The Lair of Seth-Hades
Arte: Meats Meier - http://beinart.org/artists/meats-meier/gallery/meats-meier-2.jpg

Presente do amigo Zorbba Baependi Igreja - artista plástico, poeta e um dos idealizadores da Revista Trimera de Letras e do Projeto Academia Onírica [poesia tarja preta].

LIRA ANTIGA BARDO TRISTE & LIRA NOVA BARDO TARDO

Galera, estou pondo uma conta PagSeguro à disposição, para quem [assumindo o risco por sua própria alma] tenha interesse em adquirir um de meus livros [Lira Antiga Bardo Triste ou Lira Nova Bardo Tardo]. O custo de cada exemplar é de R$ 10,00 + R$ 5,00 de frete. Valeu! :D

P.S.: a PagSeguro não fornece um sistema de cadastro de vários produtos, de modo que, quem efetue a compra, deve me enviar um e-mail [iarcovich@hotmail.com], ou mesmo me deixar 'comment' aqui mesmo num dos 'posts', dizendo qual exemplar deseja receber. Por hora, a forma de pagamento disponível é apenas a de boleto bancário. Amanhã já liberam pra cartão. ;)

Pag Seguro - compra dos livros

Carrinho de Compras

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

VENDETTA




VENDETTA 
(a Felicidade de Goethe e a dor de Ihering)

                   I 
Não chores por ter sido tu 
Por outrem, calcado aos pés 
Outro dia ainda nasceste nu 
E isso não te foi por revés 

Se te tiram hoje tudo o que tens 
Os que julgam fazer-te o mal 
Não angariam sequer vinténs 
Do maior bem celestial

Mal maior a si mesmos fazem 
Lutando por tesouros desta terra 
E bem longe do Tesouro jazem

De nada adianta toda luta e toda guerra 
Se em todo mal que perfazem 
Tamanha tristeza encerra 

                          II 
É com o esvoaçar das pétalas da rosa 
Que se percebe ali todos os males 
Não estando enxertos na fibra aquosa 
De que nos falava um certo Tales 

O mal revela suma ignorância 
Sendo a vida a doce infância 
Desses seres de essência imortal 
Encerrada num corpo simial 

Desperta, ó criança, sem temor: 
Nasceste pra saber que um dia perderás 
Tudo a que nesta vida te apegas e dás valor 

Morreste pra saber que vives em fulgor 
E o Tesouro da Verdade cultivarás 
Sem de novo sentir fome, frio ou dor

Francisco de Sousa Vieira Filho

FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p.17 e 18.

ARTE: http://fc02.deviantart.net/fs71/f/2010/022/a/4/V_For_Vendetta_by_Animixter.jpg 

PLURISSIGNIFICAÇÕES PLURISSIGNIFICANTES

 

PLURISSIGNIFICAÇÕES 
PLURISSIGNIFICANTES 
                                         
                                              A Ludwig Wittgenstein

Eco de palavras mudas à parede contíngua 
Faz escorrer nos escombros destes cinzéis 
O que pareceria seja morta a muda língua 
No borbulhar de tinta bruta, os mil pincéis 

Fazem flua fácil a textura deste texto ágil 
De uns cem mil signos plurissignificantes 
Num entorno louco de verborragia frágil 
E já nem se diga o que é que fora dantes 

Se no rutilar de madrepérola que melíflua 
Molda em pedra o cárcere pedregoso chão 
E faz com que do espelho na parede eflua  
De tais palavras, inda que a menor noção

Francisco de Sousa Vieira Filho


FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p.69.

ARTE: Darkrose42 - http://darkrose42.deviantart.com/art/True-colors-133687586

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

ESPELHO




ESPELHO

Não é com desdenhoso pouco espanto
Que se constata a distorção do espaço
Raro se desfigurar o rosto a cada passo
Subcutâneo nervo, alma e cada canto

A constatar com que natural desvelo
Náusea, ânsia, choque, fúria e pesadelo
De chofre, é que nos mostram o quanto
Em frágil e débil andor de barro, o santo

Na abissal ignorância é que se compraz
Infantil joguete de um infértil nomos
Fruto do quanto o ego dominus loquaz

Faz diversa a tosca imagem do que somos
Que se brada a altivez do espelho canho
Se refestela’lma na putridão de antanho

Francisco de Sousa Vieira Filho

*  "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido." (I Coríntios 13:12)
** "Ver Tambem: SOBRE TENDENCIOSIDADE - http://dialogospoeticosimello.blogspot.com/2010/02/sobre-tendenciosidade.html


FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 07.

ARTE 1: Capa do CD - Imaginations from The Other Side, da banda Alemã Blind Guardian

ARTE 2: Luiz Royo

O PROFETA




O PROFETA
                                             A Goethe

Cabelos esvoaçantes feito sarças
Espalhado, como elas, pelo vento
Está ele a todo tempo pelas praças
Apregoando e sempre o bom alento

E impostando a voz que o nó desata
Dos tormentos e das dores e das chagas
Os pobres e os humildes vindo à cata
Ele chama pra bem longe dessas pragas

Sabendo que pra esse fim nasceu de novo
Com a Verdade com que foi presenteado
É com Ela que há de ser também seu povo

Pras dores desta lida tem sido amortizado
Pois como é para a ave, a casca do ovo,
O sofrimento é para o sábio aprendizado

Francisco de Sousa Vieira Filho 

FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 19.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

RESSUSCITANDO OS INAUDITOS

MEIO ASSIM...

Me sinto meio assim
Quando te dói em mim
Que sou teu meio-tudo
Se fico meio-mudo,
Tu falas por mim
Que sou teu meio-pai
E teu meio-amigo
Um meio teu irmão
E também inteiro-amante
Teu servo, meio-cão
Aonde for te sigo
E nesse meio estou
Um meio que teu filho
Por fim, se nessa arte
Exato meio eu sou
És tu aquela parte
Daquilo que me vou

Francisco de Sousa Vieira Filho


DESEJOS

Só um desejo oculto por vez
É que se revela
Por menor o toque, em tua tez
Tão alva e bela
O de querer te abrir a mente
Ou te escancarar as pernas
De um ou outro se pressente:
No negrume de cavernas,
Um se aterra e se oculta;
No alçar vôo e içar velas,
Outro assoma e avulta;
Por ambos
Em ti mergulho
Descambos
De meu orgulho
Um é sol
E o outro é lua
O crisol
E a fome tua
Se um vem, o outro se ia
Também morre e o outro vai
Mata a fome e se sacia
Estertor de um simples ai
De quem assim sente
E a si sente
Em eterno ciclo
E constantemente
E se em ti florir
Eu quereria
Florir-te-ei
Florir-te-ia

Francisco de Sousa Vieira Filho

CORPUS CIRCENSIS

Para o amor, eu hei perdido o tato.
Que na peça da vida então me resta,
Se é só o encenar de um simples ato?
Deixar de a tudo antever pela fresta
É como melhor posso resumir o fato.
Se me basta, só, o ardor das meninas,
Adejo pra bem longe todo o fino trato
E me atraco feroz em suas ancas ferinas.

Francisco de Sousa Vieira Filho


ÂNSIA
Fome de ti
Sede de ti
Brilham no olhar
Dançam nas lágrimas
Escorrem nas páginas
E mesmo antes
De o solo tocar
Morrem
Ainda no ar

Francisco de Sousa Vieira Filho


ÚLTIMO LANCE

Lancei na tela cinza destes dias
Antes fosse fúria, antes desespero
Tão fartas cores e com tal esmero
O que pensei que só tu poderias
E a divisar sob essa leve cortina,
O que pra bem longe dessa sina
Quero espraiar tudo o que de bom
E fazer ecoar minha voz, o som
E o que de mais puro e belo há
Em mim, em ti se faça o atiçar
Como se um talhe do teu beijo
Aquele derradeiro, que deixou
Rasgue novamente o que ficou

Francisco de Sousa Vieira Filho


DIRETA

Ah, se essa dor de não te ter
Transladasse o espesso vão que há
Entre a vontade e o agir, a se fazer
Como se coisa real em seu lugar
A mais do que com os olhos entreter
[Tocar, cheirar, beijar, morder]
Pusesse então diante a me mostrar
O fulgor que habita neles, bem-querer
Estrangulando esse desejo de sumir
E em si fazendo novo o velho ar
Viria a uma vez mais te consumir
O que persiste em mim, a ti arder
Vontade de assim poder te amar
E só então nos poderemos possuir

Francisco de Sousa Vieira Filho


FOSSO


De explorar a geografia branca
Algo recurva de teu dorso
E nas tênues covas de tua anca
Demorar-me, resoluto
E tal seja o esforço
Sei que sentes
Quanto luto
Se entre dentes
Com uma rosa afagar-te
O rosto
É a ânsia de assim amar-te
Qual um corso
Porque amar
Ah... amar é fosso!

Francisco de Sousa Vieira Filho


SENTIDO

Das metas tuas, só metades
Se a ti eu peço: traga tudo
É que, por certo, eu trago tudo
Em borrifadas muito fartas
De nuvens extáticas de sonhos
E em longos e massivos haustos
Seguimos desatinando os nós
E por fim desafogamos sós
Dos temores mais medonhos
E assim se vai
A vida

Francisco de Sousa Vieira Filho


BRASÃO


A solidão ardente prega peças
Intensifica sentimentos poucos
Cria outros sentimentos tantos
Engana, mente e faz pareças
Vagar a esmo pelos cantos

Francisco de Sousa Vieira Filho

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A DANÇA DO UNIVERSO




A DANÇA DO UNIVERSO

No limiar maior da razão se alcança
A percepção de inaudível melodia
Ao sabor da qual o universo dança
Desde aquele seu primeiro dia

Da mítica figura divina hindu
Delineia-se, então, o corpo nu
Na silhueta metafórica de Shiva
A intuição de toda estrutura viva

E nesse ensejo da Razão que luzia
Brota no entrechoque de átomos
A semente da mais intensa harmonia

Relembram-nos, assim, o que fomos
As mãos de Deus, em tão bela melodia
Imersas, a escrever primeiros tomos

Francisco de Sousa Vieira Filho

FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 21.

ARTE: Luke Brown - Mantis Dakini

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ERMO - ÉDEN PERDIDO




ERMO – ÉDEN PERDIDO

Palmilhar é o que arde ao peito do andejo,
Que sob lua enigmática nos céus reinante,
Num murmúrio derradeiro, é seu lampejo,
Qual se lhe falasse voz profética, sibilante.

É que lhe sussurra num silêncio benfazejo
A muda voz que dum coração retumbante
Lhe grita n’alma seu mais pungente desejo
O de persistir e caminhar a todo instante.

E abafa um resmungo mudo, inútil arpejo,
Sonhando se lhe restaure o status quo ante,
Mesmo se lhe dobrem os joelhos, arquejo,
Insiste só querer dali partir se triunfante.

E intenta em vão prosseguir ante o bodejo
Dessa estranha e muda voz que tão falante
Prossegue a lhe tanger à força, murmurejo
De como bem se vive a vida, ó caminhante:

Se de cada espinho em flor sinta o dardejo
E se te perfurem as pedras em dor ululante
O que se te parece ser caminho malfazejo
É o que te fará de novo puro qual infante

Que pra bem longe deste humilde lugarejo
Longa paz que se te haverá, amigo-errante.
Tu verás que bem mais há, pobre cabanejo,
Ao se te restaurar aquilo que já fora dantes.

Francisco de Sousa Vieira Filho

FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 9.

ARTE:Fire Bird - http://artisalma.deviantart.com

'Haicai' - filho único



'E a quem queira definir a poesia
Tanto mais se afasta
Tanto mais se distancia'

Francisco de Sousa Vieira Filho


Post-scriptum: lembrando cá uma passagem de Kahlil Gibran em que questionava o que teria sido do primeiro poeta ao largar o arco e divisar a beleza de um nascer ou pôr-do-sol e tentar explicar [com palavras] isso [que sentia] para seus companheiros de armas [quase todos guerreiros rudes e via de regra insensíveis]... provável daí tenha surgido a figura do skäld nórdico, uma espécie de guerreiro-bardo...

Post-scriptum II: na versão do Henrique Pimenta:

'Quem quer definir a poesia?
Quanto mais se aproxima
tanto mais se distancia'.

Show de bola!..

DE QUERER A DOR INTEIRA


 
DE QUERER A DOR INTEIRA - I

Bem antes que me tomem masoquista
Apelo vejam o quanto a dor benquista
É que desnuda a alma, as roupas rotas
E tanto mais não venha a conta-gotas

E é bem por isso que digo 'quero a dor'
E se a quero, quero-a toda e ela inteira
Que nem de longe escapa a seu horror
Quem só dela foge sem eira nem beira

E tanto melhor que dela se prove tudo
Sendo de uma vez só, eu não me iludo
É ter o seu fulgor a embriagar na veia
Que tão menos prolongada faz sua teia

Francisco de Sousa Vieira Filho

FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 32.


ARTE:: unknown

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

EVOLUÇÃO


 
EVOLUÇÃO

Em berço pétreo é a semente nua
Da luz, nos céus acima, desejosa
Qual o homem que por vez intua
A espinhosa trilha ser formosa

Indiferente de saber a senda sua
E displicente ao quanto tortuosa
Aquela que amanhã ele conclua
Ou que lhe advenha tormentosa

Pois que talvez sede inda possua
Ao ver da trilha finda, a maviosa
E a dor que da alma quer se exclua
Não tarda arder ao peito sequiosa

E jaz na insatisfação de todo sua
A eterna humana busca, honrosa
Sonha, crê e quer que se conclua
A sua jornada eterna e vagarosa

E a semente que repousa na fruta
Qual no homem átomo ao arcanjo
Quer tão logo renascer-se arguta
A natureza refazer o novo arranjo

Francisco de Sousa Vieira Filho



FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500.p. 8.


ARTE: Luiz Royo

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

VISUM ET REPERTUM




VISUM ET REPERTUM*

“Only the good die young
All the evil seem to live forever.”

Se de fato o que mede um homem
É a coerência entre o que pensa e fala
Antes que numa cruz se te tomem...
De bom grado eu te aconselho: cala!

E se por certo a ocorrência é rara
É que no ébrio louco se consomem
Santos homens que só vivem para
Coisas que em nós rareiam, somem

É que nos falta a precisa medida
De ousar ser chamado louco
Para bem viver a vida

E ainda que seja breve a partida
Tão cara virtude é pouco
Em tão honrosa lida

Francisco de Sousa Vieira Filho


FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500.p. 13.


ARTE: Félix da Silva - http://felixdasilva.deviantart.com/art/Madre-Teresa-17344559


* Visum et repertum = ver e repetir

SANTO


 
SANTO

Ao pesar da armadura ele cai, genuflexo,
Sendo tal esta carga que o dorso lhe verga
E se toca o alforje, derradeiro o reflexo,
Pensa só no tesouro que a alma lhe alberga

Despe a casca, dura matter que enverga
Finca a espada, quase parte do plexo
Mãos ao cajado, o caminho não posterga
E à imensidão é que oferece um amplexo

Partido o escudo e sua lâmina fendida
Pra cura de suas dores, não tarda a ida
Do que lhe pulsou n’alma, agudo dardo

Uma fuga dos horrores, tal fora o fardo
E qual extrema-unção, bálsamo à ferida
Penitente é que prossegue em sua lida

Francisco de Sousa Vieira Filho

ARTE: Gimenez

domingo, 14 de fevereiro de 2010

BRINCADEIRA DE CARNAVAL




BRINCADEIRA DE CARNAVAL

Se redescobre, enfim, o que procuro
Em teu incerto, assim, cima-do-muro
A boca ardente que ora me faz bardo
E o teu sorriso quente, acúleo dardo

Seja o tesouro, ao fim, tua pele rubra
Em tal fulgor, por fim, te redescubra
O suave arrepio que te fibrila ao seio
Ao menor toque e o mais leve meneio

No bom volteio, afim, teu corpo rubro
O vai-e-vem, de mim, com que te desço
Vendo teu corpo, em mim, eu emudeço

E com o suor marfim, com que te cubro
Embebido amor, de que não me esqueço
É que, em teu colo ardente, eu desfaleço

Francisco de Sousa Vieira Filho

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Parâmetro Ético



Parâmetro Ético

(Mais um ao velho estilo auto-ajuda... pra não perder a cava inferior da inspiração...)

Outro dia, li uma frase de Lao Tsé que me chamou muito a atenção: "Para alcançar conhecimento, adicione coisas todo dia. Para alcançar sabedoria, elimine coisas todo dia." Conhecimento seria, pois, um adicionar de informações novas. Sabedoria, por sua vez, seria um livrar-se de vícios antigos. E neste diapasão, buscamos compreender o que é certo e o que é errado, o que é moralmente correto e o que não é, o que é vício e o que é virtude.

Ora, em linhas gerais, poderíamos dizer que Ética seja a Ciência da Moral. Mas isto não responde a questão apenas a transfere. Não sabendo o que é Ética, dizemos que é a Ciência que estuda a Moral, a qual também é coisa que não sabemos. Usamos o mesmo termo para representar diversas idéias. Dizemos: "fulano tem moral", quando alguém se faz prevalecer diante dos outros. Ou dizemos "beltrano é imoral", quando outro alguém atenta ao pudor e aos bons costumes, condutas exigíveis no seio da sociedade, sendo que - pode muito bem ser - que outros, mais pudicos e puritanos, coisas piores façam no reduto de seus lares, contudo, não seriam taxados de imorais como o nosso beltrano, que o fez em público. Lembro-me de uma passagem da bíblia em que Jesus criticava os fariseus e os hipócritas que eram como "sepulcros caiados", belos túmulos que hoje em dia seriam adornados de mármore com letras douradas, belos por fora, "mas com toda a sorte de podridão e carniça por dentro." A moral defendida por Jesus não era a moral da conveniência, a moral social, ou a moral do momento, mas parecia estabelecer um parâmetro mais sólido para o conceito, algo que poderíamos chamar A MORAL! Há um sentido peculiar nisso. Se Ética se pressupõe seja a ciência que estuda a moral em suas mais diversas dimensões, que o faça também em relação àquela dimensão plena, que eventualmente abrace todos os casos possíveis e imagináveis. Uma MORAL ABSOLUTA?! (Divina?!) Certamente.

Ao que parece a verdadeira moral e portanto a verdadeira ética que sobre ela se debruça e se propõe estudar, é aquela que pressupõe além da casca exterior, além do mero agir externo, além da prática exterior, a mudança interior, o progredir intimamente. E isto se aplica em todas as áreas. Não há isso de "em casa assim, no trabalho assado". Podemos usar máscaras e querermos enganar o mundo exterior nos fingindo sermos de tal ou qual modo, mas nunca conseguiremos fugir do julgamento inexorável que vem de dentro, de nós mesmos, de nossa consciência: eis o que penso seja a moral verdadeira, e portanto, aquela a que a Ética deva estudar.

Baseado em tudo aquilo que discutimos acima sobre o que seria Ética, temos que falta de ética seria enganar-se - o auto-engano, para usar o termo de Eduardo Giannetti. Seria falta de ética toda e qualquer conduta no sentido de fingir ser quem não se é, usar máscaras ao invés de mostrar o real, claro e límpido. Exercício diário, sobremaneira difícil, é fato. Mas passível de ser aplicado em toda e qualquer profissão. Há que se compreender que, no trato com o ser humano, é mais cativante o que é verdadeiro, o que é transparente, não que isso não vá gerar inveja, perseguições, inimizades. Cristo mesmo não foi perseguido justo por isto?! Pois então?! Que queremos nós, pequeninos, senão tomando nossa enxada em mãos e titubeando em seguir - vacilantes - os seus passos, senão que nos persigam também, guardadas as devidas proporções?! Se semelhante atrai semelhante, sendo éticos (no real e mais preciso sentido da palavra) reuniremos ao nosso redor pessoas que ousaram deixar cair as máscaras, assumir seus vícios, e que lutaram por se tornarem melhores. Já vimos que conhecimento seria um adicionar de informações novas, ao passo que sabedoria seria um livrar-se de vícios antigos. Então aí está o ponto. Falta de ética é não lutar contra os vícios e conformar-se com as máscaras. Ousadia?! Loucura?! Jesus, Gandhi, Madre Teresa, entre outros mais, assim também foram chamados. E tanto perdure a real loucura do mundo, muitos mais que larguem as máscaras de dor do passado serão chamados demasiado ousado e loucos de todo o gênero. Assim foi um Gandhi, assim um Buda, assim um Krisna, assim um Jesus... Como falei, somos pequeninos, e - alguém pensaria - quem somos nós para nos queremos assemelhar a Jesus... porém, ele mesmo nos mandou sequer mirarmos nele, mas no Pai que está nos Céus... "Por que me chamais bom se um só Bom há que é o Pai que está nos céus?!" (...) "Sede perfeitos como o Pai". Assim, se queremos progredir um pouquinho que seja, miremos no mais alto ponto: miremos no céu! Trazendo isto, para o nosso cotidiano, se se quer ser melhor no que se faz, espelhemos os melhores profissionais de nossa área, doutro modo, mirando baixo, sequer subiremos o mínimo degrau que imaginamos galgar. Assim, falta de ética é não ousar lutar pela perfeição interior, que fatalmente modifica o exterior. Já diriam as Escrituras: "a salvação não vem pelas obras para que ninguém se vanglorie" mas "a fé sem obras é morta".

Francisco de Sousa Vieira Filho

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Vitória na derrota



Vitória na derrota

Decidi macular este espaço, mais uma vez, com algumas bobagens a la auto-ajuda... no reasons, então, lá vai...

Muitos experimentaram vitórias, outros tantos escreveram sobre ela: Airton Senna, Norman Vincent Peale, Thomas Alva Edson, Gandhi, Henry Ford, Ralph Emerson, entre outros. Há um sensível ponto de contato entre as vidas de uns e as idéias de outros: acreditar em si mesmo e nunca desistir. Errar é humano, diz o ditado, e - penso - devemos aprender com nossos erros. Um vencedor é feito de muita disciplina, persistência e (em alguma proporção) de aprendizadocom os próprios erros.
Certa feita, questionaram Thomas Edson acerca do exorbitante número de "erros" por ele cometidos na tentativa de fazer funcionar a lâmpada. Ao que ele respondeu mais ou menos assim: - erro é repetir um agir que se sabe fadado ao fracasso. Eu não cometi um só erro. Foram, é bem verdade, mais de mil TENTATIVAS, mas nunca repeti nenhuma delas quando as sabia erradas.
Pois bem, quando se pensa em que características formam um vencedor acredito que - ao contrário do que possa crer o senso comum - a principal delas seria o modo como se lida com a queda, o tropeço, a derrota, o erro. O vencedor é aquele que não dispensa muito tempo em lamúrias, é aquele que "sacode a poeira" levanta e luta, aquele que - tantas vezes o obstáculo se agigante diante de si - tantas são as que contra ele o vencedor se soergue combativo. Um vencedor, acredito, não é forjado tanto em suas vitórias, mas no modo como lidou com as derrotas e as lições disso colhidas. Pode parecer 'chavão', lugar-comum, mas acho que é por aí.
A vitória está em vencer-se a si próprio, e é exatamente disso que falamos: vencer nossos pensamentos pessimistas recorrentes, vencer nossa tendência a auto-crítica exagerada, elevar nossa estima e acreditar que - com persistência, disciplina e muita paciência - podemos vencer todos os obstáculos que a vida nos imponha. E pensar que foram bilhões de anos que despendeu um simples "coacervado" (a forma mais primitiva de vida) para chegar até o patamar da condição humana. Por si só já seríamos vitoriosos, os bilhões de anos da evolução refletidos em cada uma das funções dos sistemas e órgãos humanos. Por exemplo: não precisamos pensar detidamente para respirar ou para fazer nosso coração bater e no entanto isso é automático em nós. Acredito que se nos disciplinarmos no aprendizado (com os erros e - melhor ainda - a despeito deles) poderemos nos automatizarmos no bem-fazer, tornarmos nosso agir de suma eficiência seja em prol de nosso próprio crescimento, em favor do próximo ou em benefício do grupo ao qual pertençamos.

Francisco de Sousa Vieira Filho

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Missão da Vida e Missão na vida...



MISSÃO DA VIDA E MISSÃO NA VIDA...
(pensamentos, colagens, auto-ajuda e outras bobagens...)

Quando a gente pensa em missão, tomamos a questão ora em nível micro, ora em nível macro. Por vezes vemos e pensamos a missão maior, a missão da vida, que inclui (obviamente) nos tornarmos pessoas melhores, e isto, certamente, passa por fazermos a vida dos outros melhores.
Evoluir, sob qualquer perspectiva, traz consigo a idéia de superar obstáculos e problemas... e, se observarmos com precisão, nem importa bem a natureza dos problemas. Neste contexto, existe algo que sempre ajuda: olharmos e focarmos nossa esfera de atuação... olhemos a questão da seguinte forma: não posso mudar o outro, não posso fazê-lo agir como eu gostaria que agisse, nem posso me chatear [de todo] pelo fato de o outro pensar diferente... devemos respeitar as diferenças, por mais que nos choquem... e isso é evoluir... mas o ponto é sempre esse: fazer a nossa parte, mudarmos a nós mesmos... não se soluciona o problema maior (a missão da vida), sem se solucionar os problemas menores (as missões na vida)... hoje, penso, pouca valia tem focarmos a missão maior e nos esquecermos que somos humanos, que temos uma quantidade enorme de pequenos problemas (que nos são urgentes no hoje, no agora), via de regra, resultantes de situações conflituosas: família, trabalho, escola, faculdade, amigos, etc. E os ditos conflitos se dão quase sempre por comportamentos cíclicos e repetitivos de parte a parte. Não posso quebrar o ciclo, mudando o agir do outro, mas posso mudar o meu.
Se diante de dada situação eu sempre faço "assim", irei fazer "assado" (umavezinha que seja) só pra sentir a reação do outro, pra ver se quebro o ciclo - e cumpro a pequena missão, que - penso - é o DNA da missão grande, da missão maior. Vejamos: eu conheço bem a reação do outro sempre que faço assim, mas e se eu fizer assado?! Meu agir diferente há de fazê-lo reagir diferente também. É uma saída, vale tentar... nenhum dos grandes homens e mulheres (a saber: Gandhi, Madre Teresa, Krisna, Buda, Jesus, etc.) mudou o mundo senão mudando a si mesmos. O foco deles não foi o outro, ou o mundo... tentaram mudar a si mesmos; e, por isso, mudaram todas as coisas... NÓS MESMOS, eis aí o único lugar que pode ser mudado. O agir do outro não se pode mudar. Os outros sempre vão fazer coisas que invariavelmente vão nos decepcionar. Vejamos se não é um pouco infantil de nossa parte: esperamos algo das pessoas, se elas não agem como esperamos, a gente logo se magoa... observemos bem: somos nós que nos magoamos! O outro é a fronteira do desconhecido, do imprevisível... tudo pode vir do outro... a probabilidade de que venha algo que nos magoe é imensa... NÃO ESPEREMOS... NADA ESPEREMOS... vivamos mais light... sejamos mais leves... carreguemos menos peso... senão, tudo na vida será como se carregássemos uma mala imensa... sejamos LEVES... façamos nós o que julgamos seja certo... não esperemos pelo agir ou o ‘não-agir’ do outro... façamos nossa parte, porque somos, exato, as únicas pessoas de quem podemos cobrar.
Ora, esperarmos santos e nos decepcionarmos como se demônios fossem, sobretudo ante a realidade gritante de um mundo de humanos, de gente “de carne e osso”, só demonstra nossa infantilidade. Esperar só coisas boas das pessoas revela tanta infantilidade como a de quem só espera coisas ruins – e isto se intensifica, sobretudo, quando esperamos algo de quem gostamos e amamos. E esquecemos justamente que gostar é permitir ao outro ser quem ele é. Mas esperamos sempre demais, justamente porque é alguém de quem gostamos, a quem admiramos ou  em quem confiamos. Ignoramos que, estando mais próximos, estes são justamente os que mais nos irão magoar, justo porque mais próximos.
Somos como ‘porcos-espinho’ - os vícios são os agudos espinhos, ferem quando estamos muito perto. E o fato de você gostar, admirar, confiar, querer bem, não quer dizer que a pessoa por quem sente isso deva agir, pensar ou falar segundo os padrões que VOCÊ estabeleceu de normal/certo. Ame a diferença! É isso que nos faz belos: a pluralidade... Óbvio que alguns enxergam a essência, o que nos é comum, mas estes são os grandes, que nos vieram como faróis e como guias... os demais, os homo-medius, como nós, têm de viver aqui, na vida real... e lidar com as diferenças e respeitá-las sobretudo... mesmo que eu saiba (ou ache) que dada coisa é certa e que o outro erra, se eu o amo, devo alertá-lo; mas não condená-lo por pensar diferente. Condeno as idéias diferentes, não as pessoas que defendem tais idéias. Penso, deva ser esse o modo de agir. Eu me indigno com idéias retrógradas, ingênuas, errôneas, viciadas, etc. E vou lutar com todas as forças para que aqueles que possuam tais idéias mudem, mas não vou condená-los se quiserem persistir no erro. É o livre-arbítrio deles... fazer o quê?!
Aí, você diz: “ah, mas como vou evitar sair machucado?” – Não vai! - mas pode ao menos evitar os machucados que vêm da sua própria revolta com eles... é como quem se espeta numa rosa e fica revoltado porque antes só via a beleza e a maciez das pétalas... e agora só vê a feiura e a dor dos espinhos. Agir assim é como quem, pela revolta em face da existência dos espinhos, os abraça e mais se fere. É como alguém que se pune pela existência da dor e da feiura... Como diria Kahlil Gibran, Deus nos deu a nuvem benfazeja que nos traz a chuva que acalenta e fertiliza a terra seca, mas com ela trouxe também o raio e o trovão. Ame o raio e o trovão como quem ama a chuva também. São faces da criação como quaisquer outras. Por meu turno, diria que o espinho que ladeia o caminho não existe senão para nos alertar que estamos saindo da trilha e não pra nos machucar.
Eu sei, já estou ‘viajando’ demais, vai dizer alguém. Muita gente por aí só vive. Não pensa sobre tais coisas e ora se revolta, ora se magoa, ora age num sentido ou noutro, sem nunca pensar sob tais perspectivas... "uma vida não pensada (não refletida) é uma vida que não vale a pena ser vivida", já diria Sócrates. Não me perguntem como fazer pra não sofrer. Seria pedir que eu dê respostas que não sei. Aliás, nem Jesus sabia... porque, sendo sábio como foi, também sofreu... assim com Sócrates... assim com Gandhi... sofrer faz parte... devemos amar o sofrimento naquilo que ele tem de bom. "O sofrimento é para o sábio aprendizado", nos alerta um Goethe. O sábio não vê no sofrimento só a dor, mas a lição que ele traz... por isso, ele também vê no sofrer algo bom... é a mesma relação entre o raio e a chuva a que nos reportou Kahlil. Agora, passar pelo sofrer e não aprender a lição que o sofrimento veio deixar - isto, sim, é pecado e um erro crasso. E isso é cíclico... sofrimento similar (invariavelmente) vai vir, até o dia em que VOCÊ aprenda (e isto nada tem a ver com o outro). karma?! Use o nome que quiser... você só sai do ciclo quando aprende. Encontre (enxergue) o aprendizado que este sofrimento de quer deixar... tente vê-lo... bendiga este sofrer como algo bom... como a vida-mestra que vem te deixar uma lição dura... a lição da vida... e a vida é mestra severa que dá a prova primeiro e a lição depois... passe na prova e descubra a lição...
E você diz então, “sempre lá no fundo a gente pensa: ‘Nossa, por que essa pessoa agiu assim?!’” Não deixe que esse pensar te afete tanto... os outros são os outros. Você só pode agir por si, não mudar o outros... é um exercício duro e diário. Mude seu jeito de pensar sobre isto, e só então mudará seu jeito de agir. Nesta altura, você me pergunta: você deixa ou, dependendo da situação, se tiver uma brecha, você tenta mostrar a ela o outro lado?! Ou para ela este lado é que é o correto e você tem mais é que aceitar no momento e pronto?! Bem, você tenta mostrar racionalmente, tenta convencer, demonstrar, sempre com o máximo possível de calma, sem se exaltar nem levantar a voz, que isso é denotativo de perda da razão. Se por fim, não der certo, paciência, você pode tranqüilizar sua consciência, fez sua parte... fácil falar, né?! Na maioria das vezes a gente se excede (risos) Certo é, a vida vai provar ao outro o quanto ele pode estar errado, ou não, se for o caso de você ser o errado no tocante a dada questão... É uma visão mais otimista e aproxima você daquilo que almeja... os grandes – Gandhi, Buda, Cristo, etc. – só mudaram o mundo (já se disse) porque mudaram a si mesmos.
Você, amigo leitor, pode estar se perguntando agora, mas eu só espero das pessoas o normal. Acontece que não existe tal coisa: o normal, o padrão?! Isto foi estabelecido por quem?! Quem dita o que seja ou não seja normal num mundo onde todos são diferentes e onde a igualdade é meramente formal, no papel... (e, por vezes, nem tanto)?! Todos somos diferentes! Cada um age e pensa de um jeito, com alguns pontos comuns, aqui e acolá (e olhe lá)! O sábio Emmanuel diria: "sede rigososos consigo mesmos, e indulgentes com o próximo." Eis aí uma bela tradução de nossa missão... O bacana é que, quase sempre, ainda que pensando e agindo diferente, todos o fazem (e mais das vezes) tentando acertar. Por isso, cabe aqui um conselho: faça você, cobre de você, espere de você... e, ainda assim, sem tanto rigor, sem tanto peso. Pense assim: ‘fiz o meu melhor, se deu certo bem, se não deu, não vou pirar ou morrer por isso.’
Sejamos como a abelhinha da fábula infantil que levava a gotinha de água, afim de apagar o incêndio, sem se preocupar que os elefantes , os leões e os outros animais maiores, vissem, atônitos e preguiçosos, as chamas devorando a floresta inteira – sua casa, seu lar - sem nada fazerem! Sendo já até um pouco pragmático, diria isso: por vezes, é melhor focarmos a missão do agora que a missão de um amanhã longínquo e distante... é que só se chega no amanhã promissor se se planta boas sementes no labor diário do agora!

Francisco de Sousa Vieira Filho