domingo, 14 de março de 2010
O LETES DO ESQUECIMENTO
O LETES DO ESQUECIMENTO
Longe estou eu da certeza,
Eqüidistante está a pureza.
Prossigo eu a caminhar,
Por entre sonhos a vagar.
Pensamentos e colagens,
Estranhas paragens,
Tudo confusão!
Movo-me na impressão
Desse estranho guia
Que é a intuição...
Conversas com veladas vozes,
Ou mocos estarão meus ouvidos,
Que me traem feito algozes?!
Mas não esqueço os textos lidos!
E mesmo a trilha que assim percorro,
Parece-me previamente traçada,
Pois, quando à memória recorro,
Das letras, só vejo a imagem embaçada...
Que palavra por mais seca e direta
Não pode ser mostrada
Do Poeta a um poeta
ARTE: http://t.sundaybyebye.net/post/108142982/picapixels-9050251-lg-jpg
quinta-feira, 11 de março de 2010
FIAT LUX - MINOR
FIAT LUX - MINOR
Criar não é algo que surge
Do âmago é que regurgita
É como um apelo que urge
Acessos de um’alma aflita
É qual uma dor que refulge
Um nada, que do nada grita
Um reconhecer-se que ruge
O olhar que a si mesmo fita
E é carência que a si sacia
A transcrever em mímese
Ainda que só por hipótese
Aquilo que em si já se ia
O que for capaz de revirar
O que se nos haja de inato
E por fim é ainda o copiar
E refazer tudo num só atoFrancisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 16.
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quarta-feira, 10 de março de 2010
DA INCERTEZA
DA INCERTEZA
Se incerto é o terreno e o pisar não é seguro,
Se eu terei de passar por areia movediça,
Que me deixem morrer ao encarar tal liça
Pois que, então, ressurgirei bem mais maduro...
Sem trazer comigo arrependimento um,
Ou guardar no peito um remorso algum
De, com vigor, a alma não haver lutado
Que só causa arrependimento o que se faz
O que não se faz é revisto e remontado
Por uma vida inteira, ou até mais.
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 41.
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terça-feira, 9 de março de 2010
FILHA DE BACO
FILHA DE BACO
Banqueteia-se a branca bacante
E entre as pernas suas sou cativo
Pois se no brilho de seus olhos vivo
Se me dominam elas num instante
Que pernas e quadris e que talante
Em meu corpo, a cair, fazendo iso
E de seus lábios um esboço, um meio-riso
Dela sou, pra onde vou, eis o meu guante
E de bom grado é que navego sua nau
Seja pro bem, meu bem, seja pro mal
Que somos um, favor algum, até o final
E se quer saber qual seja o gosto
Que tem seu beijo, e mesmo ao rosto
É puro mosto, creia, é puro mosto!
Francisco de Sousa Vieira Filho
ARTE: http://25.media.tumblr.com/tumblr_ky5hy8I1tL1qzzhs8o1_500.jpg
"a poesia não é menos bela
Que a foto e a menina nela"
"a poesia não é menos bela
Que a foto e a menina nela"
segunda-feira, 8 de março de 2010
EXPERIMENTO
EXPERIMENTO
Amar é qual o mar
Que de tanto se dar
Soa meio egoísta
Por vezes não basta - ah, mar,
Inda que sem fim,
Se tudo nele desemboca.
E bem mais que à boca
Não basta ter...
Quer-se abocanhar,
Possuir, estar...
Se quer mergulhar,
Se quer fagocitar,
E também se quer afago,
Onde não dá pra alcançar
[Um sequer...]
E fugir deste lugar incomunicável
De nós
Encarcerados no eu-só...
[E não-tão-facilmente-desatáveis]
Penso, há de haver sempre solidão,
Enquanto a linguagem
Do corpo, do coração, da alma,
Da boca, da voz e do que seja
Não possibilitar transmitir
O pensamento puro...
Melhor, o sentimento puro,
Puro feeling...
Ah, amar,
Nem tanto ao mar
Mas por que tão terra?
Francisco de Sousa Vieira Filho
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domingo, 7 de março de 2010
METALINGÜAGEM
LIRA PERDIDA
Na página adiante, a fria alvura
É um mar de tão branca secura
Que por tal palavra me faltasse
Na letra ausente eu me afogasse
E tateio, adivinhando a tessitura
Se dela inda estivesse à procura
Qual se a mim mesmo buscasse
Num travo à língua, um impasse
É que falta a cor, se oculta a face
E o próprio verbo criador descura
Qual se do fiat lux se ausentasse
E clama a metalingüística lisura
Na folha maculada, em sua alvura
Que eu a mim mesmo edificasse
['sede oleiros de vosso próprio barro.']
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ATHENE NOCTUA*
Ah, poesia, linguagem caprichosa!
Do bom-ócio grego, o farto ventre
Dúbia e faceira, mansa e chorosa
Qual se nos achega quase sempre
Em sua dança geniosa não se curva
E se ao bel sabor o sentimento turva
Mal se presta a falar o que só pode
Cantar o coração em cifrado códice
Suas belas asas não deixa vergar
A quem só dela foge, se a pretende
Esforço vão, a vil noção conceituar
E em seus profundos olhos tende
Se co'a Filosofia alça vôo acúleo
A desbravar o horizonte cerúleo
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 14.
* Athene Noctua era a coruja de Atenas, símbolo da Filosofia.
ARTE: www.williambennettgallery.com/artists/dali/pictures/large%20v2-DALI1162.jpg
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sábado, 6 de março de 2010
O SOPRO
O SOPRO
A Gabriel García Márquez
Cem anos eu passara conjurando
Fios, teias, mil lamentos
Arrefecendo o peito e cambiando
A toda sorte de tormentos
E cem outros tantos permutando
O fio frágil de mementos
Qual se o viver fosse enlutando
Em tais vis pensamentos
Quisera então que transmutando
Fosse em esquecimentos
Pudesse a memória ir embotando
Nestes débeis linimentos
Se uma tal dor fosse eu matando
Se com tais procedimentos
E um derradeiro laço seu atando
Ao último dos sofrimentos
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 31.
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quinta-feira, 4 de março de 2010
SONETOS À [IN]FINITUDE DO ENTE E DA ESSÊNCIA
VIDA, EFÊMERA VELA?!
VELA, EFÊMERA VIDA!!
I
Todos os dias eu a vejo queimar
Tranqüila qual a mansidão do mar
Mas, em tempestade, também grita
Por supor que um dia findará aflita
E quem dela vê os detalhes amiúde
Bem sabe, longe repousa a quietude
Seu cerne, o cordão neural, queima
A cera que o reveste derrete, teima
Será a vida qual efêmera vela?
Tola indagação que a razão insulta?
Ou triste a realidade que revela?
Se abismal é a analogia vela-vida
E dialética tal aproximação inculta
Pouco se terá perdido nesta lida.
Francisco de Sousa Vieira Filho
TRAJETÓRIA D'ALMA
A Vida se esvai qual água por entre os dedos
E como a água Ela também não se finda
Somente transmuta, escorre e escapa ainda
Que estejam colados os dedos qual sê-los
E é do tabernáculo das mãos em concha
Que Ela foge e escorre por outros lugares
Peregrina em distantes terras esta monja
Para encarcerar-se então em outros lares
Se é só ao fim da longa trilha da evolução
Que se perfaz concreta tão maior unidade
Entoa o maestro os gestos finais da canção
Quando a gota adentra ao oceano em União
É que terá real noção de que seja Verdade
Francisco de Sousa Vieira Filho
SUBLIME CLARIDADE
Clamamos à mais alta Claridade
Que nos lance derradeiro estertor
Se nos descortine toda a Verdade
Pela força e fé no Supremo Amor
Que Saibamos ser mais que húmus
O Fulgor que jaz em cada homem
Sendo a Centelha mais que fumus
Mais que dor pela qual nos tomem
Até a simples réstia que faça jorrar
Do alto da Montanha, lá da Crista
É-nos imensa fonte e infinito mar
Ensina-nos a palmilhar a tua Pista
Encerrada no tênue brilho do olhar
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. pp. 49, 57, 60.
ARTE: http://www.qualified-lifecoach.com/images/1DeviantArt.jpg
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quarta-feira, 3 de março de 2010
DA DOR DE AGORA
DA DOR DE AGORA
Quero chorar e não tenho lágrimas
Não, não as possuo mais! Não mais!
É que as quero todas nessa alegria que tenho
E, por malfadadas palavras, buscá-las venho
Qual o queimar da chama sem o crepitar do lenho
Ah! Quantas dores terão secado meu cais!
Algumas ainda ecoam nestes meus tristes ais.
Passei agora (para muitos) o limite do crível
E mesmo que esse meu falar seja punível
Ainda assim, jamais eu iria recuar
Deixai então meu íntimo chorar
A dor da Felicidade [ainda] inexeqüível.
A dor da Felicidade [ainda] inexeqüível.
Francisco de Sousa Vieira Filho.
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 20.
terça-feira, 2 de março de 2010
SUPREMO TRIBUNAL
SUPREMO TRIBUNAL
Quem és tu???
Quem és tu, que chegas manso
E logo nos engendras ranço?
Tu, que por vezes trazes
A paz acolhedora do ninho ,
Em outras tantas pareces
O algoz dragão-moinho !
Tu, sempre nos guia e direciona ,
Mas há dias em que nossa paz também tenciona .
De há muito que te persigo ...
És como a luz que ao horizonte fito...
Também és, para mim, sinal de perigo ,
Vendo-te, assim, de ti corro aflito
E sequer posso afastar-te com meu grito .
Por vezes és juiz
E lança-me à face tudo o que fiz .
Em outras, sendo algoz ,
Fere-me com seu grito feroz .
Também és manso regaço,
Quando coisas Certas faço.
Certas coisas Certas ,
Que se me nego,
Abrem-me os olhos de cego
E ferem-me como setas ,
Bem agudas decerto,
Para que longe eu fique do deserto.
Supremo Tribunal da Consciência,
Que nos ensina a Lei da Boa-Vivência,
Oh, Supremo Tribunal,
Cuja Justiça Absoluta é o fanal,
Guia-me com teu canto ,
Para que eu não caia em pranto ,
Num triste canto,
Ao final.
Ao final.
Francisco de Sousa Vieira Filho
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segunda-feira, 1 de março de 2010
ANJO DE MIM
ANJO DE MIM
Quando o anjo cândido se distou de mim
Qual se sua simples ida me houvesse privado
Da própria vida, o frágil coração dilacerado
A dizer-me: tempo faz que ando triste assim...
Sem a doce palavra que minha’alma alimenta
O suave fragor de tão ansiosa tormenta
De envolvê-la, o corpo frágil, em meus abraços
Tão poucas vezes, quão fugazes os percalços
Sem o perfumoso aroma de sua pele nua
Que de cálidos sonhos povoa a alma inculta
Faz sofrer de querê-la e de querê-la inda não posso
Que por mais extenuantes sejam meus esforços
Não consegue mais calar ao peito a dor pungente
Tampouco, subjugar-me a alma inerte e sofredora
Que só peço a Deus que tão logo me socorra
Possa eu provar de novo uma tão desejosa companhia
E acalentar-me em seus alentos, na sequiosa porfia
De pousar a sofrida cabeça uma vez ainda
Em seu cálido seio acolhedor
Em seu cálido seio acolhedor
Francisco de Sousa Vieira Filho.
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 12.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
PÃO
PÃO
Como que criado em suplício
Dor e vazio se lhe consomem
Luta severa e sem armistício
De cujo saciar não há indício
O que se denomina o homem
É o que se o define de início
E arde em ânsia e em desejo
Por tudo o quanto lhe rodeie
E de paz em si não há ensejo
Nem bálsamo que a isto freie
No que é mais seu, a natureza,
Sem que se possa dizer ilidem
A porção de sua torpe baixeza
Ao Ente que lhe cedeu beleza
Marcou para que a si lapidem
As criaturas e por tal sutileza
As criaturas e por tal sutileza
É como segue o ente humano
Que tudo quer e a tudo busca
Na proporção de um oceano
Francisco de Sousa Vieira Filho
FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 25.
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
POEMETOS DA HORA DERRADEIRA
EQUILÍBRIO
Sob a égide do medo,
Se deixa de viver;
Quem vive sem prudência,
Por certo,
[igual pecado]
Logo há de fenecer.
Equilíbrio delicado
Desperto
Como se tal ciência
Revelasse o que há de ser.
Francisco de Sousa Vieira Filho.
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REDENÇÃO
A aceitação do erro,
Da falibilidade humana,
É o que nos absolve...
Cativeiro semicerro
Que aos incautos engana,
Quando então nos volve,
É a santidade distante,
O irrealizável guante
Imposto por não-santos,
[Como nós]
A despeito sejam tantos,
[Também sós!]
O que mais ainda lhes condena
E só lhes assoma a pena.
Francisco de Sousa Vieira Filho.
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ARTE: http://data.tumblr.com/0ZEBnoQrc67dkc24ZvySUokC_400.jpg
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