a menor ou a inicial nessa escala que originou todas as coisas), a ponto de que possamos transferir informações entre estruturas que tomamos como diferentes, embora sejam iguais (provindas de uma mesma unidade, de um ponto de convergência comum)... Heráclito já nos dizia: "Tudo é Um"... a querer nos referendar que todas as coisas estão – de fato – interligadas. E lembrar que a vida é fruto do sol, tudo o que temos hoje sendo mera diferenciação de algo primário que, a curto prazo (apenas alguns poucos bilhões de ano), teria vindo de uma unidade redutora de tudo... penso que a unidade redutora de tudo mais próxima de nós seria exatamente o sol (não à toa cultuado como divindade no seio dos mais diversos povos – e nalguns por este exato motivo – como nos lembra o documentário alemão “Zeitgeist” – “espírito do tempo”). Ora, a própria terra, o globo terrestre, foi, um dia, uma pequena fagulha que se desprendeu do sol. Pequena bola de barro... simples massa incandescente que, paulatinamente, foi se resfriando. Por diferenciação (Hélio, Hidrogênio, Carbono, Oxigênio, etc.) foi aos poucos produzindo em seu seio água, aminoácidos, vida (coacervados), seres anaeróbicos, plantas primitivas fotossintetizadoras, seres aeróbicos, etc. Enfim, há algo mais que o mero entedimento metafórico que fazemos da sabedoria oriental ou do que propagaram os filósofos pré-socráticos, ao dizerem: “somos filhos do sol” ou “tudo é um”! Isso dá um novo sentido ao "amai ao próximo como a ti mesmo", porque, de fato, - talvez - acabe sendo... (risos)... É meio louco pensar que homens a 600 anos antes de Cristo, ou bem mais que isto, poderiam estar incrivelmente certos... Newton diria "enxerguei longe porque me apoiei em ombros de gigantes", a referir-se não apenas aos físicos clássicos, mas também (como viria a denunciar depois) aos filósofos pré-socráticos...
FFF - este espanto de que como “os Heráclitos" conseguiram pensar há tanto tempo tão corretamente me reporta a uma reflexão... Reflita, caro amigo, sobre a seguinte questão: de quanta informação (neste caso com um sentido de dados) precisaríamos para que possamos tomar uma decisão corretamente? Ora, a cada momento se pode obter mais e mais dados sobre um dado processo, e assim podemos pensar que a cada momento poderíamos melhorar nossa capacidade de, acertardamente, opinar – com razoável grau de certeza. Mas, se não nos rendermos a esta conclusão (talvez apressada) podemos verificar que se o tempo é "infinito" à sua frente, teremos possibilidade também "infinita" de coletar novos dados, nos legando a nunca encontrarmos uma quantidade suficiente a secundar a solução precisa, sempre tendendo à perfeição, mas nunca capazes de atingi-la. Uma nova questão surge: o que é uma amostra dentro do infinito? Qual percentual uma amostra qualquer, por pequena ou colossal que seja, representa dentro do infinito? – Portanto, será que realmente precisamos tanto assim de dados para acertadamente pensar? Assim, é possível que tantos antes de nossa era cristã já tivessem pensamento tão evoluídos, mesmo não contando com os instrumentos fantásticos com os quais contamos agora?
FF - Já diria alguém mais sábio que "a simplicidade beira a perfeição"... e pensar em quantos bilhões de anos devem ter sido necessários para que passássemos de uma simples bactéria anaeróbica para um ser aeróbico... o trabalho de alguns seres resume-se apenas em respirar... este trabalho foi necessário para que, hoje, pudéssemos ter nossos corações batendo sem que precisássemos nos deter para tanto (simpático e parassimpático)... tudo isto se automatizou em nós, em nosso estágio... e para quê?! Para que pudéssemos pensar!!! Hoje, nos é requerido algo mais ousado que automatizarmo-nos em comportamentos físicos, mas automatizarmo-nos (interiorizarmos) o agir correto (o agir moral)... fico pensando se um Cristo, diante de uma encruzilhada moral, cogitava o infinito leque de opções que temos. Penso que não. Para ele era como respirar, automático (ele parecia não precisar cogitar as opções negativas – menos acertadas; ele parecia não precisar pensar o mal, apenas o correto), como parece ter feito ao dizer: "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"... se tivesse dito qualquer outra coisa, ou seria linchado pelos Judeus (que não queriam pagar impostos a Roma) ou seria preso pelos soldados (por incitar o não pagamento de impostos) Havia uma única resposta correta para a questão! E foi a que ele ofertou! Lembra-me Kant, quando, certa feita, soldados adentraram à sua sala de aula, procurando por um criminoso que por ali havia passado em fuga. Ocorre que o criminoso se instalara exatamente debaixo da mesa ed Kant. Os soldados inquiriram a todos os alunos, sem, no entanto, obter resposta satisfatória. Já de saída, um deles retorna e lembra de perguntar ao professor. Kant o entregou, sem titubear, dizendo a verdade... talvez a verdade aí não fosse exatamente a resposta correta... e, por fim, Kant teria repreendido ainda a todos os seus alunos, porque, quando foram inquiridos pelos soldados, mentiram, ao passo que ele, ao ser perguntado sobre a localização do criminoso, falou a verdade... como um amigo meu externou certa vez, ele bem que poderia ter dito: “eu não posso lhe dizer”, ou algo assim... e lembrar que seu imperativo categórico nos exorta: “o céu estrelado diante de mim [a nos reportar às leis universais], e a lei moral em mim [a falar de leis morais similares em nosso íntimo].” Sócrates, professando o “conhece-te a ti mesmo” do pórtico de Delfos, argumentava que, se a Divindade nos pôs mais próximos uns dos outros é que quer conheçamos uns aos outros antes de conhecermos às distantes estrelas (como propuseram os pré-socráticos, cada um com sua cosmologia peculiar), e, se nos pôs mais próximos de nós mesmos que de qualquer outra coisa, é que a nós mesmos devemos nos conhecer, antes de tudo o mais. Penso que, se é verdade originamo-nos todos de uma só coisa primária, as respostas para os mistérios do cosmos repousarão tanto no íntimo do homem como no de todas as coisas mais... “o microcosmo reproduzindo o macrocosmo”... vejamos: uma simples célula epitelial possui material genético para desenvolver todo um ser humano, todavia, ela só reproduz outras células epiteliais, mas resguarda em seu seio, o DNA da construção de todo um indivíduo... “a parte contém o todo, como o todo a contém”... Mais uma vez recaímos nos incríveis acertos desses gigantes, a que hoje nossa ciência, nossas ilações e nosso saber só referendam... só podem referendar...
Francisco de Sousa Vieira Filho
e
Flávio Furtado de Farias

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O CUPIM


O CUPIM


Tu, que só labutas com lei contingente
és tão-só espírito indigente
busca o saber absoluto
e não te cinjas mais de luto.

É difícil, extremamente difícil... mas não impossível. Todos os dias, vez ou outra, percebo-me como um animal enjaulado. Um leão enjaulado. Preso, cativo de seu lar, seu zoológico. Acostumado a ter rações à boca todos os dias, sem preocupação qualquer em matar para obter seu alimento. Isso até um dia ser solto, liberto dos grilhões que o limitavam e, indubitavelmente, o protegiam.
Todos os dias é esta a lição que nos é posta: a de precisar matar para sobreviver, a "lei da selva". Somos juristas?! Advogados?! "Estudantes de direito, por enquanto". Somos animais!!! — eles dizem. E, como aquele leão que, outrora preso, agora está livre, somos forçados a caçar, a lutar e, por que não, a matar para obter nosso sustento. E lá estamos nós, soltos na selva de pedra. Livres, mas escravos, por termos a terrível tarefa de matar pra sobreviver. Talvez uma analogia tola, talvez a lembrança de eras longínquas, talvez...
Mas há algo que nos corrói por dentro. Algo que nos faz pressentir qualquer coisa de podre na superfície do establishment. Há algo que não nos permite ver tal luta como certa, como justa. Bem dentro de nós, de todos ressalte-se; mesmo daqueles que fingem não ver, ou que vedam seus olhos para isso. É aquele estranho cupim que nos corrói o que há de podre, que limpa, mas que também nos faz sofrer, sobretudo se estamos muito ligados à sujeira que nos circunda, sobretudo se — ainda que inconscientemente — dela nos julgamos parte. Somos qual aquele leão. Soltos agora, mas guardando dentro de nós o mesmo olhar de fera, o mesmo instinto de sobrevivência, prontos para matar e para morrer.
E as vozes dos "mestres" ecoam — um profissional do direito precisa mentir. Precisa sempre passar a imagem de que sabe, ainda quando esteja inseguro por dentro. Um advogado deve fazer tudo, TUDO MESMO, para defender seu cliente, mesmo quando tenha a convicção íntima de que está errado. Ele nunca pode admitir estar errado, antes deve impor como certo aquilo que pensa, até que, por meio dessa persistência, possa mesmo o juiz mais sábio e culto crer estar ele certo.
É... mas há "mestres" e mestres. Ainda assim, "aqueles" persistem em nos dizer sermos qual leão sanguinário, qual um bárbaro medievo, estando nós ali passando por um rápido e simples treinamento pra guerra. E depois disso teremos o "direito" de usar lindas armaduras: togas, becas e ternos enfeitados com belas gravatas; empunharemos nossas pastas como maças ou espadas, prontas para esmagar e cortar o próximo. Cavalgaremos nossos corcéis de seus 30 mil reais ou mais, com ferraduras cromadas e tudo. — Ah, que saudade do zoológico! Que saudade de não ter aquele cupim a me corroer! O cupim só destrói o que é podre, só come o que não presta, só limpa o que é lixo. — Ai dos vermes que querem viver a roçar na lama que reside dentro de si e no meio circundante!
Você agora deve estar se perguntando — poxa, mas eu só quero ganhar meu dinheiro, constituir família, ter meu carro, ser feliz fazendo o que faço. Não há mal algum nisso — pensa convicto. Será possível ser feliz enquanto um irmão, um semelhante, um ser humano qual a ti e tantos mais, ao seu lado está infeliz? Será esta a felicidade que procura? É... talvez não haja mal algum nisso, talvez sua percepção do que seja mal esteja falha... talvez a minha. Talvez... Mas eu não posso mudar o mundo — você deve estar refletindo. Mas será que — como nos diria Edmund Burke —, por saber só poder fazer bem pouco, você não estaria deixando de fazer o que pode?! Algo íntimo deve estar filtrando agora aquilo que percebe como certo daquilo que vê como errado. Ao fim terá melhor noção. Perquira a si mesmo, pergunte à sua razão. Ela te dará melhor conclusão que esta.
Mas devemos dar graças. Devemos agradecer a todos os mestres — mesmo "àqueles". Agradeço a todos os mestres que por mim passaram, deixando as mais valiosas lições, seja por conhecerem-nas bem ou por ensinarem pela negativa, pela negação, sem ao menos perceber que lições ensinavam.
Ora, se a "lei da selva" a esta luta nos impele, há uma outra Lei... uma?! Outras... muitas outras!!! Leis que nos gritam ao pé ouvido; Leis que nos fazem ver o que há de podre, o que há de errado; Leis que nos dão o parâmetro e que nos guiam. Será preciso matar pra sobreviver? E você diz — não estou matando ninguém! "Será que não?" Ah, que saudades dos mestres! Não "daqueles"! Que saudades dos que só falavam do que sabiam, daqueles que vinham a esta terra somente dar testemunho da Verdade. Daqueles que vieram pra nos mostrar que, sim, é possível.
Ah, como queria ouvir agora a voz suave do mestre a dizer — Meus filhos, "no mundo encontrareis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. E ele não disse isso senão para nos mostrar que é possível; para nos mostrar Leis outras que não a "lei da selva". Leis eternas e imutáveis. Leis de Amor, de Verdade, de Justiça e outras tantas que ainda olvidamos. Ele bem sabia que era difícil. E sabia, e provou ser possível. É consolador saber que — como disseram os mestres da Verdade — um dia todos chegaremos lá — uns mais cedo, outros mais tarde. Um dia...
É... é difícil (seguir esta trilha estreita e cheia de perigos), extremamente difícil... mas não impossível.
Francisco de Sousa Vieira Filho

segunda-feira, 28 de abril de 2008

DIÁLOGO (?!) INUSITADO ENTRE O NIILISTA E O PALHAÇO COM O EXCLUÍDO POR PLATÉIA...

DIÁLOGO (?!) INUSITADO ENTRE O NIILISTA E O PALHAÇO COM O EXCLUÍDO POR PLATÉIA...
— Não há comunicação! — professa o niilista em seu púlpito ante o vazio.
Alguém estende a mão sem ser visto...
"Como então insistes em professar tal coisa, se nem isto (a ausência de comunicação) se poderia comunicar?!", refuta o palhaço.
Um mendigo geme a seu lado e clama.
— Nada pode ser conhecido! — reitera o niilista, indiferente mesmo às intervenções do pobre palhaço louco e à mão estendida do mendigo.
— E como julgas então conhecer tal coisa, e com tanta profundidade, conhecendo, e tão bem, o conhecimento de que nada pode ser conhecido?! — retrucou o palhaço entre risos estridentes...
— A verdade não existe! — grita o niilista em seu desespero, como se seu grito pudesse abafar o riso insano do palhaço.
Ouve-se como que um lamento vindo do chão...
— Isto certamente é uma mentira — reitera a jocosa criatura — já que, para ti, verdade nem existe mesmo. (risos)
“É um mito! Tudo é plural!”
— Se tudo é plural, porque insistes tanto em defender o niilismo e de uma forma tão pontual?
— Tolo, nada tem fundamento em coisa alguma! Nada se pode sustentar! Desespera-te! - esbravejou o niilista, pela primeira vez externando atentar para as intervenções do palhaço.
O mendigo, homem de meia-idade, imundo e tristonho, cai num pranto inaudito...
“Se nada tem fundamento...”, disse o palhaço a mal conter-se em gargalhada efusiva, “porque somente o niilismo por ti defendido o teria?!...”
— Tudo é relativo! — prossegue o discursante...
— Mesmo isto já é uma afirmação absoluta! — contesta o irônico refutador...
E antes, porém, que a fúria o dominasse e o niilista agredisse ao interlocutor infame que lhe obstava o discurso, acalmando o coração e respirando fundo, num acesso de sabedoria sem-par, ele calmamente diz: “devemos respeitar a opinião do outro.”
Neste instante, o palhaço chorou - dando-se conta daquele que entre prantos a seu lado estava e antes sequer via -, e professou:
“Devemos respeitar o outro!”
— O outro... o outro sequer existe... existimos nós... — finalizou o niilista.
Foi então que aquelas três insólitas e estranhas figuras do cenário descortinado se aproximaram. E se abraçaram o palhaço, o niilista e o mendigo, qual irmãos.
O niilista e o palhaço se acercaram do mendigo, seu próximo, cujo estômago ardia de fome.
Foi que lhe deram-lhe o tão ansiado pão. E pondo-se ao trabalho em favor do próximo, esqueceram, por fim, rusgas, filigranas e discussões inúteis... passando, somente então, à ação!

Francisco de Sousa Vieira Filho

sexta-feira, 25 de abril de 2008

NIETZSCHE TAMBÉM É RELIGIÃO


NIETZSCHE TAMBÉM É RELIGIÃO
Pensei que só eu visse isto... ergueram um pedestal para Nietzsche e tão alto que a crítica, seja ela justa ou não, séria ou deturpada, não o atinge. Nietzsche adorava destruir ídolos, fizeram-no um, e um do tipo invulnerável.

Há razões fundadas pra se criticar Nietzsche – discordância óbvia de idéias, sua fase irracionalista (se assim podemos nos expressar), etc. Há quem diga até que ele sequer seja um filósofo, pois não há justificação racional da grande maioria de suas idéias (ainda que muitas sejam evidentes, ou, quando muito, falem mais ao íntimo que ao intelecto). Dizem-no filodoxo (um amigo das opiniões), não um filósofo (um amigo do conhecimento), a maioria de suas obras sendo tão-só aforismática, atendo-se a máximas, frases desconexas de um conteúdo geral, meras opiniões emitidas sem fundamentação alguma, o que já seria uma crítica válida, embora aquela aqui levantada seja de ordem algo diversa.

Admiro-o, embora eu mesmo seja um crítico feroz dele, ou pelo menos – em maior monta – do modo quase que religioso com que o tomam, colocando-o num pedestal onde a crítica (seja ela séria ou não, justa ou injusta) nunca chega. Transformaram Nietzsche num dogma. Assim dizem seus prosélitos: "é porque você não tem olhos de ver, nem ouvidos de ouvir; não leu direito; não compreendeu". E terminam com o argumento 'altamente' racional: "Nietzsche é para poucos" – uma evasiva e um subterfúgio rasteiro pra quem não tem como contra-argumentar com um mínimo de razão.

Ora, Nietzsche encerrou em seu pensamento o maior dos sofismas: "sou para o futuro, sou para poucos, sou póstumo". Brilhante! Quem não o aprecie ou dele discorde, excluído já fica, como quem não o entendeu. Sim, colhi muito que me aproveitasse em seu pensamento, não nego admiro-o muito – e talvez por isso encontre lastro para criticá-lo (por que será que ninguém ousa usar os golpes do martelo de Nietzsche contra o próprio Nietzsche?!) Ora, tornar um autor avesso a todo e qualquer tipo de crítica, fazer de suas idéias um berço inatingível, como 'verdade pronta' (coisa contra a qual ele mesmo combatia), é – via de regra – o modo que o vejo sendo propagado. E isto, sim, é um desrespeito para com ele!

Nietzsche declarou a morte de Deus, e fizeram-no o próprio. Criticar Nietzsche, ainda que com razões dadas, é mexer num vespeiro, num artigo de fé, e o artigo de fé que ele se tornou chega a ser quase que do tipo 'fanática', inadmitindo críticas (ainda que devidas). Santo e perfeito, ele está erigindo-se qual um deus. Depois ainda há os que aventam da promessa de ressuscitá-lo como o Dionísio redivivo.

Das brilhantes defesas que de Nietzsche já ouvi, esta é impagável: "ou não leu, ou não entendeu", tornando-o, assim, avesso a toda e qualquer crítica. Sim, porque tivéssemos entendido com ele concordaríamos... risos... e cegamente! Religião para você é só instituição?! Nietzsche é – sem embargo de juízo de valor – adorado, idolatrado, iconizado (logo ele que combatia ícones) risos... e se o é, isto não pode ser, de todo, creditado apenas a seus "seguidores", mas a ele mesmo, fazendo apôr um sofisma bruto no teor de suas obras: "sou para o futuro, sou póstumo, sou para poucos." – “Não leu! Se leu, não entendeu!" – Ah, não é pra ler é pra estudar... e se se estuda, como inviabilizar a crítica?! Mas aí dizem que devemos nos desprender de nosso olhar crítico ao ler Nietzsche, nos privarmos daquilo que talvez seja a única defesa que temos para as meias-verdades, tolices com pretensão de aceitação o que já seria no mínimo uma piada. Se é para, diante da obra de Nietzsche, proceder assim... bem, só posso concluir que isto é fazer de Nietzsche religião. E ainda terminam por dizer que Nietzsche é para ser “sentido” e não “compreendido”.

Como diria uma amiga: "nunca tive medo de Nietzsche, mas sempre terei dos Nietzscheanos."

FRANCISCO DE SOUSA VIEIRA FILHO [1]

Também disponível em:
http://www.portalodia.com/jornal/pages/pdf_04-11-2007_6_
20071103145430.pdf




[1] Francisco de Sousa Vieira Filho é advogado em Teresina-PI, militando na área trabalhista, professor de Filosofia Jurídica e Criminologia (FAESF – Floriano-PI), especialista em Direito Constitucional e mestrando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa – UAL.

domingo, 20 de abril de 2008

VERDADE E OPINIÃO


VERDADE E OPINIÃO
Cada pessoa tem o direito de pensar como queira, mas, cotidianamente, cometemos o 'equívoco dos equívocos' ao dizermos "eu tenho minha verdade, você tem a sua, etc", alcunhando a nosso pensar (qualquer que seja ele) com o pomposo título de verdade.
Ora, podemos chamar de verdade aquilo que pensamos simplesmente porque pensamos assim ou assado?! Comportamo-nos como os "Pilatos do agora", que débil, maliciosa e tolamente, se perguntam: "mas o que é mesmo a verdade?!" E desdenhamos privemos de fundamento as entrelinhas desta mesma proposição: 'que não há verdade' – fazendo-se, ela mesma, igualmente uma mentira.
Acaso a verdade é decidida pela vontade da maioria, em assembléia?! O que é verdade depende de cada sociedade, grupo, religião?!
Houve época em que pensávamos que a Terra se postava no centro do universo e que o sol e demais planetas gravitavam em torno dela. Porventura por termos pensado isto e professado tais idéias como se se tratassem de verdades, elas assim se tornaram?! Foi a verdade sobre tal evento que mudou ou teríamos sido nós a mudarmos, percebendo que não era bem como anteriormente acreditávamos?!
Se eu tenho minha verdade, posso muito bem cambiá-la – como minha verdade que é (e faria do modo que bem me aprouvesse, já que é minha) – a que eu possa matar a todos os leitores deste texto por direito legítimo de uma verdade que é minha, ou ainda que possa ser o dono do mundo, já que, afinal, é minha verdade mesmo!
Como vemos, as pessoas confundem verdade com opinião (mera crença). Desde o Timeu platônico temos que verdade seria uma crença verdadeira justificada, ou seja, é uma crença com pretensões de validade fundada em sua justificação.
"Ah, toda a nossa realidade bem que pode ser mera ilusão", levanta-se alguém. – Sim, pode. Mas ela se torna isto pela simples hipótese que ora se levanta?!
Como sustenta Karl Popper, lançamos 'hipóteses' (opiniões, crenças) sobre as coisas do mundo, e elas são testadas em contraste com os fenômenos (modo como as coisas do mundo se nos apresentam). Não se sabemos se as coisas se nos mostram de fato como são. A estabilidade dos fenômenos, (repetitividade; experimentação) nos leva a crer haja igual estabilidade nos próprios objetos observados, sem que possamos dizer – com as condições de que dispomos no hoje – que os possamos conhecer em inteireza e plenitude, que possamos divisar a coisa-em-si dos objetos, sua essência. Mas conhecemos os fenômenos (modo como as coisas se apresentam a nossos sentidos), e há estabilidade nisso, pois há repetitividade em condições iguais (C.N.T.P.).
Ora, que possamos julgar que os fenômenos não são as coisas em si, e que conhecendo os fenômenos não conhecemos o 'ser das coisas', é fato. Podemos até dizer, com razoável grau de certeza, que os fenômenos talvez não passem de ilusão, mas eles são a nossa ilusão, e uma ilusão que demanda certa estabilidade, que nos permite conhecer (ainda que somente aos fenômenos e não à realidade em si).
Professar, por exemplo, que 'eu tenho a minha verdade; você, a sua' é solipsismo tolo e certo ranço das humanidades que tentam negar (e introjetar-se) aos fantásticos resultados das demais ciências, permitindo-nos mesmo possamos negá-las, de todo, sobretudo quando vemos isto ser feito por meio de programas de rádio e televisão, em conversas informais que eventualmente travemos com amigos através de telefones celulares ou ainda via internet, meios que nos desmentem com vigor.
Opinião, cada um tem a sua... Verdade, não!
FRANCISCO DE SOUSA VIEIRA FILHO.[1]
Também disponível em:
http://www.portalodia.com/jornal/pages/pdf_20-03-2008_6
_20080319214653.pdf (Verdade e Opinião)


[1] Francisco de Sousa Vieira Filho é advogado em Teresina-PI, militando na área trabalhista, professor de Filosofia Jurídica e Criminologia (FAESF – Floriano-PI), especialista em Direito Constitucional e mestrando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa – UAL.

sábado, 19 de abril de 2008

VERDADE ABSOLUTA



VERDADE ABSOLUTA
Na esteira de Aristóteles e Hegel, todo aquele que professa e sustenta o que quer que seja, in casu, por exemplo, o desconhecimento, ou mesmo a impossibilidade do conhecimento, a título extremo, nada mais faz que render, inolvidadamente, louros à Razão – como fundamento último de todas as coisas. Quem professa: "nada pode ser conhecido" ou "nada conhecemos em inteireza" (com os nossos sentidos de agora), parte do pressuposto velado de que temos um conhecimento tal da realidade que nos possibilite “saber que nada se pode saber”. Mesmo isto já seria um objeto de conhecimento. E, para o tremor das almas relativistas, um conhecimento absoluto!
Quando se professa, "tudo é relativo" nada mais se faz que uma afirmação absoluta! Quando se diz "não há possibilidade de comunicação; não há comunicação" é a tola pretensão contraditória querer comunicar tal coisa, já que comunicação inexistiria. O mesmo para a verdade, que se inexiste, aquele que isto afirma, estaria afirmando a verdade: que seria a de que verdade inexistiria.
Ao cético, diria Aristóteles, cabe apenas ficar calado, nada mais! Querer verbalizar, professar, transmitir algo, já parte do pressuposto de que uma racionalidade anterior te funda, te propicia fazê-lo: que a razão fundamenta seja plausível professar, mesmo aquela tese negativista – a mais das vezes – a refletir a simples e tola revolta adolescente da humanidade em seu atual estágio.
Que, como diria Edgar Morin, naveguemos ‘entre arquipélagos de certeza em meio a oceanos de incertezas’, é uma coisa. Por haver incerteza, não podemos – NUNCA – pressupor apressadamente (e sem fundamento, diga-se) tudo seja incerteza, tudo seja desconhecimento. Doutro modo: estaríamos conhecendo – E MUITO BEM – que não há conhecimento!
Tais afirmações possuem o vigor tão passional quanto o das religiões, traduzem-se nas novas religiões do hoje, religiões do desespero, religiões negativistas, como a de um Richard Dawkins, contraditórias de per si. O ateísmo, ele também, parece ser só mais uma profissão de fé, já que os que o abraçam sustentam, apaixonadamente, e com vigor de fé, aquilo que não podem provar: que Deus não exista. Ou acaso a fé dirigida num sentido negativo (inexistência) não é fé, qual também é, aquela focada num aspecto positivo (existência)?!
E não em venham com essa de que o ônus da prova é de quem professa, pois sequer estamos num tribunal e a maior piada que eu poderia ouvir seria esta: de que houvesse uma lei cósmica a dizer, “o ônus é de quem professa”. E mesmo que assim fosse, em que se traduzia o argumento contrário que não a profissão – ela também –, mas, in casu, da inexistência de Deus?!
FRANCISCO DE SOUSA VIEIRA FILHO [1]
Também disponível em:
http://www.portalodia.com/jornal/pages/pdf_04-12-2007_6
_20071203223943.pdf



[1] Francisco de Sousa Vieira Filho é advogado em Teresina-PI, militando na área trabalhista, professor de Filosofia Jurídica e Criminologia (FAESF – Floriano-PI), especialista em Direito Constitucional e mestrando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa – UAL.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

DE ONDE VEIO A INTELIGÊNCIA

DE ONDE VEIO A INTELIGÊNCIA
De onde veio a inteligência?! – Do pé!!! Por absurda que possa ser a afirmação, creio seja isto. Da Vinci já diria que o pé é a maior obra de engenharia da natureza.
Reportagem de Julho de 2006 da Revista “National Geographic” (p. 109 e segs.) nos reporta ao fato de que teria sido a modificação de nossos pés – antes similares às mãos, como nos demais primatas – que permitiu passássemos a andar de modo ereto, poupando, assim, considerável quantidade de energia antes utilizada na locomoção, energia esta necessária a garantir o aumento de nossos cérebros, os quais foram nutridos com a sobra deste excedente. Teria sido isto também o que deixou livre o uso das mãos, tornando-as passíveis de não terem sofrido a mesma diferenciação em relação aos pés, agora adaptados à locomoção.
Dessa possibilidade do uso das mãos, o surgimento do polegar opositor, permitindo o movimento de pinça com os dedos, associada a um cérebro mais adequado, propício ao desenvolvimento da razão, é que surgiram as ferramentas, e então o homem passou a modificar sua realidade externa, não mais como um animal, mas como um ser coroado com a razão, desperto para a diferença que há entre si e tudo o que o rodeia, consciente de sua individualidade. Mas a que preço?
Fôssemos proceder a uma leitura mais simplória e cotidiana da “lei de conservação”, compreenderíamos que nada se pode criar do nada, ou melhor, que para se conseguir algo de valor deve-se ofertar algo de valor similar. Troca equivalente?! – Talvez – Mas, nestes termos, quem teria pago o mais alto preço evolutivo seriam as mulheres: o andar ereto e a perda da coluna curva, tornaram ao parto o processo doloroso que é.
Viagens à parte, não podemos também categoricamente dizer que foi o uso das mãos que nos conferiu racionalidade, antes, mais fácil crer, que a racionalidade foi necessária para que, utilizando-nos das mãos como instrumental, pudéssemos modificar a realidade exterior – embora eu mesmo pense seja uma via de mão dupla: a experiência com o uso das mãos ofertando-nos o paulatino despertar da razão, ao passo que, quanto mais "espertos" ficávamos, melhor uso das mãos fazíamos, ou seja, produzíamos obras mais precisas, úteis, delicadas, artísticas, etc. A atuação conjunta de ambos os fatores foi necessária. Acostumamo-nos a respostas simples e o complexo – ainda que mais evidente – parece ser algo difícil de aceitar.
FRANCISCO DE SOUSA VIEIRA FILHO [1]
Também disponível em:
http://www.portalodia.com/jornal/pages/pdf_05-01-2008_6
_20080104220153.pdf



[1] Francisco de Sousa Vieira Filho é advogado em Teresina-PI, militando na área trabalhista, professor de Filosofia Jurídica e Criminologia (FAESF – Floriano-PI), especialista em Direito Constitucional e mestrando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa – UAL.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

EDUCAÇÃO E CORRUPÇÃO: ENTRE O ESPANTO E A INDIGNAÇÃO

EDUCAÇÃO E CORRUPÇÃO: ENTRE O ESPANTO E A INDIGNAÇÃO

Fico abismado quando ouço comentários, seja na TV ou no mesmo dia-a-dia, transitando por todos os lugares, aqui e acolá, de pessoas que se dizem “espantadas” com a roubalheira de políticos, com a corrupção e a venalidade de juízes ou mesmo com a venda de atestados por médicos ou ainda com o mascaramento de suas imperícias, atuando em áreas em que não possuem especialidade alguma, etc.
Vejamos, há quem diga – creio, se a memória não me falha, tenha sido Paulo Coelho, no que, a despeito de quem seja, peço já licença pela menção – que uma traição é um golpe que não se esperava. E que se não se esperava, foi tanto mais um erro de quem desconhecia a natureza de quem traiu do que – de fato – de quem propriamente traiu.
Nossa "educação" não educa moralmente, isto é um fato. Nossa “educação”, a educação brasileira em geral, se resume – claudicante, diga-se – a uma educação que intelectualiza, mas não moraliza. Foca, por vezes tão-somente, o conhecimento lógico-matemático e o mero exercício mnemônico, nada mais. Pois bem, diante deste quadro, como então nos espantarmos com algo que seria mais que previsível?! Devemos nos indignar?! Sem dúvida! O espanto seria passar atestado de tolo.
A "educação" que o mercado prioriza (e a quem a academia tem sido servil) visa a intelectualização. E grandes intelectuais podem muito bem serem grandes criminosos, nada obsta, quer falemos disto como pendor inato ou não, fruto da influência do meio ou não, o que já seriam outras questões. Nossa educação não prepara os educandos para a convivência social, apenas instruindo, intelectualizando... Quem aqui já ouviu falar de aferição moral de um juiz ou político para assumirem tais cargos? No máximo sua ficha criminal deve estar "limpa", sendo certo que, os "melhores" (mais hábeis) criminosos permanecem sempre com sua ficha limpa. Mas, certamente, se quer saber se ele é capaz – sob o prisma intelectual – para administrar o erário ou se tem conhecimento suficiente das leis para julgar, muito embora possa muito bem fazer uso destes conhecimentos (intelectuais) para burlar o sistema.
Ora, desbanalizar o banal, para usar a feliz expressão do prof. Paulo Ghiraldelli Jr., tratar todos os temas como dignos de abordagem filosófica (filosofar sobre tudo) parece ser mesmo o mote da Filosofia. Agora, espantar-se com algo que, pelo próprio curso das coisas, seria de se esperar, é não enxergar um palmo além do próprio nariz.
É... parece que o Sócrates de Platão tinha razão: filosofar é inútil e o homem justo também o é. Filosofar e ser justo não possuem utilidade alguma, porque são categorias que não se subsumem aos lindes estreitos do utilitarismo (senão por sua supra-utilidade: a formação integral e progressiva do homem), eis que, quando se precisa de políticos quer-se bons administradores; de médicos, pessoas tarimbadas no exercício da medicina; um juiz, aquele que passe com as melhores notas numa prova que equaciona – tão-somente – sua inteligência lógico-matemática, sua capacidade mnemônica e seu talento argumentativo, não o seu caráter. Nunca se pensa, eu quero um médico moralmente correto, um juiz equânime, ou um político honesto.
Diante disto, como, então, nos espantarmos se eles se tornarem criminosos?! Se não nos preocupamos em lhes fornecer (ou ao menos exigir) uma base moral qualquer.
Indignarmo-nos, sem dúvida, nos espantarmos, não!
FRANCISCO DE SOUSA VIEIRA FILHO[1]
Também disponível em:
http://www.portalodia.com/jornal/pages/pdf_14-03-2008_6
_20080314095707.pdf (Espanto x Indignação)




[1] Francisco de Sousa Vieira Filho é advogado em Teresina-PI, militando na área trabalhista, professor de Filosofia Jurídica e Criminologia (FAESF – Floriano-PI), especialista em Direito Constitucional e mestrando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa – UAL.

terça-feira, 15 de abril de 2008

SOBRE TENDENCIOSIDADE

SOBRE TENDENCIOSIDADE
Quanto a este ponto, antes mesmo de explanar coisa qualquer, eu pergunto: quantos livros, revistas, artigos de jornal, opiniões e teorias vocês já leram em que o objetivo não tenha sido convencer daquilo que ali se professava?! - NENHUM! - Quantas leituras já encontraram na vida que não precisassem passar pelo crivo de sua crítica pessoal, sob o risco de engolir equívocos e meias-verdades como se de algo de senso se tratasse?! - NENHUMA! - Quantas obras tiveram acesso a que se vissem obrigados, pela força da evidência, a aceitar e abraçar como verdade inconteste tudo o que nelas continha?! - NENHUMA! - Ou será que não houve porção de TODAS AS QUE JÁ LERAM NA VIDA INTEIRA que julgassem pouco atinente ao senso ou que não parecesse a vocês de total solidez a ponto de abraçarem-na na íntegra?! – eu respondo: TODAS!
Difícil é haver concordância plena entre as idéias de dois seres humanos, que se dirá de não primarem pelo convencimento um do outro, quanto àquilo que sinceramente cada um julga estar certo.
Certa vez, encontrei com um amigo muito religioso (no sentido institucional do termo, de abraçar a uma religião institucionalizada e de forma total), o qual, percebendo "os rumos que andei tomando", tentava "conseguir-me a salvação". No começo fiquei irado. Discutimos muito. Mas o que pude perceber pouco depois, à medida que a conversa prosseguia, foi que aquilo era motivado por um desejo sincero de, segundo a sua visão e perspectiva, querer o bem de um amigo, de alguém a quem prezava e a quem queria o melhor – ainda que o melhor segundo sua concepção de melhor.
O que pergunto de verdade (sim, porque às demais perguntas acima pus respostas prontas talvez para atiçar) é o seguinte:
É POSSÍVEL ENCONTRAR SINCERIDADE E DESPRENDIMENTO NUM LIVRO, NUMA OBRA QUALQUER, NUM ARTIGO (AINDA QUE CIENTÍFICO), NUM DIÁLOGO ENTRE DUAS PESSOAS, OU HÁ SEMPRE NISSO UMA TENTATIVA DE CONVENCIMENTO VELADA - AINDA QUE (POR VEZES) MOVIDA PELO SINCERO DESEJO DE DESPERTAR O OUTRO PARA UMA VISÃO QUE JULGA BOA, PROMISSORA, MAIS AMPLA, MAIS ABERTA, MELHOR – MESMO QUE SEGUNDO O JULGAMENTO DE QUEM A FAÇA? E AINDA SE – NESTE CONTEXTO – PODEMOS CONDENAR LIVRO, OBRA OU AMIGO QUE NOS QUEIRA CONVENCER, QUANDO DAQUILO QUE NOS QUER CONVENCER É – SEGUNDO VEJA – PARA O NOSSO BEM?
Como diria um amigo meu, os livros de matemática são os mais tendenciosos do mundo, a simples discordância já faz pressupor daquele que discorda – de antemão – esteja errado, equivocado.
Pensemos.
FRANCISCO DE SOUSA VIEIRA FILHO [1]



[1] Francisco de Sousa Vieira Filho é advogado em Teresina-PI, militando principalmente na área trabalhista, professor de Filosofia Jurídica e Criminologia (FAESF – Floriano-PI), especialista em Direito Constitucional e mestrando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa – UAL.
Também disponível em:
http://www.portalodia.com/jornal/pages/pdf_26-12-2007_6
_20071225193526.pdf

P.S.: esta também não deixa de ser uma proposta tendenciosa; aquele que administra este blog, ao postar textos em sentidos tais ou quais, indubitavelmente também espera algo de você... Então cuidado:
ora et lavore...

O MISTÉRIO DA VIDA

O MISTÉRIO DA VIDA
O que é vida para que julguemos 'quando ela inicie' (fecundação, nidação, etc.), como acabe (experiências de quase-morte, ressuscitamento, reanimação), se é que temos elementos para dizer que realmente acaba?!
Uma proposição expressa por Lavoisier, assim nos exorta: “na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
É algo para pensarmos mais detidamente.
Ainda hoje a nossa Ciência reluta entre admitir ou não a “vida” de um simples vírus, ora por não ter autonomia reprodutiva independente do ser ‘de que seja hóspede’, ora por não possuir – via de regra – mais que uma simples cadeia de RNA, entre outras justificativas mais neste sentido. E tal entendimento tende a persistir, muito embora este simplório ser, supostamente ‘não vivo’, seja extremamente eficaz em destruir a complexidade da vida que rema contra a maré entrópica, a fazer com que tudo descambe de um estado de maior complexidade para um de menor complexidade, o que nos faz parecer seja a fronteira que prediz um determinado nível de complexidade como sendo vida (como soubéssemos, com precisão, catalogá-lo como tal), nada mais seja que um simples rótulo e não um conhecimento preciso da realidade.
Não poucos são os debates de cunho científico, moral, religioso e político que tentam perscrutar o início da vida em questões como o aborto. E tal estado de coisas tende a continuar inconcluso, diante dos nossos conhecimentos de até então.
E a despeito de que sequer saibamos o que seja a vida, julgamos não havê-la em outros orbes de nosso sistema solar ou quaisquer outros em meio à vastidão do cosmos infinito, simplesmente, por não terem condições semelhantes às de nosso planeta (por não ser vida similar àquela em que encontramos em nossa Terra). Ou por — mesmo usando poderosas lentes — nada conseguirmos ver. Acaso a vida se resume e se faz afeita tão-somente àquilo que podemos ver?! Assim temos sido forçados a pensar ou nos tem parecido mais conveniente. Mesmo os poderosos equipamentos e recursos que captam diversos espectros visuais vão pouco além do ultravioleta e pouco aquém do infravermelho, há os que alcancem raios-X, vá lá, mas não abraçam o vário plano de visibilidade, ou seja: não vêem tudo o que há! E que conclusão podemos tirar disto?! Que só consideramos vida aquela que for similar à que conhecemos — se é que conhecemos por inteiro mesmo aquela que se instala neste plano visual delimitado em que nos encontramos. Acaso existe impedimento de que haja outras formas diversas daquelas que normalmente confrontamos? (alguma não baseada em carbono, por exemplo). Olvidarão nossos ilustres cientistas que, ignorando o que seja a vida, igualmente ignoramos as condições, os modos, os meios em que ela se dá?! Esquecerão também quão pequeno e estreito é o limite da faixa de freqüência visual dos homens desta terra?! Assim sendo, muita coisa há que não vemos e — por não sabermos o que é vida — desconsideramos que, dentre as muitas coisas que não vemos, vida pode haver – numa conformação diversa da nossa que seja.
Plagiando Fernando Pessoa, arremataríamos com o seu dizer: "a vida é uma estrada; a morte, uma curva. Morrer é só não ser mais visto."
Francisco de Sousa Vieira Filho.[1]
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http://www.portalodia.com/jornal/pages/pdf_15-11-2007_6
_20071115171637.pdf




[1] Francisco de Sousa Vieira Filho é advogado em Teresina-PI, militando principalmente na área trabalhista, professor de Filosofia Jurídica e Criminologia (FAESF – Floriano-PI), especialista em Direito Constitucional e mestrando em Direito pela Universidade Autônoma de Lisboa – UAL.