sábado, 6 de março de 2010
O SOPRO
O SOPRO
A Gabriel García Márquez
Cem anos eu passara conjurando
Fios, teias, mil lamentos
Arrefecendo o peito e cambiando
A toda sorte de tormentos
E cem outros tantos permutando
O fio frágil de mementos
Qual se o viver fosse enlutando
Em tais vis pensamentos
Quisera então que transmutando
Fosse em esquecimentos
Pudesse a memória ir embotando
Nestes débeis linimentos
Se uma tal dor fosse eu matando
Se com tais procedimentos
E um derradeiro laço seu atando
Ao último dos sofrimentos
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 31.
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quinta-feira, 4 de março de 2010
SONETOS À [IN]FINITUDE DO ENTE E DA ESSÊNCIA
VIDA, EFÊMERA VELA?!
VELA, EFÊMERA VIDA!!
I
Todos os dias eu a vejo queimar
Tranqüila qual a mansidão do mar
Mas, em tempestade, também grita
Por supor que um dia findará aflita
E quem dela vê os detalhes amiúde
Bem sabe, longe repousa a quietude
Seu cerne, o cordão neural, queima
A cera que o reveste derrete, teima
Será a vida qual efêmera vela?
Tola indagação que a razão insulta?
Ou triste a realidade que revela?
Se abismal é a analogia vela-vida
E dialética tal aproximação inculta
Pouco se terá perdido nesta lida.
Francisco de Sousa Vieira Filho
TRAJETÓRIA D'ALMA
A Vida se esvai qual água por entre os dedos
E como a água Ela também não se finda
Somente transmuta, escorre e escapa ainda
Que estejam colados os dedos qual sê-los
E é do tabernáculo das mãos em concha
Que Ela foge e escorre por outros lugares
Peregrina em distantes terras esta monja
Para encarcerar-se então em outros lares
Se é só ao fim da longa trilha da evolução
Que se perfaz concreta tão maior unidade
Entoa o maestro os gestos finais da canção
Quando a gota adentra ao oceano em União
É que terá real noção de que seja Verdade
Francisco de Sousa Vieira Filho
SUBLIME CLARIDADE
Clamamos à mais alta Claridade
Que nos lance derradeiro estertor
Se nos descortine toda a Verdade
Pela força e fé no Supremo Amor
Que Saibamos ser mais que húmus
O Fulgor que jaz em cada homem
Sendo a Centelha mais que fumus
Mais que dor pela qual nos tomem
Até a simples réstia que faça jorrar
Do alto da Montanha, lá da Crista
É-nos imensa fonte e infinito mar
Ensina-nos a palmilhar a tua Pista
Encerrada no tênue brilho do olhar
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. pp. 49, 57, 60.
ARTE: http://www.qualified-lifecoach.com/images/1DeviantArt.jpg
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quarta-feira, 3 de março de 2010
DA DOR DE AGORA
DA DOR DE AGORA
Quero chorar e não tenho lágrimas
Não, não as possuo mais! Não mais!
É que as quero todas nessa alegria que tenho
E, por malfadadas palavras, buscá-las venho
Qual o queimar da chama sem o crepitar do lenho
Ah! Quantas dores terão secado meu cais!
Algumas ainda ecoam nestes meus tristes ais.
Passei agora (para muitos) o limite do crível
E mesmo que esse meu falar seja punível
Ainda assim, jamais eu iria recuar
Deixai então meu íntimo chorar
A dor da Felicidade [ainda] inexeqüível.
A dor da Felicidade [ainda] inexeqüível.
Francisco de Sousa Vieira Filho.
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 20.
terça-feira, 2 de março de 2010
SUPREMO TRIBUNAL
SUPREMO TRIBUNAL
Quem és tu???
Quem és tu, que chegas manso
E logo nos engendras ranço?
Tu, que por vezes trazes
A paz acolhedora do ninho ,
Em outras tantas pareces
O algoz dragão-moinho !
Tu, sempre nos guia e direciona ,
Mas há dias em que nossa paz também tenciona .
De há muito que te persigo ...
És como a luz que ao horizonte fito...
Também és, para mim, sinal de perigo ,
Vendo-te, assim, de ti corro aflito
E sequer posso afastar-te com meu grito .
Por vezes és juiz
E lança-me à face tudo o que fiz .
Em outras, sendo algoz ,
Fere-me com seu grito feroz .
Também és manso regaço,
Quando coisas Certas faço.
Certas coisas Certas ,
Que se me nego,
Abrem-me os olhos de cego
E ferem-me como setas ,
Bem agudas decerto,
Para que longe eu fique do deserto.
Supremo Tribunal da Consciência,
Que nos ensina a Lei da Boa-Vivência,
Oh, Supremo Tribunal,
Cuja Justiça Absoluta é o fanal,
Guia-me com teu canto ,
Para que eu não caia em pranto ,
Num triste canto,
Ao final.
Ao final.
Francisco de Sousa Vieira Filho
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segunda-feira, 1 de março de 2010
ANJO DE MIM
ANJO DE MIM
Quando o anjo cândido se distou de mim
Qual se sua simples ida me houvesse privado
Da própria vida, o frágil coração dilacerado
A dizer-me: tempo faz que ando triste assim...
Sem a doce palavra que minha’alma alimenta
O suave fragor de tão ansiosa tormenta
De envolvê-la, o corpo frágil, em meus abraços
Tão poucas vezes, quão fugazes os percalços
Sem o perfumoso aroma de sua pele nua
Que de cálidos sonhos povoa a alma inculta
Faz sofrer de querê-la e de querê-la inda não posso
Que por mais extenuantes sejam meus esforços
Não consegue mais calar ao peito a dor pungente
Tampouco, subjugar-me a alma inerte e sofredora
Que só peço a Deus que tão logo me socorra
Possa eu provar de novo uma tão desejosa companhia
E acalentar-me em seus alentos, na sequiosa porfia
De pousar a sofrida cabeça uma vez ainda
Em seu cálido seio acolhedor
Em seu cálido seio acolhedor
Francisco de Sousa Vieira Filho.
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 12.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
PÃO
PÃO
Como que criado em suplício
Dor e vazio se lhe consomem
Luta severa e sem armistício
De cujo saciar não há indício
O que se denomina o homem
É o que se o define de início
E arde em ânsia e em desejo
Por tudo o quanto lhe rodeie
E de paz em si não há ensejo
Nem bálsamo que a isto freie
No que é mais seu, a natureza,
Sem que se possa dizer ilidem
A porção de sua torpe baixeza
Ao Ente que lhe cedeu beleza
Marcou para que a si lapidem
As criaturas e por tal sutileza
As criaturas e por tal sutileza
É como segue o ente humano
Que tudo quer e a tudo busca
Na proporção de um oceano
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 25.
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
POEMETOS DA HORA DERRADEIRA
EQUILÍBRIO
Sob a égide do medo,
Se deixa de viver;
Quem vive sem prudência,
Por certo,
[igual pecado]
Logo há de fenecer.
Equilíbrio delicado
Desperto
Como se tal ciência
Revelasse o que há de ser.
Francisco de Sousa Vieira Filho.
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REDENÇÃO
A aceitação do erro,
Da falibilidade humana,
É o que nos absolve...
Cativeiro semicerro
Que aos incautos engana,
Quando então nos volve,
É a santidade distante,
O irrealizável guante
Imposto por não-santos,
[Como nós]
A despeito sejam tantos,
[Também sós!]
O que mais ainda lhes condena
E só lhes assoma a pena.
Francisco de Sousa Vieira Filho.
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ARTE: http://data.tumblr.com/0ZEBnoQrc67dkc24ZvySUokC_400.jpg
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O SEGREDO DO ABISMO
E pelas vagas seguirei inconformado,
Negando-me até o menor linimento,
Se me oculta o rumo, o firmamento.
Tão certo quanto a amplidão do mar,
Se é vivendo que se aprende a viver,
Que por certo é imprescindível crer.
Preciso se faz beirar o tredo abismo
E saber menos dista o distante cume
De um tal lugar, sem qualquer lume
Num tal buraco que não tenha fundo
Que se saiba ser inútil se desesperar
Que isto não é nunca o fim do mundo
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p.11..
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
VENDETTA
VENDETTA
(a Felicidade de Goethe e a dor de Ihering)
I
Não chores por ter sido tu
Por outrem, calcado aos pés
Outro dia ainda nasceste nu
E isso não te foi por revés
Os que julgam fazer-te o mal
Não angariam sequer vinténs
Do maior bem celestial
Lutando por tesouros desta terra
E bem longe do Tesouro jazem
Se em todo mal que perfazem
Tamanha tristeza encerra
II
É com o esvoaçar das pétalas da rosa
Que se percebe ali todos os males
Não estando enxertos na fibra aquosa
De que nos falava um certo Tales
Sendo a vida a doce infância
Desses seres de essência imortal
Encerrada num corpo simial
Desperta, ó criança, sem temor:
Nasceste pra saber que um dia perderás
Tudo a que nesta vida te apegas e dás valor
E o Tesouro da Verdade cultivarás
Sem de novo sentir fome, frio ou dor
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p.17 e 18.
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PLURISSIGNIFICAÇÕES PLURISSIGNIFICANTES
PLURISSIGNIFICAÇÕES
PLURISSIGNIFICANTES
A Ludwig Wittgenstein
Faz escorrer nos escombros destes cinzéis
O que pareceria seja morta a muda língua
No borbulhar de tinta bruta, os mil pincéis
De uns cem mil signos plurissignificantes
Num entorno louco de verborragia frágil
E já nem se diga o que é que fora dantes
Molda em pedra o cárcere pedregoso chão
E faz com que do espelho na parede eflua
De tais palavras, inda que a menor noção
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p.69.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
ESPELHO
ESPELHO
Não é com desdenhoso pouco espanto
Que se constata a distorção do espaço
Raro se desfigurar o rosto a cada passo
Subcutâneo nervo, alma e cada canto
A constatar com que natural desvelo
Náusea, ânsia, choque, fúria e pesadelo
De chofre, é que nos mostram o quanto
Em frágil e débil andor de barro, o santo
Na abissal ignorância é que se compraz
Infantil joguete de um infértil nomos
Fruto do quanto o ego dominus loquaz
Faz diversa a tosca imagem do que somos
Que se brada a altivez do espelho canho
Se refestela’lma na putridão de antanho
Francisco de Sousa Vieira Filho
* "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido." (I Coríntios 13:12)
** "Ver Tambem: SOBRE TENDENCIOSIDADE - http://dialogospoeticosimello.blogspot.com/2010/02/sobre-tendenciosidade.html
** "Ver Tambem: SOBRE TENDENCIOSIDADE - http://dialogospoeticosimello.blogspot.com/2010/02/sobre-tendenciosidade.html
ARTE 1: Capa do CD - Imaginations from The Other Side, da banda Alemã Blind Guardian
ARTE 2: Luiz Royo
ARTE 2: Luiz Royo
O PROFETA
O PROFETA
A Goethe
Cabelos esvoaçantes feito sarças
Espalhado, como elas, pelo vento
Está ele a todo tempo pelas praças
Apregoando e sempre o bom alento
E impostando a voz que o nó desata
Dos tormentos e das dores e das chagas
Os pobres e os humildes vindo à cata
Ele chama pra bem longe dessas pragas
Sabendo que pra esse fim nasceu de novo
Com a Verdade com que foi presenteado
É com Ela que há de ser também seu povo
Pras dores desta lida tem sido amortizado
Pois como é para a ave, a casca do ovo,
O sofrimento é para o sábio aprendizadoFONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 19.
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domingo, 21 de fevereiro de 2010
RESSUSCITANDO OS INAUDITOS
MEIO ASSIM...
Me sinto meio assim
Quando te dói em mim
Que sou teu meio-tudo
Se fico meio-mudo,
Tu falas por mim
Que sou teu meio-pai
E teu meio-amigo
Um meio teu irmão
E também inteiro-amante
Teu servo, meio-cão
Aonde for te sigo
E nesse meio estou
Um meio que teu filho
Por fim, se nessa arte
Exato meio eu sou
És tu aquela parte
Daquilo que me vou
Francisco de Sousa Vieira Filho
DESEJOS
Só um desejo oculto por vez
É que se revela
Por menor o toque, em tua tez
Tão alva e bela
O de querer te abrir a mente
Ou te escancarar as pernas
De um ou outro se pressente:
No negrume de cavernas,
Um se aterra e se oculta;
No alçar vôo e içar velas,
Outro assoma e avulta;
Por ambos
Em ti mergulho
Descambos
De meu orgulho
Um é sol
E o outro é lua
O crisol
E a fome tua
Se um vem, o outro se ia
Também morre e o outro vai
Mata a fome e se sacia
Estertor de um simples ai
De quem assim sente
E a si sente
Em eterno ciclo
E constantemente
E se em ti florir
Eu quereria
Florir-te-ei
Florir-te-ia
Francisco de Sousa Vieira Filho
Me sinto meio assim
Quando te dói em mim
Que sou teu meio-tudo
Se fico meio-mudo,
Tu falas por mim
Que sou teu meio-pai
E teu meio-amigo
Um meio teu irmão
E também inteiro-amante
Teu servo, meio-cão
Aonde for te sigo
E nesse meio estou
Um meio que teu filho
Por fim, se nessa arte
Exato meio eu sou
És tu aquela parte
Daquilo que me vou
Francisco de Sousa Vieira Filho
DESEJOS
Só um desejo oculto por vez
É que se revela
Por menor o toque, em tua tez
Tão alva e bela
O de querer te abrir a mente
Ou te escancarar as pernas
De um ou outro se pressente:
No negrume de cavernas,
Um se aterra e se oculta;
No alçar vôo e içar velas,
Outro assoma e avulta;
Por ambos
Em ti mergulho
Descambos
De meu orgulho
Um é sol
E o outro é lua
O crisol
E a fome tua
Se um vem, o outro se ia
Também morre e o outro vai
Mata a fome e se sacia
Estertor de um simples ai
De quem assim sente
E a si sente
Em eterno ciclo
E constantemente
E se em ti florir
Eu quereria
Florir-te-ei
Florir-te-ia
Francisco de Sousa Vieira Filho
CORPUS CIRCENSIS
Para o amor, eu hei perdido o tato.
Que na peça da vida então me resta,
Se é só o encenar de um simples ato?
Deixar de a tudo antever pela fresta
É como melhor posso resumir o fato.
Se me basta, só, o ardor das meninas,
Adejo pra bem longe todo o fino trato
E me atraco feroz em suas ancas ferinas.
Francisco de Sousa Vieira Filho
ÂNSIA
Fome de ti
Sede de ti
Brilham no olhar
Dançam nas lágrimas
Escorrem nas páginas
E mesmo antes
De o solo tocar
Morrem
Ainda no ar
Francisco de Sousa Vieira Filho
ÚLTIMO LANCE
Lancei na tela cinza destes dias
Antes fosse fúria, antes desespero
Tão fartas cores e com tal esmero
O que pensei que só tu poderias
E a divisar sob essa leve cortina,
O que pra bem longe dessa sina
Quero espraiar tudo o que de bom
E fazer ecoar minha voz, o som
E o que de mais puro e belo há
Em mim, em ti se faça o atiçar
Como se um talhe do teu beijo
Aquele derradeiro, que deixou
Rasgue novamente o que ficou
Francisco de Sousa Vieira Filho
DIRETA
Ah, se essa dor de não te ter
Transladasse o espesso vão que há
Entre a vontade e o agir, a se fazer
Como se coisa real em seu lugar
A mais do que com os olhos entreter
[Tocar, cheirar, beijar, morder]
Pusesse então diante a me mostrar
O fulgor que habita neles, bem-querer
Estrangulando esse desejo de sumir
E em si fazendo novo o velho ar
Viria a uma vez mais te consumir
O que persiste em mim, a ti arder
Vontade de assim poder te amar
E só então nos poderemos possuir
Francisco de Sousa Vieira Filho
FOSSO
De explorar a geografia branca
Algo recurva de teu dorso
E nas tênues covas de tua anca
Demorar-me, resoluto
E tal seja o esforço
Sei que sentes
Quanto luto
Se entre dentes
Com uma rosa afagar-te
O rosto
É a ânsia de assim amar-te
Qual um corso
Porque amar
Ah... amar é fosso!
Francisco de Sousa Vieira Filho
SENTIDO
Das metas tuas, só metades
Se a ti eu peço: traga tudo
É que, por certo, eu trago tudo
Em borrifadas muito fartas
De nuvens extáticas de sonhos
E em longos e massivos haustos
Seguimos desatinando os nós
E por fim desafogamos sós
Dos temores mais medonhos
E assim se vai
A vida
Francisco de Sousa Vieira Filho
BRASÃO
A solidão ardente prega peças
Intensifica sentimentos poucos
Cria outros sentimentos tantos
Engana, mente e faz pareças
Vagar a esmo pelos cantos
Francisco de Sousa Vieira Filho
Para o amor, eu hei perdido o tato.
Que na peça da vida então me resta,
Se é só o encenar de um simples ato?
Deixar de a tudo antever pela fresta
É como melhor posso resumir o fato.
Se me basta, só, o ardor das meninas,
Adejo pra bem longe todo o fino trato
E me atraco feroz em suas ancas ferinas.
Francisco de Sousa Vieira Filho
ÂNSIA
Fome de ti
Sede de ti
Brilham no olhar
Dançam nas lágrimas
Escorrem nas páginas
E mesmo antes
De o solo tocar
Morrem
Ainda no ar
Francisco de Sousa Vieira Filho
ÚLTIMO LANCE
Lancei na tela cinza destes dias
Antes fosse fúria, antes desespero
Tão fartas cores e com tal esmero
O que pensei que só tu poderias
E a divisar sob essa leve cortina,
O que pra bem longe dessa sina
Quero espraiar tudo o que de bom
E fazer ecoar minha voz, o som
E o que de mais puro e belo há
Em mim, em ti se faça o atiçar
Como se um talhe do teu beijo
Aquele derradeiro, que deixou
Rasgue novamente o que ficou
Francisco de Sousa Vieira Filho
DIRETA
Ah, se essa dor de não te ter
Transladasse o espesso vão que há
Entre a vontade e o agir, a se fazer
Como se coisa real em seu lugar
A mais do que com os olhos entreter
[Tocar, cheirar, beijar, morder]
Pusesse então diante a me mostrar
O fulgor que habita neles, bem-querer
Estrangulando esse desejo de sumir
E em si fazendo novo o velho ar
Viria a uma vez mais te consumir
O que persiste em mim, a ti arder
Vontade de assim poder te amar
E só então nos poderemos possuir
Francisco de Sousa Vieira Filho
FOSSO
De explorar a geografia branca
Algo recurva de teu dorso
E nas tênues covas de tua anca
Demorar-me, resoluto
E tal seja o esforço
Sei que sentes
Quanto luto
Se entre dentes
Com uma rosa afagar-te
O rosto
É a ânsia de assim amar-te
Qual um corso
Porque amar
Ah... amar é fosso!
Francisco de Sousa Vieira Filho
SENTIDO
Das metas tuas, só metades
Se a ti eu peço: traga tudo
É que, por certo, eu trago tudo
Em borrifadas muito fartas
De nuvens extáticas de sonhos
E em longos e massivos haustos
Seguimos desatinando os nós
E por fim desafogamos sós
Dos temores mais medonhos
E assim se vai
A vida
Francisco de Sousa Vieira Filho
BRASÃO
A solidão ardente prega peças
Intensifica sentimentos poucos
Cria outros sentimentos tantos
Engana, mente e faz pareças
Vagar a esmo pelos cantos
Francisco de Sousa Vieira Filho
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