quarta-feira, 23 de março de 2011
ÉS.POSTA CARNE.E.FERA
ÉS.POSTA CARNE.E.FERA
Tá.aqui.que.ardia
Era cor, ação,
Mas há eras não,
Inda que t[e]ardia...
E [há uma] inação,
Que diz.simula
– inerte –
No diz.senso
Se diverte,
Sem ter algum,
Sem ter noção;
Se gana fosse,
Previa são,
Mas me dou ente
Persistente;
E nus dias
De te florir
É que foice
Ceifou
Pé cá do
[Me.do] o [eu]
Pé lá dá
Cor.agem
Me falta o ar
Mas sê.cura
Que me dá
Que ao fazê-lo
Nesta altura,
Nua em pêlo
Firo a fera
Que é ela
Francisco de Sousa Vieira Filho
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domingo, 6 de março de 2011
SÊ CÁ QUE SE DIZ.HÁ.FOGO JÁ SE APAGOU
SÊ CÁ QUE SE DIZ.HÁ.FOGO
JÁ SE APAGOU
Carnavais
Vão
Se diz: ah, finados!
Os sentimentos
Passados
Em que se
Mergulha.a.dor
Que dor-ida
É que se foi
Foice ela
E eu d’olor ido
Cá
À cá ficar
Mas nem perfume
Dela fica
Se à deriva
Fico
Que dê.cifra
É dar valor;
É querer conhecer
Di profundis;
Mas valor algum
Me.do.eu
Me[ço a] dor
Que é nossa
A dê.sê.já
Mesmo por triz
Que nos seja ou haja
Um bis
Se na pauta fria
E fixa dos dias
Tu te ias
E sol não se fica
Se de mãos dadas
Quer mudas
Quer mudadas
Troco as tuas
Por outras
Assim, zen, tá!
Na quarta-feira
De cinzas
E todas mais
Se outono
Não estou
- Esta.ação
Que não se foi -
As folhas
É que se foram
Francisco de Sousa Vieira Filho
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sábado, 5 de março de 2011
...[H]À FERRO E FOGO!
...[H]À FERRO E FOGO!
Marca.ante-me os pés
Li.bido de beber suave
Que, se lê, há vontade
FOTO: minha
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
DÊ.DE.ILHAR
DÊ.DE.ILHAR
Dedos são brinquedos
Quedos ou movendo
Leem-te os segredos
Todos os teus medos
Ledos vão morrendo
Morre-se em degredos
No tredo não se fica
Carícias mais suplica
A implorar sem freios
O bem que seios todos
Seguir que sem engodos
Desfazem-te os receios
Se te entremeio os meios
Francisco de Sousa Vieira Filho
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
A.PRECE.EM.TI
A.PRECE.EM.TI
Água.ar.dar
Que é ardente
A oferenda farta,
Que sem.ti vem.tu
Eriçando pêlos
Cantos e os da grama;
Qual pressentimento
A pressentir tormento;
E é vertigem que verte
Insertas incertezas;
Um palimpsesto a pretexto
De turvar o contexto
De que possa haver
Algo
Pra lá de além
Daquilo que nos [com]vêm,
Sem nem mesmo ver/ter,
Quando tudo então
Nus, falta...
Quando a vista embaça
E o que quer se faça
Não parece palatável
Nem o carinho afável,
Em meio aos destroços,
Ao quebrantar de ossos,
Em que bailam loucas
Estas sombras poucas,
Que, com vozes de veludo,
Seguem roucas,
Engolfando tudo.
E mesmo que a si neguem,
Nesta imensidão,
Que é de pôr só;
Seja de [pôr são];
A depor aqui;
Se dê, por inteiro,
Ao pote, sede
Indecifrável,
Tu
Francisco de Sousa Vieira Filho
FOTO: minha [ponre estaiada - Teresina - PI]
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
SÓ.FIZ.MÁ COISA
SÓ.FIZ.MÁ COISA
[...]
- Ah, tô tentando equilibrar meus sentimentos, por isso não posso ter envolvimentos... ainda mais sabendo que não vão ter durabilidade... hoje em dia quase nunca têm, né?!... A gente aprende, sabe... você sabe, acaba sabendo, o que vai ter durabilidade, o que não vai ter...
- Mas nada dura pra sempre.
- É... eu sei disso, mas outras coisas duram menos ainda... elas podem até não durar ,mas o impacto que elas podem causar pode... durar...
- Por vezes, as coisas que menos duram conservam o sabor doce da primeira prova, ao passo que algumas que se prova por muito tempo, ficam amargas... é como o chiclete... quando se masca por muito tempo, perde o açúcar.
- Mas a vida não é só de doces sabores [...]
- Mas são os melhores, há de convir... e são eles que levamos na lembrança... os mais doces, os mais suaves... as coisas ruins quem quer lembrar?!
- Ninguém, claro, mas não estamos no paraíso, meu caro... e as ruins servem pra alguma coisa [...]
- Sim, servem... pra aprendermos o gosto do doce em oposição ao amargo e buscarmos o doce.
- ahh, isso sim.
Francisco de Sousa Vieira Filho
FOTO: minha [hotel metropolitan - Teresina - PI]
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
A MARÉ [BAIXA]
A MARÉ [BAIXA]
Amor se.quer regado
E volta a ser semente
Acaso desprezado
E, por mais que tente,
– Bem pode até morrer –
Difícil é de dizer
Se torna, ou se lhe vai
Qualquer que seja o ai
Maior ou diminuto
Se fica, ou se lhe resta
O véu que pela fresta
Lhe é mortalha, o luto.
Pequeno na passagem,
Inda que a menor,
É quase uma visagem,
Sabe-o já de cor
Caminho que de volta,
Regaço, seu descanso,
A prescindir de escolta
Quer aninhar-se, manso,
Tal dor que segue cego,
Em ondas espumantes,
Fulgor que já é só ego
Se perde nas vazantes,
[De há muito, se apagou]
Deixai, pois, lhe abracem
Qual não fizeram dantes
E é bom que logo passem
Tais ondas que só antes
Não lhe viravam o rosto
Que desgosto, face gosto
Na viração de amar é
E amarelo então se rompe
O sol, no horizonte, irrompe.
Francisco de Sousa Vieira Filho
IMAGEM: Francisco de Sousa Vieira Filho
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domingo, 2 de janeiro de 2011
LIRA NOVA BARDO TARDO - prefácio
Antes de mais nada um feliz 2011 a todos. Andei meio ausente, em boa parte devido a questões profissionais [ossos do ofício], em parte devido ao preparo deste que é meu segundo livro. Algo do que há nele vocês já conhecem aqui do blog. A capa é uma foto minha, foto de celular por sinal. Quando a oportunidade surge, quase nunca temos uma câmera em mãos [risos]. Aqui vai uma provinha do prefácio que modifiquei e ampliei de um dos textos já postados cá. É isso, galera, estou de volta! Forte abraço a todos!!!
P.S.: estou pondo uma conta PagSeguro à disposição para quem tenha interesse em adquirir um dos livros [Lira Antiga Bardo Triste ou Lira Nova Bardo Tardo]. O custo de cada exemplar é de R$ 10,00 + R$ 5,00 de frete [Como sou novo nisso, está tudo ainda em fase de testes. A partir de amanhã, ponho ativo] :D
P.S.: estou pondo uma conta PagSeguro à disposição para quem tenha interesse em adquirir um dos livros [Lira Antiga Bardo Triste ou Lira Nova Bardo Tardo]. O custo de cada exemplar é de R$ 10,00 + R$ 5,00 de frete [Como sou novo nisso, está tudo ainda em fase de testes. A partir de amanhã, ponho ativo] :D
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DE TINTA E CUNHA
À guisa de explicações quanto ao título e ao porquê de se escrever...
Antes mesmo de fazer menção qualquer quanto ao título da presente obra, mister se faz remetermo-nos àquela outra que lhe antecedeu e que com esta guarda sensível conexão. A simples menção do título de meu primeiro livro – "Lira Antiga Bardo Triste"– já dirá o bastante.
Por razões várias, preferi usar o termo bardo ao nosso, mais conhecido, trovador. Há quem diga a poesia seja a forma mais primitiva de música. E os bardos nada mais eram que poetas-andarilhos, a vagar de cidade em cidade, levando poesia, arte e música, cantando as aventuras de heróis e guerreiros, divulgando o folclore e os mitos e as estórias de deuses, dragões, duendes, elfos, fadas...
O título casou bem porque, ali, não me preocupei em fazer uma seleção dos melhores poemas. Poesia – no fim das contas – é desnudar-se; então, se é pra fazê-lo, que seja sem pudores. Pus de tudo: coisas novas e antigas [embora prevaleçam obviamente estas últimas em relação ao todo]. E assim o fiz, sem me preocupar tanto em pôr uma ordem, seja ela cronológica ou de meu gosto pessoal. Creio mesmo que poemas não têm data, são eternos e habitam num eterno presente. Com esse propósito, fiz uma miscelânea de tudo o que tinha escrito até então: desde poesias de nível até aquelas sérias candidatas à lixeira. Deixei tudo ali para que o leitor fizesse o julgamento. É que também, no fim das contas, nem sempre o que a nudez revela é algo belo ou digno de apreciação.
Como dizia, mesclei poemas antigos, de métrica rígida e fechada [sonetos, via de regra] e poemas mais soltos e contemporâneos, mas – ainda assim – ali prevaleceram os primeiros, e disso decorreu então a parte inicial do título [Lira Antiga]. "Bardo Triste", por sua vez, deveu-se à temática mais rotineira em torno deles. É que os poemas do livro anterior [e, em alguma medida, os deste também] gravitam em torno de temas como dor e sofrimento, sentimentos enfim, embora encarados quase sempre com forte veia filosófica. Ousar poetizar não seria algo muito além de um reconhecer, sem frustração, dessa nossa incapacidade de comunicarmos certas idéias e sentimentos; e, sobretudo, perceber haja beleza nisto.
Diferente do primeiro livro, neste cá, os poemas guardam então, quase que integralmente, a ordem de sua feitura. E se ali havia apego à métrica [à forma], aqui (ao menos em alguma medida) o apego é ao quadrado [à estrutura], a despeito de uma maior incursão nos versos livres, seja em volume, seja por gosto e predileção. Entre um e outro escrito, houve uma sensível transição: de início, de um exercício para o aprimoramento quanto à forma, passando por um maior apego a ela [por predileção], e chegando, por fim, [pelo menos quanto aos sonetos] a uma maior apreciação ao “quadrado”, a despeito mesmo de que isto eventualmente maculasse a métrica.
No primeiro livro constam poemas lentamente cunhados entre os anos de 1998 e 2009, justapostos acriticamente e sem uma ordem preestabelecida. Neste, todos foram escritos [a despeito de profusão similar à do anterior] entre 2009 e 2010, o que explica a segunda parte do título [Bardo Tardo]. Uma marca, porém, une o Lira Antiga Bardo Triste e o Lira Nova Bardo Tardo: o fato de as poesias serem, num e noutro livro, algo cruas. Não que não haja lapidação ou debruçar detido em cada uma delas [e alguns amigos que acompanharam o progresso do livro, seu processo criativo, e que viram as várias versões de um mesmo poema diriam até demasiado o burilamento], mas, assim o fiz, por gosto pela poesia primitiva tal qual me veio [e nem tanto por pressa ou razão outra]. Procuro sempre me deter em certa medida – e isto se repete em ambas as obras [e provável em quase tudo o que escrevo], para que os poemas não percam seu sopro intuitivo inicial talvez. É qual se desejasse que o leitor mais aguçado pudesse perceber: “existe algum talento aqui, há esforço também e não falta sentimento, mas parece uma pequena fração de trabalho talvez careça, a poder tornar o poema mais sonoro, mais adequado na métrica, mais perfeito na forma, na estrutura, mais belo até...” Assim os deixei; assim eles são; propositalmente, ou não. Fiz o meu quase-melhor. E haverá, talvez, quem sabiamente diga: – sofre de poesia-presa, coitado, [ou bem-aventurado, sabe-se lá]; sua melhor-poesia inda há de vir. – Deixo-a pro sonho, pro vento ou pra quando oro sem que ninguém mais possa ouvir. Talvez seja isso mesmo, ou talvez eu só não saiba lidar com a ansiedade.
No geral, diria que o que mais caracteriza o presente livro é a maior liberdade [daí, então, o “Lira Nova” do título], sobretudo a de brincar com as palavras e com os sentidos delas, sendo esta apenas uma das muitas razões para se escrever: a simples, pura e lúdica diversão de brincar com as palavras e com os sons.
Mas nem tudo precisa de um porquê. Nosso modo Ocidental [de pensar, de agir, de viver] quer sempre buscar por um – um porquê, uma razão, uma ordem, uma lógica. Queremos uma seta, uma mira e um alvo. Queremos um móvel e um motor. Queremos um destino [e vejam o desatino], não apenas isso, não apenas fim, mas começo e meio também. Queremos o caminho fácil, traçado no mapa da ilusão, e que haja tesouros ao fim da jornada sem-fim. Queremos a certeza num universo de incertezas.
Sim, neste caso específico [da poesia], como igualmente na escrita em geral, há de haver bem um porquê – e com um quero dizer sejam vários [desvarios, melhor se diria]. A resposta fica a depender do momento, do texto, do estilo, do que mexe, do que move [e do que nos move também]. E daí o porquê de dizer já não mais diria apenas um, mas alguns [porquês].
Ora escrevo por catarse, pra purgar e expulsar. Externar seria muito comedido pra poder expressar a pungência da idéia. Ideal mesmo seria: “botar pra fora”. Escrever aí é terapia. A intenção é a de, quem sabe, olhando no espelho do mundo o que outrora dentro esteve [e que, por vez, ainda está], possa então melhor analisar, divisando os meandros do que se extraiu. Ainda que, por vezes, o que se extraia seja horrendo; por vezes, belo; por vezes, cause choque e espanto; por vezes, seja apenas vômito a ser rejeito; mas que, por vezes, é ainda pedra bruta a lapidar na alma. E, por meio de tal análise, seja lá o que vier, sonho possa então um tal procedimento viabilizar a cura. Ora escrevo só pra mim, por puro prazer, por gozo e pela arte – pelo puro e lúdico gosto de apenas brincar com as palavras [e até mesmo com os sons], tal qual num jogo, num duelo que se trava em meio ao abismo que há entre o símbolo e a idéia. Ora escrevo pros outros, pela paga de um simples e bobo elogio, e ainda pra cutucar, pra mexer, pra 'causar', pra chamar a atenção, pra gritar e até pra acordar [ainda que a mim mesmo]. Ora escrevo por exigência – 'ossos do ofício' – pra convencer, pra defender, pra proteger e pra turvar, pra nublar e ocultar, pra mentir e enganar [embora reconheça a arte engane mais – e bela seja ao menos]. Ora escrevo porque sinto faz parte do que sou [e cause estranheza talvez o fato de que alimento seja algo de que se nutre, algo que adentra, algo de que se constitui e passa a fazer parte] mas é dela [da escrita] que por vezes me alimento [embora de mim é que ela advenha – Advém? – Torço não seja excremento]. Escrever é então uma necessidade – tal qual a de respirar. E nem sempre dá pra parar a despeito dos imperativos do dia-a-dia a berrarem sua maior urgência, pois a urgência maior é viver a alma em seus longos haustos. E, repito, escrever aí é desnudar-se – e se é pra fazê-lo, que seja sem pudores [inda que o que a nudez revele nem sempre seja belo ou digno de apreciação]. Ora escrevo porque quero me ‘desmecanizar’... poesia corta fundo na alma e faz fluir o que há de mais genuíno, menos maquinal, desnuda a ponto de rasgar não apenas vestes, mas a própria pele, músculos e nervos, arranhando ossos e despindo os véus da alma, nos deixando nus para nós mesmos, refletindo no espelho nossas fraquezas, ânsias e medos, revelando nossa pequenez, mas também nossa grandiosidade... cabe dizer, repetição, treino e prática [bem-vindos e positivos sempre] nos fazem automatizarmos certas ações; tornamos tais ações intuitivas a ponto de não precisamos mais pensar para fazê-las; entramos numa espécie de transe e elas simplesmente acontecem, porque talvez o corpo já tenha decorado os caminhos que a mente [quem sabe seja a alma ou o coração] tantas vezes percorreu e lhe ditou... rotina não, rotina é outra coisa, rotina é ruim, rotina é mecânica, e rotina cansa... se [erro tina], pre.firo mar... todos os dias precisam ter aquilo de diferente pra sentirmos que o tempo passa... doutro modo, acordaríamos, certa feita, e descobriríamos que estamos velhos, que nada fizemos da vida e que a morte logo espreita. E é por isso que escrevo, porque quero fugir da rotina de mim e descobrir o meu estranhamento de todas as coisas, a contrastar com esse intuitivo senso de pertencimento a tudo – e quero descobrir o quanto minha alma é estrangeira para mim mesmo e quanto tenho de lar em toda parte. Ora escrevo porque então é a letra que impera e a voz íntima que comanda. E como se me ditassem as palavras que me vêm da mente, assim elas são. E tão belas e fortes em ímpeto de idéia que mal as mãos se prestam a tão rápido transcrever os signos, as rimas ou as metáforas sem que a mente a tudo perca. E ora escrevo só, pois ora escrever é oração [ora, ação da boa é daquelas que se faz em silêncio e em só.lidar]... E ora escrevo, pois palavras são somente símbolos e nada além – e mais importam as idéias a que elas palidamente tentam se reportar e representar, ocultando-as sob o véu e a máscara. Escritos, sejam lá quais forem, falam quase sempre do que não podemos transmitir a outrem com nossos signos primitivos. E, já o dissemos também, ousar escrever é reconhecer, sem frustração, nossa incapacidade de comunicarmos certas idéias e sentimentos – e, sobretudo, perceber haja beleza nisto. É por isto que ora só escrevo e sem mais: sem razões, sem instâncias que lhe confiram mote, ordem ou direção – motor, móvel ou pulsão. E escrevo porque há uma mágica e as palavras são como runas que nos transportam para outros mundos e nos conferem dons que nem imaginávamos possuíamos e nos aproximam dos deuses. Ora só escrevo... e chego a bendizer, quando não a amaldiçoar, não o dia em que os Fenícios fizeram traçar mágicos signos em forma de cunha em suas pequenas tabuinhas de barro, do mesmo barro de que fomos feitos [sendo então co-criadores de uma criação sem-fim, o Criador se dando a conhecer pelas criaturas, como a árvore se dá a conhecer pelos frutos], mas o dia, aquele perdido dia, oculto na noite dos tempos, em que um bando de primatas ousou misturar os sumos de flores e frutos pra registrar vida e o que quer que seja – em cores vivas – nas paredes de suas cavernas... “Escrevo porque o instante existe...” e desejo imortalizá-lo, e até mesmo o que nem exista ‘ainda’, e a quem interessar possa...
Fica aqui, porém, um alerta derradeiro: é poeta quem se permite dotar de sensibilidade tal que divise a maldição e a maravilha que há em existir; e isto por vezes a tal ponto que, quando extravasa, precise exteriorizar de algum modo [pra que talvez não se veja engolfado pelo que lhe foi dado “ver”]. Assim, pode-se ser poeta e escrever, mas poesia é visão de mundo, é perspectiva – e vai além [muito além] da mera escrita – é poeta quem poeta vive!
E não é a poesia que precisa do mundo, o mundo é que precisa depois ía, justo porque ela imprecisa. É que pois ía diz.atando os nós, mas até os cegos cura... e é foice...
Teresina, madrugada serena de domingo, 13 de Junho de 2010 – 04:31h.
Francisco de Sousa Vieira Filho
* * *
Post-Sriptum: Diz a bíblia “nem só de pão vive o homem...” e eu leio com a avidez de quem busca alimento, de quem busca o pão de cada dia, com a acuidade de quem vai à caça. Bem, sei que por vezes comemos cada coisa! E há até quem se sinta desestimulado, porque quanto mais se lê, invariavelmente, mais se descobre que outros falaram, exatamente, aquilo que se gostaria de ter dito, ou como gostaria de ter dito. Uma prova talvez do liame invisível entre as almas. O certo é que eu não os compreendo bem, porque quanto mais leio, mais vejo quão infinitos horizontes há por serem escritos – e isso é sobremaneira reconfortante. As palavras estão lá, pairando no imponderável, e esperando serem pescadas, pescadas “por pescadores do rio d’alma”. E parece haver uma necessidade inarredável no espírito humano [uma?!], a de suprir o profundo vazio e a gigantesca incompletude que se sente. E é uma incompletude tal e um vazio tamanho que mesmo talvez a plena comunhão com todos os seus pares, provável, não saciasse tal necessidade. Seria preciso talvez uma comunhão cósmica com tudo o que exista e provável até mais. E é desse vazio que parece[!] surgir a [co-]criação de tudo o que perpassa pela mão humana. “E no princípio, havia trevas...” e o que surge vem para extirpar a treva, causar-lhe alguma chaga ao menos, ferir sua pele turva e, quem sabe, trazer alguma luz de algo novo, de algo que, se não supre o vazio, dá alento, preenche, é paliativo, um remédio provisório que ninguém oferta senão com o profundo desejo de modificar o mundo e a realidade que o rodeia, ignorando até – veladamente – não possa fazê-lo senão mudando a si mesmo, sua própria realidade interior... é por uma tal razão que me quedo aqui – sedento – à espreita destes ventos de mudança.
Francisco de Sousa Vieira Filho
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010
MUDO
MUDO
No quarto-mundo, mudo, muda tudo
Silêncio que esquarteja, eu não me iludo,
Cioso a bem querer que a muda nasça
Mudança que não seja só fumaça
Que vingue, planto o plano e esta ânsia
Varrer-me muito mais que a ignorância
Que eu possa libertar-me, ser prisão,
Aquilo que quis feito ao coração
Quartel, broquel, cinzel me seja fel
Grilhão a.quarto.é.lado que foi céu
Tão logo eu me perca na emboscada
A carne me é posta em cantos cada
Que exposta ela me fica na rubrica,
Do que me quis grafar, e.na.morada,
Comer-me, de bocado, em só garfada
Na dor e no clangor de guerra rica
Morder pitacos d’alma é que se quis
Fazer bem mais que outros, foi que fiz
E ousei beber da dor ignorada
Saber que possa ser da alma amada
Ciente, mais que sente, a se perder
Quisera a só do amor eu pertencer
Mas tempo, sei me falta, e já é.terna
A mente é.de.ficar-me esta caverna
Que a.talho eu, pedaço inda menor
E corto carne, sentido e sentimento
A fluidez deste silêncio me é pior
Se não me tira d’alma um só tormento
É que me quer turvar visão refeita
Espelho, olhar esguelho que me espreita,
Mal possa libertar o que mais queira
Sentir que entender só seja à beira
A desaguar, que o silêncio não desfaz
E nem a dor de em.tender que é fugaz
A fluidez que, já sem sopro, eterna fica
E mata a sede mesmo que me seja à bica
E se tal dor, que seja amor, se faça filha
Por mais pequena, de supor, que seja ilha,
Maior a pena é de saber que a de sofrer
Pois que fizera o não-sentir para não-ser
Ah, poesia, caminho em que se trilha,
Em que mais vasto mundo se palmilha
Um tal querer, que tal sentir e não falar?!
Mais vale senso e direção se for a.mar
Francisco de Sousa Vieira Filho
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domingo, 3 de outubro de 2010
TÁ.TU.A.TEI.HÁ.FOGO
TÁ.TU.A.TEI.HÁ.FOGO
A persistir e tanto fiar
Atei.mar ao corpo teu
E ao sentir que sumos
Ondas suaves a[r]ranha
Tece fotos, quadros e tua pele
Em lembrança inamovível
Na trama tecida és.haurida
E a.teia fogo queima
Mesmo à diz.[tu].ânsia...
Que disto.âncio ãn.seio teu
Andar.ilham dedos
A.saltar a geografia tua
A.lasca fria nua
O círculo de fogo
E tanto atei.mar
Entre arquipélagos teus
Que uni.versos
E uni continentes
Donde só.pra ti
Brisa suave
Em.corte.nada
Sem mim és.quer.ser
E é pôr já.nela
Já.nela.ando
Que me perco
Ser.é.nada
Sê.para ti em.sê.já...
Pra ti em.ti.mar
Em.mar.anhada
A.foi.tu?!
És.culpa d’alma
Teus novos horizontes
E se me conte.nua
Boca gêmea geme junto
Ao lado.e.ando-te
Em.balsa.amada
Transe.tando-te
E te tendo
Sem saber se a.clara
Ou se, ah[!], gema...
E eu, aqui, lendo-te,
No braile da alma
Ao tato agem as polpas
Tá.te.ando-te
E tu.pei tu porto
Em que me aconchego
Ancorado à tua tez [ouro]
A.costa.ela minha
Não de A.dão
Os ais que ela dá
Ela ex-ilha e ponte.ilha
E faz um tanto
Que derruba muros
Sim.gelo o coração
Na inicial timidez
De toda vez
Maravilhado ao ter/ler
E cada vez mais
Nas linhas de tuas mãos
Nas de tua face
Tato.ando a pele inteira
A segredar sem degredos
Meus dedos confiam
Sussurros à pele tua
E a prova de que cora.ação
Que te ver.melha de esguelha
Em cada uma de minhas passagens
A.prece.ando-te aqui
A.flor.ando-te ali...
A.prece.ando-te aqui
A.flor.ando-te ali...
De flor ando-te também...
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domingo, 26 de setembro de 2010
DE LÍRIOS E DE LUCIDEZ
DE LÍRIOS E DE LUCIDEZ
Basta olhar os lírios do campo um tanto
A querer bem perscrutar se saiba quanto
Que dor-mente se nos faça a dor alheia
Por seu simples perpassar em outra veia
Qual se a noite aclarasse num decanto
O que a faina de outros ombros nos permeia
Do que, súbito, desperta, e por encanto,
A consciência enredada nesta teia
De olvidar a dor do mundo, o triste pranto
Engana-dor quem fecha os olhos e campeia
A triste senda que, soturna, lhe é por manto
Neste delírio lirial não ouça o canto
Tão densas trevas que, na luz, ele descreia
Com-parte-ilhada a dor do outro seja meia
FOTO: http--yayeveryday.com-post-10722
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segunda-feira, 20 de setembro de 2010
A PEÇA HÁ DE FAULT AR
A PEÇA HÁ DE FAULT AR
A peça que me falta pede
No paço da razão eu possa
Contemplar que tanto peço
De perder-me no compasso
E ãn-seio sem.ti afagar
Tão dela.e.cio que ãn-cio
Veio diz.sentir afogar
E está tudo por um fio
Do que fomos e que somos
Rio em que desagua o mar
Dor.sal da terra eu abraço...
Em tal diz.senso a vagar
Que sal.dade é este.lhe.aço
Que dôo e dói cada pedaço
Na diz.sem.são, divagar...
Que não se constrói sem ti
Animal sedento e sedentário
Pois de tudo o quanto vi
Que pulula e que é vário
Penso, somos cada sumo
De um querer desentortar
Neste labor eu me consumo
Não consigo, mas eu tento
Trago comigo cada caco
Que, à vontade, eu desarranjo
Meu triste rosto de macaco
Minh’alma luzente de arcanjo
Refazendo-me, à receita,
Desta refeição refeita
Nesta linha rarefeita...
Francisco de Sousa Vieira Filho
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sábado, 18 de setembro de 2010
TÁ.TE.ANDO AQUI AMOR TE AH.NUM.CIANDO MAIS
TÁ.TE.ANDO AQUI
AMOR TE AH.NUM.CIANDO MAIS
E eu me pego aqui,
És.tocando-te alimento,
Pra sem[ti] depois...
Pois bem sei,
Logo vais me deixar...
E que não tarda a tarde
Em que te vais...
É que aproveito
Estes meus ais
Que não de dor
Comigo estão
Mas não contigo
Enquanto juntos...
Ainda...
Leve e pouco a pouco
Foice mudando.
E eu sem ti tudo...
É o que me eras.
Te vi agindo diferente,
Ao passo que eu
Me viajando aqui
E tá.te.ando ali,
De um lado pra outro,
Sem sair do lugar,
A pressa.em.ti
Que invernos eram.
E mesmo a despeito
Dos momentos
Em que em.cruz.ilhada
Em meu corpo eras...
Passadas...
Ainda em.ti.mi.dá isso,
Mas não dá mais.
Cama.arada sempre
Esteve a te esperar
Porque flor.é.ser-te.
Mas não vingou,
Ao peso do desprezo
Estéril teu.
É que o teu ensejo
Já não seja mais o meu.
Em.levada de si
Em seus laivos sucessivos
Você veio rio caudaloso.
Vestida da tristeza mais fria,
Enregelada pele tua,
Como há muito já me vinhas...
Vinho amargo.
E eu te cingi de sol da manhã
A cada vez que vi,
Como agora,
Que já não eras há eras.
Restou esse buraco negro,
A desmontar-se.
Mas persisti e te segui,
Como sigo
Em meu cismar sísmico,
A te sentir cada mínima nota,
Cada pequena nuança,
Da imperceptível mudança,
Que em ti já sentia,
E que já se ah.num.ciava,
E há muito,
Como sem querer acreditar,
Mas como ainda assim.
E o acre dito que de teus lábios
Vomitarão, lava vulcânica, um dia,
Também hei...
Sei que sempre foste pendular:
Longe, se me estava perto,
Perto, se longe estávamos,
Ah, mas como, sim, tu...
Mas já sem ti
Se é só comida fria...
Pois sei que foice
Há tempos ceifou-te
Flor.esta
Que Deus
O nome deu
Amor.
Francisco de Sousa Vieira Filho
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